Meu coração alegre
assovia as canções do morto,
da santa que não era,
do lenhador que sangra
a cada árvore que corta,
da mulher que dá ao rio
vestidos e melodia
em tantas idas e voltas.
Meu coração febril
bate como quem bate a massa
de pão na mesa, um tambor
fundo como a velhice,
livre como versos curtos
que voam de quatro em quatro.
Um duende me acompanha
tocando comprido instrumento
e mais longe que alcança o vento
meus olhos bebem a poeira,
meus pés dançam miragens
sob o açoite da noite, do sol,
descaminhados.
A bebida doce derramada
na carta dez vezes escrita
onze vezes apagada
por meu coração alegre
que não se rende nem fere,
não tem segredos nem teme
o fio dessas meadas
no pulso, nos ossos, nas unhas
que atacam as cordas
da garganta, da guitarra
puxando acordes com sede
derramando mares e serras
verdes calmas que me cercam
e logo se despedem.
:: erke | n j.o. zavalía, 2014 ::
