não, eu não curto palavrão, não
não temos nada em comum, sim
quero te encontrar na estrada - é certo -
na parada do último ônibus vermelho
numa londres desvairada, impulso
na escada de incêndio enferrujada
como num filme velho e tolo
ouro não me dá desejo, nem a fama
não, eu não sei o que há nos teus olhos, não
só sinto calafrios me queimando os ossos
um negócio que não cabe em letra
dentro de mim há uma suspeita
mas escapo, deixo a linha reta
não derrapo, sigo certa estrela
insuspeita como é teu brilho escuro
teu neon inscrito em meus muros
não, somos tão desiguais e não,
somos como um só desconforto, sim
que nos habita e nos joga fora
como agora quando rabisco linhas
minhas mãos não tremem, não vacilo
um cordel sem rima, sem estilo
nossas vidas não vão se encontrar:
já se encontram sem hora ou contato
os relógios são apenas artefatos
a arte consome tudo como fogo
cinzas, brasas, madeira de lei roubada
vivemos na floresta escura, encantada
em meio a dores amores sem cura ou norte
sigamos nossos caminhos fáceis
não há ninhos e também não vemos pássaros
apenas o céu cinzento prometendo raios
se eu disser que há de fato um nome
retrato de cor que rasga minha aorta
alguém de costas para a parede assina
remoendo lentamente um real havana
a garrafa cheia de vinho tinto barato
uma mulher de pele rara canta
pronta pra quebrar com as mãos e danças
a matéria dura dos canhões, a bala
continuo dobrando as esquinas
sem cuidado atravessando a ponte
dirigindo a própria vida, a morte
não me engana, sou muito mais forte
que imagina o brutamontes tosco
eu me dobro quando vem o soco
a navalha falha, não sabe encontrar
meu ponto de corte, o meu calcanhar
lido com a brisa que embaraça meu cabelo
peso cada frase, entorto cada verbo
destruindo com incerteza o selo, o segredo
durmo sem fazer esforço quando quero
e nos sonhos pesados concretos escrevo
leio os avessos e os palimpsestos
acordo derretida em um país sem terra
não, eu não desisto, quero o inverno e a primavera
vivo um ritmo que não se aprende logo
sou como uma ventania sobre o lago
como água parada, eu sou um pântano afável
areia movediça quando engole um corpo
cuspo faíscas, querosene, óleo fumegante
não sei fazer mal nem bem nem ouço
o que não quero, eu vou e desmantelo a fonte
com todo cuidado e zelo sigo minha errância
dentro de certos modelos pareço constante
de perto sou fina e gorda e mole e dura, impaciente
subo no mais alto monte, grito suave e minto
menos que se quer, as mentiras esmago de jeito
as verdades trato com mel, lua e açoites
pelas noites vago só no beco estreito
sem medo de nada que pressinto, não,
não fujo dos espelhos, mas não me confundo
vem me encontrar como já fizeste antes
numa nuvem de ópio e diamantes
na música batida e forte dos tambores
ousa arcar com a farsa dos amores
não há nada mais intenso que os rumores
beijos e mais beijos que não serão dados
não se pode acabar o nunca começado
os dados rolam sem rumo no horizonte
o destino é cada passo torto e incerto
a vida não aceita freio ou acelerador
o universo não é um motor à gasolina
tudo ensina, tudo erra, tudo é tentador
sem revólver, sem bala ou agulha
sem escudo, sem pudor, sem gula
me destrua, console, me refaça, indefina
amanhã também não será tarde ou sina
todo dia, noite, madrugada, lusco-fusco
nos pores de sol, na entranha da montanha
no túnel aleatório dos códigos, algoritmos
as portas sempre abertas, as veias, os sorrisos
vem me contar sobre as artimanhas e delírios
sobe no ponto mais alto do edifício e pula
meus braços macios vão garantir que seja doce
ouve o coração, teu coração, o meu e vem.
ontem.
:: the skidi pawnee star chart | field museum of natural history, chicago ::
:: stars and constellations of a pawnee sky map | ralph n. buckstaff, 1927 ::






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