quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

ontem




















não, eu não curto palavrão, não

não temos nada em comum, sim

quero te encontrar na estrada - é certo -

na parada do último ônibus vermelho

numa londres desvairada, impulso

na escada de incêndio enferrujada

como num filme velho e tolo

ouro não me dá desejo, nem a fama



não, eu não sei o que há nos teus olhos, não

só sinto calafrios me queimando os ossos

um negócio que não cabe em letra

dentro de mim há uma suspeita

mas escapo, deixo a linha reta

não derrapo, sigo certa estrela

insuspeita como é teu brilho escuro

teu neon inscrito em meus muros



não, somos tão desiguais e não,

somos como um só desconforto, sim

que nos habita e nos joga fora

como agora quando rabisco linhas

minhas mãos não tremem, não vacilo

um cordel sem rima, sem estilo

nossas vidas não vão se encontrar:

já se encontram sem hora ou contato



os relógios são apenas artefatos

a arte consome tudo como fogo

cinzas, brasas, madeira de lei roubada

vivemos na floresta escura, encantada

em meio a dores amores sem cura ou norte

sigamos nossos caminhos fáceis

não há ninhos e também não vemos pássaros

apenas o céu cinzento prometendo raios



se eu disser que há de fato um nome

retrato de cor que rasga minha aorta

alguém de costas para a parede assina

remoendo lentamente um real havana

a garrafa cheia de vinho tinto barato

uma mulher de pele rara canta

pronta pra quebrar com as mãos e danças

a matéria dura dos canhões, a bala



continuo dobrando as esquinas

sem cuidado atravessando a ponte

dirigindo a própria vida, a morte

não me engana, sou muito mais forte

que imagina o brutamontes tosco

eu me dobro quando vem o soco

a navalha falha, não sabe encontrar

meu ponto de corte, o meu calcanhar



lido com a brisa que embaraça meu cabelo

peso cada frase, entorto cada verbo

destruindo com incerteza o selo, o segredo

durmo sem fazer esforço quando quero

e nos sonhos pesados concretos escrevo

leio os avessos e os palimpsestos

acordo derretida em um país sem terra

não, eu não desisto, quero o inverno e a primavera



vivo um ritmo que não se aprende logo

sou como uma ventania sobre o lago

como água parada, eu sou um pântano afável

areia movediça quando engole um corpo

cuspo faíscas, querosene, óleo fumegante

não sei fazer mal nem bem nem ouço

o que não quero, eu vou e desmantelo a fonte

com todo cuidado e zelo sigo minha errância



dentro de certos modelos pareço constante

de perto sou fina e gorda e mole e dura, impaciente

subo no mais alto monte, grito suave e minto

menos que se quer, as mentiras esmago de jeito

as verdades trato com mel, lua e açoites

pelas noites vago só no beco estreito

sem medo de nada que pressinto, não,

não fujo dos espelhos, mas não me confundo



vem me encontrar como já fizeste antes

numa nuvem de ópio e diamantes

na música batida e forte dos tambores

ousa arcar com a farsa dos amores

não há nada mais intenso que os rumores

beijos e mais beijos que não serão dados

não se pode acabar o nunca começado

os dados rolam sem rumo no horizonte



o destino é cada passo torto e incerto

a vida não aceita freio ou acelerador

o universo não é um motor à gasolina

tudo ensina, tudo erra, tudo é tentador

sem revólver, sem bala ou agulha

sem escudo, sem pudor, sem gula

me destrua, console, me refaça, indefina

amanhã também não será tarde ou sina



todo dia, noite, madrugada, lusco-fusco

nos pores de sol, na entranha da montanha

no túnel aleatório dos códigos, algoritmos

as portas sempre abertas, as veias, os sorrisos

vem me contar sobre as artimanhas e delírios

sobe no ponto mais alto do edifício e pula

meus braços macios vão garantir que seja doce

ouve o coração, teu coração, o meu e vem.


ontem.

:: the skidi pawnee star chart | field museum of natural history, chicago ::

:: stars and constellations of a pawnee sky map | ralph n. buckstaff, 1927 ::

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

casa de peixes

























nossa história é em mim

como nenhuma

nada de real há nela

espirais de suspiro e fumo



nosso futuro é alecrim

cresce do não sabido

todo espera e arrepio

completo de nuvens e escuro



nosso agora é difícil

intenso e rubro

sol que despenca, lua que ascende

eterna criadora e criatura



nossos nós são fins

meios que entreteço

incontável algodão de fios

voz que inicia em meus olhos



nossa viagem é jardim

infinita e breve

trem que não descarrilha

porque a alma é o trilho



nosso sonho é sem fim

feito de alguma

água suave e afagos

nave de ramas e lodo



meu amor é assim

como nenhum

pedra no fundo do mar

casa de peixes e musgo.

:: sea fishes | toshi yoshida, 1975 ::

sábado, 29 de outubro de 2022

just




















in the dreams you dreamed

glowed high

in the dawn of a love

the morning star



the calm and endless sea

compass of your heart

the wind draws on your face

a look of waiting and light



loose desires



your body float

above the sand

don't leave marks

your steps



everything is path



the music of the waves

repeats non-stop

that your fear is foam

that in the air falls apart



the night is undressed

the sun wakes up the morning

and you find out

that I'm yours



and only.



revisão e correção luxuosíssima de
cris lemosxanda lemos
obrigada, lindonas!

:: starry night | jean-francois millet, ~1850 ::

 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

arvoremo-nos






















sem ti

posso

mas não quero



navegar na estrada

de ferro, embarcar

nos risos, flutuar

em lodo



sem medo

posso

e não quero



entregar meus olhos

rasgar meu cheiro

romper o silêncio

com um berro



sem ti

ouço caminhos

e espero

flores, agulhas

costuram o futuro:



sem ti

um erro



sem chuva

sem sol

um abraço

que não seja teu

descarto



sem palavras

certa

sigo

asas quebradas



sem saber

se há outro lado

saiba

todo lado

onde quero estar

é teu.

:: baume in hugeliger landschaft | georg tappert, 1918 ::


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

laço

ver-te
vez por mês
(talvez mais)
olhares semanais
diários, e enquanto
dormes não olhar
teus olhos fechados
porque há nisso
um quê de macabro
um silêncio invasivo
um requebro de posse
inegável, um traço
desnaturado de assalto.

ver-te
sempre uma vez
mais, olhando o cais
os dias, o rio
e depois do almoço
deixar teu sono farto
no sofá, enquanto absorvo
meu sonho próprio
porque há nisso
um quê de amor insólito
um silêncio livre
possível, um abraço

infinito e fácil.

:: frida kahlo com "o abraço de amor do universo, a terra (méxico), eu, diego e o senhor xolotl" | florence arquin, 194? ::

 


terça-feira, 20 de setembro de 2022

caminho


















me pedirás para ir

eu irei



me dirás: vem antes

eu irei



contigo em lugares

belos que queres

repartir céus

e quartos de estalagens

onde à noite

no escuro

dançaremos



contigo, antes,

já sou feliz

em teus braços

que me alcançam

somente se há sombra

e podes existir

na confusão dos olhos



me pedirás para ficar. 

:: enclosed field with rising sun | vincent van gogh, 1889 ::

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

odissea






















em sonho

me vi vegana

rasgando o couro

de um bicho

com os dentes,

mastigando

pedaços do teu nome



insana

acordei um mundo

diferente, planejei

artimanhas

de quem descrente

sonha ganhar, na fé,

beijos e mãos



carnívora

abocanhei as frutas

com ar

dentes

sorrisos



no espelho invertido

dos amores

você dizia

sim

e eu não



travei o chão

nos pés, corri

quilômetros, milhas

abreviei os anos

cuspi vagas marítimas

até afogar o navio



espartana

permaneci atada ao mastro

mas não pude, de fato,

ignorar a luz dos olhos

e adormeci, de fato.



:: strong dream | paul klee, 1929 ::

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

dawn











na madrugada

as perguntas são

o ponteiro das horas

: que perfume você usa?

: com quem você mora?

: com pouco sal
  ou comida salgada?

: adoçante ou açúcar
  na salada?



meu nonsense

querendo sua risada
:)



disparates

que você conhece,

entende, e o pior

: adora.

:: l'aurora | guido reni, 1612-14 ::

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

stoned

















desta vez

os livros chegaram

e sequer li os prefácios

pois os títulos bastam

pra me arrebatar



eu poderia acusar-te

de sequestro

senão a ti

tua palavra

roubada onde entrei

feliz como se não fosse

essa uma dita má condição



maldita então

ou há alegria na entrega

sem reservas ou pré-condição?



poderia explicar como deslizo

nas referências aos palhaços

as famas que me levam

craseadas ou sem

pros braços de louie satchmo

"argonauta sem tréguas"

como eu disse de veloso

uma vez em canção

que finalizei assim:

"terra pra que te quero?"

mas não



prefiro

enterrar minha cabeça

no forno em companhia amada



outro deslize e caio soprada

pelos ventos alísios

na cornucópia de ópio.



da literatura dos tristes fins

ficam-se-me os dedos

sem memória de cortes

que papéis afiados deixam



carpo metacarpo falanges

de desarranjos tortos



toda a vida sem rima

porque não há mesmo

solução

querido mundo.



sshhh...

silêncio!

o sol está vindo

ouça



e ainda resta outro

porvir

via estafeta

ele trará



desbastamentos

do tigre assíncrono

devorador de si

do fogo



eterno



que desbasta o campos.



espero.

e que não seja o último.

:: louis armstrong | world-telegram staff photographer, 1953 ::


domingo, 7 de agosto de 2022

pecado original





















todo dia meu amor cresce

edifício em construção

tem seus mortos caídos

dos andaimes e estruturas

de aço.



mas engraçado

à noite

enquanto dormem

engenheiros pedreiros e arquitetos

ele também cresce



um olhar mais perto

revela tijolos feitos

de mistério colados

com argamassa que é mistura

de desejo e sorte.



:: manoscritto_B | leonardo da vinci, 1488-90 ::

 80 anos de caetano veloso

♫ 

Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

terça
















a barra do horizonte

aqui não como essa

consome a madrugada



as montanhas nunca foram

tão escuras e longes

ou talvez sim



nuvens leves

outras quase imóveis

neblina e quero uma estrela



digo teu nome

nome nome

dá-me uma estrela



a esperança de pedra

espera na janela

o universo dilatado



meus olhos ora fechados

ora atravessados

pela espiral dos ventos



desinstalada coruscação

em nesga breve

vênus não tem pálpebras



mas brilha um décimo

em diamante

sem hesitar peço



estrela planeta

dá-me um poema

para nome nome



esse se veio

não corresponde

ao que te quero.



:: venus and the moon strike a pose | petr horálek, 2016 ::

sábado, 30 de julho de 2022

oceânide















tomaste a cabeceira de assalto

se perto dela durmo

nela tu moras



como não sei muito chorar

mas dizem ser preciso

no antessono

abro-te como bíblia

oráculo corto palavras

romã regrido

inverto-me

vértebras estralam

ouço sons de flauta



apesar de tudo

sempre tem vindo

nenhuma lágrima

porque não sei chorar

pouco nada

mas vejo

um rio de gotinhas

nos versos auschwitz

pois muitos teus vêm de lá

ou das cercanias



e anda o relógio

da estação treblinka

o tempo das 3 horas

que não se sabe



madrugada ou tarde



se move por fim

e o espéculo retrato das dores

de doris e todas e todos

brilha doido doído

moderno pós e antigo

como as guerras

diodo emissor de luz

sigla LED em inglês

light-emitting diode.

:: rain, steam and speed | william turner, 1844 ::



quinta-feira, 28 de julho de 2022

redondo























A curvatura do vulcão,

a redondeza da esfera,

a bola de gude, a roda

arada da bicicleta,

a base ampla do farol,

as bordas da bacia, a concha,

a tampa frouxa de um bueiro,

as argolas do mistério,

anéis de fumo sem cinza,

moedas em cada esquina,

compasso que mira o círculo,

as almas e o esquisito

das auras brilhando no escuro

os olhos da onça, os furos

por onde entraram as balas,

a Terra, a Lua que desponta

todo e qualquer planeta,

a cor que rodeia o seio,

a forma do bastidor,

o caroço do abacate,

os zeros, os ós, o ninho,

o laço no ar buscando

o cavalo, o vinil antigo,

a luz quando encontra

o espaço, o tempo

que se contorce

buscando de volta

o começo, a boca aberta

do sino, os aros dos óculos - finos -,

o sol por si só aceso,

o centro do girassol,

a forma do desatino,

o jeito do amor no peito,

o oráculo de cristal,

o prato de ouro, a cama

feita do motel, os lábios

abertos em grito,

a sombra do carrossel,

a cobra enrolada, o giro

que descreve no ar o véu,

o som que solta o pandeiro,

a fórmula do cansaço,

a vida encontrando a morte:

cada qual no seu quadrado.

:: le premier disque | robert delaunay, 1912-13 ::

segunda-feira, 25 de julho de 2022

tremendo





















Levei o dia a tremer de amor

como se algo

(não faço ideia do quê)

estivesse acontecendo

(não imagino onde).



Sim, o amor é invenção

dos individualistas burgueses,

sentimento liberal,

ilusão que não dura seis meses,

construções do romantismo,

de verter até o suicídio,

de morar em gueto

infestado de vícios

e escuridão. Sofrimento

que não vem de fome

de comida, coração de quem tem

onde morar e é está bem servido,

servida. Amor que, Carlos, filho nosso,

é assim mesmo, claro e enigmático.



O dia me levou assim:

estômago na garganta

borboletas de febre na fronte,

agitação de bandeira de renda,

suores inexplicáveis:

talvez não seja amor,

seja vírus: amor de pandemia.

:: birth of virus | robert steven connett, 2020 ::

quinta-feira, 21 de julho de 2022

desordem


















O que me ata

me desamarra

por onde me espalho

me encolho?



Que terra me bate

nos olhos, o que me cega

me acalma, me trafega

por que subo o morro?



Por que desço

me encosto na pedra

escorrego, tropeço

que queda me assusta?



Arremesso-me até

desarrumar a boca

os braços tensos

as mãos postas

para o mergulho?



Mistura de óleo

e água, amoródio

que as criaturas

devotam umas

as outras

também.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

inclusive


 


















Permito, inclusive, que penetres

o meu ser simbólico, imaginário

ao qual nem eu acesso ou tenho,

e a carne, inclusive.



Demito até meu nome:

que me chames é suficiente,

na demência do amor podes, inclusive,

não chamares

que eu vou.



Repito mantras que não aprendi,

cruzo dedos trêmulos,

persigno-me falsamente

credos rezo habitando fés

que moram longe, inclusive

inexistentes.



Invito palavras

como quem chama os exércitos

para batalha santa e negra

e atendem orixás de seda

e vinho. Bebo chás de ervas

desconhecidas sem temer

que, inclusive, me matem.



Dramatizo as horas,

ouço canções de exílio,

sonho esse lugar onde há grilos

e luzes não identificadas

passeiam no horizonte escuro

onde, inclusive, não me encontro.



Mastigo as saudades,

chiclete que ponho na geladeira

junto com açúcar, inclusive,

e masco os círculos de fumaça

que desenho, redondos.



Aspiro o frio de julho

feito quem aspira um beijo,

inclusive no agosto próximo

e em dezembro, porque todo ano

o que sinto será inconclusivo,

contínuo e fluido devirá

como por enquanto.

:: l'arbre de paradis | séraphine louis, 1928-30 ::


terça-feira, 5 de julho de 2022

across the universe

















sem linguagem ao alcance

enquanto acontece

vaga pelos corações um sangue

onipresente e alegre, quente

como um meio-dia de verão

em praia do nordeste.

mais além do compreensível

explode o tempo, quebra tudo

amansa a noite e o dia

manipula as regras da obediência

arranca o normal da vida à unha

reconhece o pulsar e assombra.



sem pretensão ou alvo

enquanto desaparece

voa nas asas incandescentes,

oníricas, do desejo

carrega o universo indecente,

errante, impossível,

mel que nenhuma abelha urdiu

erode a pedra, é um fio

amarração invisível de prata

mar que invade as pernas

alcança as veias e os olhos

remove a dor e as sombras.



sem querer vê a estrela que cai

e a apanha na garganta,

vela que se estufa e não há vento.

onde nada estava certo

começa um rito de erros sucessivos,

espanta o mal com largo riso.

mergulhando em lava e precipício

entende, não entende, aceita

amargo o gosto do licor

maravilha-se e se expande

até adormecer o medo

respira à sombra e acorda.


inacreditável.
incontrolável.

incontornável.
inapreensível.

:: la corde sensible | magritte, 1960 ::


quinta-feira, 30 de junho de 2022

verso fulo





















Para quem não sabe nada

não tem de mim geografia

não ouviu a minha toda história

assim como eu até duvida

pensa que eu só quero a glória

mas sempre lembro é do peninha

e do morcego vermelho

infância às vezes disneysíaca

sem ponto, vírgulas, exclamações
dois pontos

nas chuvas o canal enchia

e a boia era as entranhas

de um velho pneu



sou gibi, sou fada, sou padrinho

sou o balão com a fala acima

na cabeça trago pouca rima

e tenho um pé quebrado

na garganta, um sobrado

feito de esperanças

um galpão de gorda estripulia

galinheiro de maçãs e milho

milharal de migalhas, farinha

de mandioca, tapioca

carne de sol que seca à lua

banho de cuia e pesadelos

sou mata cheia de espinhos

sedosos como algum cabelo

sou crespa como pão de trigo

que no fogão a gás se queima

mas só se o tempo se extermina

facão e lima, limoeiro

sou quase uma caipirinha

a matutar com a espinha ereta

os porquês do coração tranquilo.



Para quem não sabe de nada

assim como eu também não sei

meus parabéns, como admiro

a falta de repente habita

a falta é coisa infinita

a falta é como tudo e mais



no divã as meias sempre aflitas

miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga

aquilo que me alumia

o candeeiro de meuzói

as praças lá de caicó

e de uma lagoa seca

puxinanã e mato dentro

a soledad de um passeio

navio à velas apagadas

veleiro de moral suspeita

subo rápida no barco alheio

pirata sem deixar a ilha

capitã de minhas muitas vidas

vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta

navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade

sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha

e durmo ouvindo uma fita. 

:: fogo | giuseppe arcimboldo, 1566 ::

domingo, 26 de junho de 2022

antes do brinde















Meu coração quer te expulsar,
eu toda sofro os efeitos enjoativos
e bilaterais: nos pulmões, nos braços
nos olhos, nas mãos, nos seios, nos pés.

A cabeça não acompanha o jorro,
não se rende, te quer até o fim.
E os ouvidos, de fato, não aceitam
tua partida, assim, depressa
antes que algo aconteça
antes que um amanhecer...
antes do brinde.

Quanta contradição à poesia!
É a razão que te ama mais,
o sentimento de fugir
é desmandado, não é a loucura
a querer-te, é o quereres vasto
cantando, encantado:
é o pensamento.

Os barcos se chocam no mar
da luz de junho, com seus céus
noturnos, nublados, e outros
limpos, todos azuis e estrelas
esperando meu olhar na noite
de São João a rogar,
junto a  milhares, que olhes
para a imensidão e vejas
como ela é linda.

 ♫ Olha pro céu, meu amor ♪

:: noite estrelada sobre o ródano | van gogh, 1888 ::

terça-feira, 14 de junho de 2022

vou te contar
























O desejo em mim


é como onda sonora:
caminha no ar.
E sou eu o rádio, a
onda:
receptora.

Nem sempre sei
onde fica a torre
transmissora
(talvez por dentro).

Será certo que há
outro aparelho?


Estou quieta e do
nada
ele se instala, sem
chip,
transístores ou
fusíveis,
sem led ou aviso:
um instante de instinto
de querer. Vontades.



Em certos tempos
parece que o nada do
nada
que vem, queimou;
em certos tempos
queimam os poros.



Não discuto com
sensações
ou odores, não
questiono
as emissões do
gozo.

Por que o faria?


Deixo que se produza
em mim o esperado:
a alegria de estar
viva
e inteira.
Inteiramente
eu
vivo.





Mesmo que toda a
pele se desgarre,
o sistema
imunológico desista,
o amor sem razão
multiplica
os dias, corre nas
horas,
inunda os olhos de
céu, sopra
os ventos que me
ligam,
desligam, ligam,
desligam
piscando as pálpebras
da existência


plena somente
e somente se e
quando sobre
a lama, o barro, a
carne
o prazer incide.

:: magnetic fields of the hot jupiter tau boötis | jack madden, 2020 ::

domingo, 12 de junho de 2022

scio














eu só sei falar de amor
de um amor só ou de
dois,
o amor ao mundo,
o amor segundo,
primo
terceiro, escarpas, degraus
amor no
quarto, sétimo
inferno dantesco.

amor de irmã,
irmãos,
printados,
entalhados,
desavisados, cegos,
perseguidos, pacíficos
e plenos, realizados,
sem sangue, cortes,
não imolados.


às vezes, amor
semelhante
ao que se sente
pelas gentes,
amor que verte pelo
humano,
escorre um palmo na
calçada,
molha a rua inteira,
faz escorregar
da sela, saltar do
cavalo.

não porque seja
escolha,
mas porque o amor
verte
e todo amor é
quente
e transborda. dizem
que a
trai, transgride,
constrange,
amor de anjos
sexuais.

atrás da porta, na
varanda,
nos quintais, na
cena dura
das centrais
congestionadas,
no cais antigo das
desgraças,
depois das horas
mortas,
amor de madrugada
de lua e cobertores,
amores descobertos
e recobertos por
descaso,
enfiados no casulo
fechado toda a vida
borboleta-nunca.

o amor passa
pelas ruas
de mãos dadas
com a vida nua
de braços com a
filosofia
magra, mora nos
cortiços,
corre pelas estradas
louco e desgarrado,
o amor engolindo a nuca
tangenciando o passado
descascando o futuro,
remendo costurado
no escuro
do avesso.

amor assentado no
chão
de gelo, estagnado
no pântano,
amor ousado, arado
rasgando
a terra infértil,
amor que insiste
na colheita do que
não foi plantado
em pernas
entrelaçadas
nas redes, amores
que calçam
torres que ameaçam
desabar.



o amor romântico
atrelado
às vestes cheias de
babados
amor safado,
cafajeste:
não há amor que
preste
e todo amor é
válido:
nos bordéis, nos
cadafalsos
nos becos, nos
presídios
nos malditos fados,

amores destinados à
dor
nos túmulos, nas
ribeiras,
amor de estribo,
ferindo ilhargas,
amor que é um ilha
d’água
cercado de terra por
todo lado.



todo amor…



eu só sei falar de
amor:
dos escritos nos
muros
e apagados, dos
amores
rasos de um dia,
dos amores castos
inúteis e calados,
do amor sem gozo
do amor só gozo
e sem afagos, dos
usados,
em grego, em braile, em urdu,
latim, armênio, francês, espanhol,
tosco, rouco, pouco, exagerado,
do amor antropológico cozido
encruado, estrutural, desconstruído,
revezado.

amores não editados,
sacralizados,
relicários
invadidos, colados
com saliva e vinho,
destruídos por uma
fala.



mortais e para
sempre
eu só sei falar de
amor.

:: love, and you will be happy | gauguin, 1898 ::



sábado, 4 de junho de 2022

clarícima

 

















Eu,
o cachorro que pressente
a mudança
e logo se perde
antes que chegue
o caminhão
antes de cair dele,

morrendo de vésperas
mastigando vespas
chupando marimbondos,

vivendo e morrendo
de sede antecipada,
de fome em meio
ao prato cheio,

confusa como um sábio
porque são, sim, eles
os mais confusos.

Pensar, saber, sentir.
Onde está Morgana?
Quem partiu com o mistério?
Quem fechou o celeiro?
Por que o oleiro já não colhe o barro?

O vaso com a planta
responde, calado: “sim”.
E cresce o verde áspero do cacto.
O vento, não,
ainda no mistério ausente,
esse permanece e fala:
resposta igual e suficiente.

Que se dane o mais.
Que se faça o menos.
Que a febre suba.
Que a dor fomente.

Pois ninguém sabe,
como disse a moça
em fala clarícima
se o que sustenta o é
difícil inteiro é o defeito.

:: retrato de Clarice feito por Rui Ribeiro Couto, no caderno da escritora ::

terça-feira, 24 de maio de 2022

cores do tédio











Autêntico pranto
fruto inédito do tédio
insípido suco de vidro
claro e cortante colírio:
inútil remédio.

Idêntica gota
pérola gêmea do ódio
dor do iodo na carne
lágrima de grave saudade:
suave minério.

:: tedious | jiawei fu, 2020 ::

segunda-feira, 23 de maio de 2022

futuro do passado















fizemos
acordo tácito
que as mãos sujas
do acaso
moldarão nos fotogramas-
fantasmas, esmagarão
em cenas desastradas
porque estou mal vestida
e os beijos nunca serão dados

viciados
nossos corações
apostaram no dia
trinta e um
de um setembro
para nesse gramado
folhado feito outubro

seja
a plateia
pássaros, borboletas,
hibiscos, formigas,
orquídeas,
espiando de soslaio
o abraço, rosto
contra rosto

será a
gosto.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

oficina do adeus















da caixa de ferramentas
retirei o martelo, o alicate,
a furadeira, alguns pregos

chaves de fenda, um cutelo
um bisturi velho e o estilete
enferrujado.
amolei o facão.

ao lado, o botijão
vazio de meus medos,
o cavalete jazido
de desejos,
uma arruela solta
como anel.

primeiro
livrando os braços
retirei a camiseta
básica branca
uniforme.

calculei entre os seios o espaço
inexato onde você morava
e usei todos os instrumentos
para arrancar, sorrindo
entre fagulhas
o coração.

era ele ou eu ou
a desilusão.

jaz no chão
de ferro
essa peça rara.

na oficina
ninguém repara
a dor.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

yes, i will



















Queria ter um corpo jovem,
ágil. Aliás, pensando de novo:
jovem? Desnecessário! Bastaria um
saudável, pois teu olhar adorável
não vê caras nem exige perfeição.

Queria um corpo
para sacrificar no altar
dos desejos: a boca.

Sem pestanejar, de olhos
bem fechados colar
meus lábios nos teus.

Louca!

A paz, talvez excessiva,
nos faria mal. Brincadeira!

Amor e paz não sabem de excessos.
Só eu, mesma, incurável,
brincando de te enganar, mas
brincando entre nós,
ninguém mais
porque não sou passarinho,
não iria polinizar
sequer os teus próprios jardins,
muito menos beijar
flores alheias
que mal tenho tempo
para um passeio
secreto
na ponta dos dedos
dos pés: não posso acordar
teu coração solar
que sonha.

:: heart of the matter | wendy, 2008 ::

domingo, 15 de maio de 2022

trígono















debaixo do barro
dois pedaços gêmeos
de pedra que juntados
em minha palma
são um coração:
a mão, o pulso.
 
sobre a pele
incontáveis células soltas
revoltas, crescendo
em meu corpo
são um sinal:
o osso, o músculo.
 
entre o medo
e o desejo, exaustos,
tudo o que você
não quer de mim
persisto em oferecer
porque não sei fazer
de outro jeito.
 
no céu o triângulo, 
– absurda madrugada –

enquadra os efeitos
dos olhos abertos
a poder de nada.
 
a perder de vista
rolam as batidas
do meu peito
estrelançado:
cometas, planetas,
ventrículos
e um vazio
ab
negado.

terça-feira, 10 de maio de 2022

brômun













eras
numa vida à frente
meu irmão mais novo
ousado, afoito
que me protegia na passagem do rio
em cheia
que cortava e descascava as canas
em pelo
que cantava pontos de ninar
enlevo
que não via meus defeitos
se via
como também eu fazia
com os teus
relevávamo-los.

em tristezas estreitas
e alegrias largas
cuidavas dos meus machucados
usando ervas doces e salgadas
brincávamos no terreiro
entre as galinhas e galos
dos galhos altos das pitombeiras
me jogavas cachos
e eu penteava teus cabelos
curvos
cuidando desse amor levíssimo
onde não cabiam burlas
nem cismas, nem recados
dançávamos nus na chuva
inventávamos letras na terra
escura, desenhos, arriscávamos
saltos e não respeitávamos
nenhum muro
para colher pedras
e em noites de toda estrela
ao redor da fogueira
cochilávamos.
 
meu irmão mais novo
uma vida à frente
embora minha crença
na matéria é uma
tal que depois dos mortos
só cinzas e memória, ossos
e saudade.
 
meu irmão mais velho
meu irmão de hoje
sem nenhum mistério
sem magia ou máscara
revelaram as cartas
disse o som do búzio
runa confessada
a forquilha aponta
para o exagero: não
me importa, importa
que a palavra veio
e não vou negá-la.

:: para fábio donaire ::
:: mata atlântica ::