sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
farpas
um bom bocado de grotesco me caiu da boca.
pantragruélica, me vesti de zebra, de tigre, de onça
e passeei pela savana devastada, me escondi embaixo
da mesa posta e mastiguei mais dois bons bocados de avesso
do sublime. em meio à crise de rinite papagaios assustados
gritavam palavrões para o pirata. o navio partiu sem mim
fiquei no cais escancarado da baía turva.
peixes cantarolavam como em poema de lewis carol
e passeei pelo deserto colorido ao lado das lucys:
uma no céu, outra, cadáver. minha roupa feita de diamantes
somente era pesada, estranhamente não brilhava
e me cortava. esfaqueada por ausências inexplicadas
eu passeei por toda a espera que se possa imaginar
até cansar, até desbotar, até que a falta de senso me fizesse urinar
no mar e transbordar os rios de asfalto que nenhuma estrada
me leva a você. o entendimento se fez raro e momentâneo
apagando, piscando, como uma árvore de lucidez e presentes
caros. mas tudo que era para ser dito o foi. e foi de vez.
embora insuficientemente declaradas as palavras vazaram
de minha boca enquanto um bom bocado de grotesco
sujava a túnica branca de rabelais. os retratos e e-mails
não combinavam. tecnologias macabras nos afastavam
mais e mais. não havia pares. o número um dançava
mastigando êxtase e a noite não nascia calma. os dias
passeavam pela morte afora: eu só queria lhe assustar
com sombras infiltradas na parede. datas erradas no calendário
mitigavam a sede de passado. por que nunca lhe vi?
por que mora longe? por que os papéis rolam soltos na calçada,
anúncios de promoções, itens inúteis?
no supermercado particular de minha alma as gôndolas vazias
e sujas ainda exibem o cartaz com meu preço. e longe de fazer
bonito lanço saliva enquanto mastigo o último pedacinho
de grotesco: para sempre, amor.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
cabeça de bode
céu mais diferente que aurora boreal
essa hora que vem a saudade de não sei onde
apertando os ossos, as vísceras, a cabeça rodando solta como se fosse a bola de uma partida de jogo de cultura não minha.
pronomes possessivos, vos amo!
nasci para ser dona, para possuir.
não. ninguém, não. somente o universo.
eu sou como alguém que sabe, que sofre de epifania profunda e crônica.
que sopra a aquela flauta chamadora de vento. vê?
anêmica sempre para quem não me vê, transparente.
mas para você...
eu sou o samba, a voz do morro. e morro mesmo, que a minha natureza mais óbvia é o renascimento, natureza de esterco, adubo, fênix. eu sou seu samba, a voz do caos sou eu mesma, sim, senhor. amar é tão bom. frase que parece surgir de dentro da tv, programa para crianças. existe isso? sim, existe. xuxa.
ah!... pronomes possessivos, vos amo! escrita fugida da gramática, pronta a colocar uma vírgula entre o verbo e o sujeito; disposta a exagerar nas vírgulas ou ignorá-las. que me importa? que me importa se misturo tu com você?
que me importa se isso não é poesia, se não é algo que se publique, que...
[natal: ora, bolas!] {ouvindo Bethânia: é o amor outra vez.}
:: aurora boreal | estônia ::
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
iludida
quando veio a coragem
não tinha marca de resposta em seu rosto
era como se não tivesse sido dito
o rito de passagem estava completo
mas o eco do amor era vazio
eu lhe esperei com um sorriso azul
maior que o sol que também não veio
quando veio a coragem
um galo madrugou quase sozinho
em minha companhia
era como se a confissão dos meus dias
não tivesse havido
o mito do amor alado dançou no céu
enfastiado de brilho
mas o calor do verão era de vidro
a distância de sempre permanecia
eu lhe acenei com mãos antigas
e cantei uma canção perdida.
domingo, 26 de julho de 2009
teu avatar
já te lancei tantos beijos
e quis te abraçar,
dancei e sorrimos, invadi
teus aposentos.
trabalhei ao teu lado
soprei teus ferimentos
criança, joguei balões de água
em ti, te dei caixas
com presentes
que nem mesmo sabia
o que havia dentro.
vezes e vezes por dia
te visito, olho nos teus olhos
te tenho por perto:
universo ao inverso
onde a fantasia
é a vida real.
agora me instalei
em teu apartamento
e dele não quero sair.
nossas fotos estão no hall
e meu lugar é todo zen
como sonhei. mas quero
uma banheira e um jogo
de xadrez. me darás?
já temos pets,
que encherei de mimos
e alimento.
agora quero uma conta
conjunta, uma vida junto
de ti onde “só” falta
o guardião.
sim, para um determinado mundo
certamente não andam
bem minhas noções
e eu, à noite, numa cama onde
cabem dois, estou só.
não importa: em mim há
coisas sem norte, mas que
fazem minha alegria
minha sorte. e se tudo
é um jogo, não é brincadeira
te amar. por momentos
é tão forte a proximidade
que minha alma estarrecida
corre até meu coração
pra se certificar: e ele está lá
pulsando loucamente
saltando de minhas retinas
para a tela, para o infinito,
para o que não compreendo,
o que invento
e não me arrependo.
cresci o suficiente
para abrir os ovos da páscoa
e cantar os hinos de natal
separando criador e criatura.
não há nenhum sinal de loucura
nessa nova vida a teu lado,
apenas aproveito uma possibilidade
para ludicamente ser feliz sendo
apenas
meu avatar.
sábado, 18 de julho de 2009
um copo
eu queria só isso
um copo de poesia a cada dia
que se transformasse também em pão e pizza
e shampoo, em yõghurt com morta
dela, e roupas novas e botas e sa
patos sandálias chinelas. meias
pra quando o inverno...
poesia
no meu entender
tem que se transformar.
eu queria somente
um gosto de poesia a cada dia
que se transformasse
em armário e geladeira cheios
em telefonemas e aparelhos
grátis. perfume e brincos.
dentifrício.
uma poesia que me lançasse
um sorriso, me rendesse o bastante
pros cigarros. um copo embria
ga
nte
de poesia.
um instante de poesia por dia
onde o meu amor pelos amores
amigos amantes pai mãe vós vôs
irmãos
desconhecidos
parentes
distantes e inimigos
um instante de poesia por dia
onde esse amor fosse dito
e repetido.
eu quero
uma semente de poesia
para que eu possa plantar
e me alimentar pro resto
da vida.
uma poesia bem macia
onde eu pudesse dormir
eu queria
uma poesia que não me desse
trabalho, que saísse sem cortes
para que nenhum destino
mais ficasse preso, uma poesia
que me desse liberdade.
uma poesia totalmente sem palavras
explicáveis. eu queria só isso
um pouco de poesia a cada dia.
uma poesia pública e desonesta somente
até onde podem sê-lo as poesias
uma poesia privada de medo.
um dedo de poesia por dia
me bastaria, transformado em café
e aspirina. uma poesia sem plágio
sem ágio e sem ganância.
uma poesia sem fome:
uma poesia com fome
e comida.
eu quero
um alarido dentro da poesia
tipo passarinhos e barulho
de pétalas caindo na grama
- ventania na roseira -
eu quero uma poesia
feita somente de vento.
uma que passe e fique
passe e fique
acalmando os calores
mais tórridos se isso for preciso
uma poesia bem quente
como um sanduíche mixtu
latino palavras saborosas alho palmito
molho, uma poesia que contaminasse
os vírus malignos.
queria mais ainda: três doses
de poesia ao dia. uma poesia
assim era o que eu queria:
que morresse na hora certa
que acabasse antes da doença
que cansasse a dor.
domingo, 12 de julho de 2009
sonntag
um mínimo domingo começando
e eu já errando na escrita, gerundiando
melhor descascar do cinzeiro as dez piolas
pior que a cerveja está gripada
menos de sete peles na balada
mais dentro de casa e laptop
joelhos chorando em cima do milho
um passado tão católico quanto adélia
deixei unhas e cabelos no salão
no quarto a sessão de sábado me espera
mas não quero filme nem reza
quero uma fita colorida
azul-senhor-do-bonfim
duas voltas no meu pulso
e uma tigela...
o estilete estava enferrujado
e por isso não morri na madrugada
tive somente tétano, o teto voava
da febre que sua imagem me ataca
esperei que tudo saísse da sala
para lembrar que você não foi embora
que voltou com um comentário na esquina
de um blog sem perfume e sem pintura
eu não cheiro nem é cedo mas você pode
com um golpe de cinco dígitos
me ressuscitar.
que poder, criatura,
têm seus dedos quando, ligeiro,
me revoltam, me retornam:
duas letras, dois parênteses
e um .
quarta-feira, 8 de julho de 2009
iconoclasta
acordou fadada a quebrar os vidros
de cosmético, as jarras, as portas e
janelas. De um só golpe
destruiu três mitos e quando
percebeu que o quarto estava
ensanguentado, e quando percebeu
que não estava mais no quarto
quando entendeu que em sua fúria
derramara o vaso de plantas e o
pote de geleia de goiaba, não resistiu:
lambeu o chão e as folhas e as cascas
de vidro. Cortou-se. A língua presa
à garganta arrastou os farrapos afiados
e fez em frangalhos a gengiva, o céu da boca.
Naquele apartamento, ilha pendurada em cima
do concreto, rodeado de paredes por todos os lados
não podia gritar, nem telefonar, chamar ambulância
ou vizinho. Ali mesmo, no chão, sentiu as primeiras
contrações, as segundas, as terceiras. Já não estava
na cozinha, nem no quarto. Na quarta contração
empurrou com os pés o vaso sanitário. A falsa gravidez
chegava ao fim, nove anos, dezenove, vinte e nove,
trinta e nove. Quarenta e nove. O útero seco se contraía,
ela apertava a barriga com as duas mãos. O tempo passara.
Ela não vira. Só dormia e fumava. Comia doce de goiaba,
geleia, e aguava as plantas enquanto não se cansava de chorar.
As plantas cresciam rápido, com as lágrimas. Não entendia
como elas podiam florescer sem sol. Só com sol-idão.
Mas agora, que as janelas tinham sido destruídas, depois
de tantos anos o dia invadia as esquinas dos móveis
tocava as folhas espalhadas no chão da sala. E ela
parecia acrescentada, apascentada. O corpo já não
sentia as contrações, nem mesmo a garganta rebentada
doía. A porta quebrada dava passagem. E a rua a esperava.
Mas ela se perguntava: onde é que haverá mais solidão, aqui
ou entre estrangeiros à sua alma, que circulavam lá fora,
atarefados. Nunca tinham regado nada com lágrimas. Talvez
nunca tivessem tido a coragem de esfolar um mito. Mas para
permanecer em seu silêncio e ninho teria que avançar todos
os sinais, percorrer as ruas, correr as lojas atrás de artefatos
com os quais reconstruir a solidão e os estragos. Estava assustada
e paralisada. Talvez essa fosse a forma de continuar.
terça-feira, 7 de julho de 2009
cazuza
não fale em meu ouvido
beija-flor
que seu bico é muito fino
comprido e perfura meu tímpano
não me diga o que fazer
para tirar os dedos ao lavar
as mãos e não deixar o anel na pia
não me peça para pendurar seu alimento
meu mel mel pra você
na roseira no quintal
não minta tão alto e não me force
a apostar que existe a sua existência
nem me venha com seu drama
sambando na sala logo pela manhã
da cor de um filhote
as asas da realidade ninguém corta
as asas do sonho ninguém corta
as minhas asas
não me venha com vírgulas
nem pontos
o pesadelo só me assusta
quando acordo
e não há beijo nem flor
por que então você jurou
por que não inventou
ao menos uma interrogação
que conversa beijaflorida
é essa de que não posso
tocar minha boca noutra boca
senão naquela
não me responda
e se eu fechar a janela
beija-flor
e se eu parar de sonhar
quantos universos paralelos
você costuma visitar
a cada noite
é você que os cria
ou cada criatura lhe inventa
sempre o mesmo
simplesmente porque tudo é um
e uno e único e múltiplo de si
a minha pele está cortada
beija-flor
meus lábios estão rachados
beija-flor
e eu já nem sei se sinto as dores
mas há coisas que eu sei
sabores cheiros olhares
mistérios segredos falares
loucuras delírios toques
as mãos que num golpe de ar
me despedaçam
a garganta que num gole de mar
me embriaga
a escrita de areia que bebi de um trago
o estrago que a noite sempre faz
naquilo que eu sofria e agora já não sofro
porque por mais que não me beije
beija-flor
segunda-feira, 6 de julho de 2009
abrakádabra
de ti
[não vou mentir]
não quero menos
que amor
de ti
ao mesmo tempo me basta
a presença, a companhia
que faz com que eu sinta
que ninguém falta.
ao teu lado
não olho para trás
nem lembro o quanto é fugitivo
todo sentimento.
de ti
quero todos os momentos,
um dia inteiro -
algo tão simples
e impensável.
se ao abrir a caixa de cartas
eu encontrasse uma lâmpada
mágica e um gênio
eu pediria que ele fosse onde estás
e dissesse, em meu nome:
"fica comigo".
não, eu nem queria
que fosse infinito
ou eterno enquanto isso
ou aquilo.
mas seria bom saber o sabor
de um abraço teu
de corpo inteiro,
e como é o beijo
que nem adivinho.
um mínimo de fantasia:
lareira e vinho,
amanhecer na névoa,
viajar pela serra,
afundar no mar.
ah... falando sério?,
quero te encantar
quebrar tua dureza
para ter a certeza
que essa frieza
é puro disfarce.
nem chega a ser defesa.
terça-feira, 23 de junho de 2009
atende!
as palavras escassearam
falta de chuva tua
falta de saliva minha,
e vejo apenas essa ponte
que adivinho perto
para o desespero
de não poder dizer
o quanto é que tenho e o “isso”
que guardo aqui.
meu quarto é uma nuvem
minha casa é uma viagem
meu porto é tempestade
minha vida é vela
de pedra que queima
mas não se extingue.
minha laringe esquenta de vontade
de te dizer, de perguntar
de saber: uma chance em mil?
mas não é “abril, o mais cruel dos meses”
nem mais é maio, quando apareceste.
agora é frio e eu não tomo vinho,
nada que entorpeça menos que me entorpeces.
e vivo célere, cadela amarrada
tomando conta
do portal do paraíso.
mas nunca vens.
algo me diz que não virás,
que não dirás,
não sentirás:
porque já vens
dizes, sentes.
e eu? minto!
estico o fio
uma parte do mundo na boca
outra no ouvido
mas não ligo,
não quero desfazer
tudo isso que não faz sentido.
melhor deixar assim
impreciso, imprevisto,
impossível, impalpável
impartilhável, impassível
impedido, impecável
impenetrável, imperceptível,
imperdoável.
tão ímpar o que tenho no peito
que não posso te contar.
no fundo é medo.
no fundo é a certeza
de que não há apelo
que eu possa fazer.
no fundo
tenho só um desejo:
te fazer gritar meu nome
[pela segunda vez].
sexta-feira, 19 de junho de 2009
chamado
mais um pouco de mágica?
sim. a descreverei para ti:
sem quê nem porquê
aperto minhas mãos
uma na outra
como se as tivesse lavando,
ou não, mais exatamente como se
uma delas a outro alguém pertencesse.
então penso: quem está a me apertar
a mão, a me acariciar com um simples
e fatal aperto?
que está a trocar esse carinho
tão perfeito, tão pequeno e grande
de uma vez só?
parto para a busca entre aquelas
pessoas que estão longe
e me chamam assim.
logo encontro a ti.
mais um pouco de mágica?
sim. me chamaste, eu vim.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
descoberta
manhã cansada!
agora já sei
até o nome da tua amada,
sei no que ela trabalha,
vi fotos e entendo teu mau gosto.
mesmo assim fiquei irada.
ri de mim
e me vi como a jia que pula no poço
de água gelada, barulho pequeno,
me senti um haikai atrapalhado
um poema riscado
uma folha no lixeiro magro
do escritório, bola de papel
esfera amarfanhada.
a vontade é fechar
os olhos, a boca
não dizer mais nada.
mas falo.
ri de mim e te mandei
à merda. mas não adiantou
muito. ainda não fechei
o circuito do meu corpo
não me fiz imune ao teu nome,
nem o torpor do ciúme
me acalmou.
por fim, ri de ti e decidi
que não te amarei
de novo. és agora
apenas uma mira, um alvo
onde atirarei palavras
ásperas. e não esperes
que no meio do caminho
eu tropece e caia, volte
atrás e me traia.
ri. te matei parte por parte,
te esquartejei com um alicate
de unhas. não vou te canibalizar.
vou jogar no mar esses pedacinhos,
mas não serás isca porque não quero
os peixes que te trarão na barriga.
sim. é uma escritura irada.
mas tu não me conheces
e me conheço: isso passa.
não vou tomar um porre de vinho
não vou me jogar na calçada
não vou espetar meu dedo no espinho da rosa
não vou permitir que a raiva exploda
não vou me comer pelas bordas
não vou deixar que me roas
e não vou deixar que a tarde continue
cansada, como essa manhã.
vou fazer orações poderosas
pais-nossos, ave-marias
vou fazer de conta que nunca existirias
se eu não te tivesse criado.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
crença
se eu soubesse de onde vem a sintonia
para te pedir que siga
para te dizer que é certo
para te acalmar, te provar
que é perto.
se eu pudesse dominar a ventania
para te enxugar os olhos
para te comprar abrolhos
para te trazer com o mar, te mostrar
que é mesmo.
se eu tocasse a perfeita sinfonia
para te fazer ouvir
para te garantir que posso
para te demonstrar que é nosso
e ninguém pode desfazer.
ninguém pode destruir
aquilo que só há em mim
embora eu use o plural:
é todo meu esse sentimento
enorme e unilateral.
mas meu coração acredita
minha respiração contínua
traz esse perfume que eu sei
é teu.
mas meus olhos veem
minhas pálpebras dormem
contigo dentro.
e enfim, se é só meu ou nosso
se eu não sei parar
se não há motivo para tal
pois que nenhum mal
me ronda
enfim, se é para olhar pro céu
e querer um milagre
que lágrima poderá molhar
um bem que eu quero e invento?
que lágrima derreterá
um sol que me alumia, intenso
e renasce toda manhã
nesse amor de perdição?
sexta-feira, 12 de junho de 2009
trêmula
trêmula
os olhos doidos de incerteza
as mãos em fogo e água
não quero calma
me injeto nicotina e desejo
para esse vício novo
que me aumenta a fome.
estou grávida
dentro de mim sinto crescer
o que esperei a vida inteira
uma alameda, um bosque,
uma praia ensolarada,
montanha e barraca
acampar para sempre
lançar a âncora
ou como no romance
de garcía márquez
(meu preferido)
navegar o resto da vida
em tua cólera.
sou um peixe agora
porque não me afogo mais
respiro líquidos translúcidos
enquanto a lucidez escapole
e não ligo. não posso ligar.
sua voz
certamente
me desmancharia
certamente
não me atenderias.
e ainda é tão cedo
e já é tão tarde!...
trêmula
a saliva passa difícil
pela garganta apertada
de medo.
o corpo em pé de guerra
não aceita a explicação
que eu não tenho.
sou a dúvida caminhando
a esmo, substantiva,
perplexa, perdida.
em que lugar me darão
socorro? que horas terás
piedade? hoje é um dia
de gases e nuvens negras:
outra bomba atômica
sobe no pequeno espaço
que ainda sobra dentro de mim
onde não estás. estou preenchida e
sem abraço. dia
dos que namoram, dos que têm
enlace, dos que têm pernas
para entrelaçar. eu não tenho
nada. trêmula, faço uma oração
sem graça: com certeza
não posso te alcançar.
mas mesmo assim
a tristeza faz pausas
longas pausas
de dias inteiros salvos
pela esperança.
que essa, viva no ditado,
nunca morre.
eu tonta penso:
é hoje que tu escolherás
me dizer tudo.
como uma criança
crente em contos de fadas
amiga do faz de conta
a partir de então
terei no dedo quarto
da mão esquerda uma aliança,
desdenharei da realidade
esquecerei que não tem eu
no teu verso, e ao invés disso
declaro amor incondicional
para o resto da minha vida
e completo essa verborragia
com o que não poderia deixar
de dizer apesar de não haver
eco: eu te amo.
terça-feira, 9 de junho de 2009
calada
eu rastejava e era areia o que havia sob a lua
um unicórnio me esperava solene.
havia maçãs caídas sob a única árvore da paisagem.
eu arfava, cotovelos roídos, joelhos em brasa
as mãos transformavam os grãos em prata
em minha cabeça um submarino afundava
são jorge largou sua lança que caiu a meio palmo
do meu ombro nu.
eu rastejava e era a ti que buscava no escuro
um pássaro vermelho pousou no meu cabelo
havia folhas mordidas sobre as formigas caminhando
eu respirava, o nariz comia teu perfume, coração em casa
as pernas cavavam sulcos na areia em brilho
em meu sexo um vestido suava
borboletas largavam lagartas e no céu piscava
o meu nome cru.
eu rastejava e era força o que havia em minha boca
um gato macio me olhava fixo
eu mastigava, dentes partindo a dor, seios úmidos
as cores atravessavam os olhos transtornados
os pincéis saltavam como polichinelos e grilos
em meus dedos anéis rangiam e soltavam óleo
flores caminhavam e brincavam de roda
no meu corpo mudo.
eu fustigava e era cada palavra um doce e grosso
sussurro, pequeno azedume de pingo de limão
no osso, e um polvo azul enorme abraçava
a única árvore do mundo. eu escrevia e escorria
pela areia ensopando tudo. eu queria parar
e os lençóis bordados carregavam núpcias,
imantavam beijos, cuspiam fotografias minúsculas
em meus sonhos carrosséis de fumaça eram teu pescoço
eu olhava hipnotizada a beleza sem dono
copiava o sono da próxima dormida
filmava as marcas que teus pés deixavam no mar
bebia mais um gole de teu sorriso e desvanecia.
eu fui acusada e condenada e feliz
sabia que a única droga que alimentava meu ali
meu aqui, meu estar, meu passado desaparecido
era um amor de mendiga que nascia quase morto
mas que nunca morreria.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
renúncia
as minhas pernas caminhando pela nenhuma estrada
que inventei
os meus ouvidos assustados com o grito da manhã
dourada
a minha boca calada esperando o nunca-beijo
os meus braços pendendo, frouxos, sem nenhum
abraço
os meus dentes mordendo o diamante dos seus
medos...
e eu sinto o cheiro do impossível me cercando
respiro a fumaça desses sentimentos verdes
engulo a chuva com os lábios na vidraça
invento a graça do seu corpo com desejo
moldo sorrisos seus em todo espelho
e imagino frases doces que me diz
penso, sem tristes pensamentos, que feliz
se um dia algo em você de mim necessitasse
se eu, por obra do destino imperfeito,
fosse motivo de alegria e de descanso.
esse teatro no meu peito nunca cansa:
não sei porque essas paisagens me acompanham
você no perto, nas florestas, nas montanhas,
você na cama, no banheiro, no deserto
você no carro, no mercado, na piscina
você nas rimas tão estreitas que cometo.
enlouqueci, chego a acreditar em hora estranha
toco nas pálpebras, nos joelhos
certifico-me que ainda estou aqui
que não há nada entre nós, que nunca houve...
isso é bastante? é, não... e não resolve.
e o que faço? que farei? – olho para o céu
nuvens se movem, uma brisa participa.
como não há o que fazer, eu renuncio
desfaço as mágicas, escondo o amor dentro das
pedras
desço as cortinas
e adormeço.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
lixo
era puro
no sentido de essencial.
era sublime
em direção ao sagrado.
e você só viu
o torpe e o sujo
e a traição.
isso merece
uma lágrima?
não.
era inteiro
no sentido de perfeito.
era intenso
na direção do completo.
mas você só viu
o engano e a máscara
e o abjeto.
isso merece
uma resposta?
não.
o espelho imita
o gesto, mas não sabe o gosto.
o espelho morre
de desgosto
e a face continua viva
em protesto.
dentro dos sonhos
as verdades submersas
são um manifesto
e essas vozes fantasmagóricas
substituem o grito suprimido.
o resto pertence ao infinito,
junto a tudo que eu não fiz
de errado.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
alteridade
desenhando no ar bocas sem lábios.
o Outro é soluço e rastro:
um nome atado ao silêncio,
voz rasgada ao meio,
o que não se pode ter nunca
por inteiro, o lento passo
distendido que o abismo aceita.
o Outro é ponto fatal de espera,
o olho errante que não se completa
em imagem, estreita miragem
que o horizonte concede à sede.
o Outro, às vezes, é o oásis.
o Outro é a farpa que a carne entende,
a farsa (como o sono é farsa)
compreensível, onde a realidade
se recria: o percurso mágico
por onde o sonho escorre.
O Outro faz aparecer o imbecil
em nós, nos molha no ridículo
e nos absorve. encolhe nosso
grito e desaparece. apaga
a luz, nos devolve ao escuro
primeiro, escolhe nosso sexo
com o dedo aponta nosso erro.
nos transforma de tal jeito
que de repente somos o Outro, com medo.
terça-feira, 2 de junho de 2009
meu inferno
nesse desterro
invejo o óbvio
à esperança.
caço com bacamarte
coisa velha, traste
um resto de pontuação
que me exista
e é mentira teu verso
não tem eu.
csi, dna, excremento
um fio de sobrancelha
um cheiro de inverno
uma marca de pneu
um ferrão de abelha
vestígios de mim
que não encontro
no meu inferno dói
o nervo estraçalhado.
carimbados correm o hades inteiro
no antebraço o número
que me identifica no campo
de desconcentração: em vão
bocejo sobre as letras do livro
não leio, não ligo, atônita
vestindo a túnica de silício
sacrifício involuntário
que as mãos digitam
enquanto não existo
no teu verso. tortura
que a tesoura do medo
costura pelo avesso
e a linha fina do meu desejo
é tracejado que não sabes.
nem teu desprezo eu sou
o meu inferno dói no nervo
porque teu verso não tem eu.
permita por uma fração de segundo
penetrar meu nome
e dizê-lo, voz alta
grito, desmantelo.
aflito como o timbre do vidro
das torres derramadas
na água-furtada, uma flor
um pingo de colírio
uma ponta de cigarro.
de outro, por brincadeira
um enfeite, ouro de tolo
me engane, mas me queira
por capricho, pra ser cruel.
eu quero mesmo esse mal
feito. já que agora é tarde
eu já não mordo, não ladro
sou o pântano onde o silêncio
é flamingo e lodo. sou o escândalo
que tenta a ferro e fogo
matar as palavras
mas elas são as garras, as unhas
infiltradas nas paredes,
nos azulejos do banheiro
a cortina que despenca
e a música de suspense
que me espera com a faca
da psicose. terminado o drama
um fio de molho de tomate
escorre pelo ralo.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
sueño
dorme. dorme aqui dentro de mim
meu coração macio, quente
fecha os olhos e sente que o mundo
existe único aqui no ninho nosso.
dorme. dorme aqui dentro de mim
minha alma doce, inexperiente
de tanto amor que nunca houve
ou se fez e de repente é tudo que haverá
quando eu abrir os olhos.
dorme. adormece dentro do meu abraço
como se coubesse teu corpo e o que não és
deixa que eu toque de leve o teu sorriso
mas tão leve que não o saibas.
dorme. permanece aqui junto a mim
como se as nossas peles fossem só uma
amálgama, despudor, patologia.
dorme. teu sono é meu sonho
teus olhos fechados meu encontro
com o sincero bem que te quero
dorme. apenas dorme.
tua respiração serena é minha glória
dorme. que o desassossego de nossa história
também acabará dormindo.
sábado, 30 de maio de 2009
luz del fuego
por onze vezes fui ao céu
e voltei.
depois mais onze.
então parei de contar.
sua mão era minha mão
era sua mão.
era clara e transparente
cristal sua presença,
porém inquebrantável.
meu cansaço, transformado
em delícia, me adormeceu
dentro de um sorriso
no meio do seu corpo.
acordei nos seus braços
ouvi sua voz de bom dia
e recebi o primeiro beijo
desde a criação do universo
sabendo que o amor
a tudo repetirá
e quantas vezes
você me tocar
vou mergulhar na doce agonia
meu dia é outro
minha vida.
dizer o tamanho do amor
não é fácil: a distância
somada às horas de ausência
acumulam-se na carne da esperança.
que em um amanhã bem próximo
meu sentimento possa ser exposto
direto aos seus olhos, seu coração.
e, quem sabe, a morte perde a vontade
a dor esquece de nós?
e a vida será leve
como suas asas, forte
como seu rugido:
nossas feras, nossos anjos
soltos comemorando
o encontro marcado
por nenhuma despedida.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
calendário
e se eu disser
que foi pra você
que levantei no escuro
sem fazer barulho
de lanterna em punho
foquei a folha branca
e rabisquei a dança
dos meus pensamentos?
e se eu disser
que tudo que escrevo
tem seu nome dentro
que sou cem por cento
sua de março a novembro?
o resto do tempo?
em janeiro
minhas férias são você
em fevereiro
você meu é carnaval
e meu natal quem é?
você.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
nomes
hoje eu quis dizer
na primeira escritura do dia
quando abri os olhos, bocejei
estiquei os ombros e braços
e tentei tocar o chão com as pontas dos dedos...
hoje eu quis dizer
logo na primeira hora
na coisa inicial que fosse escrever
pensando enquanto escovava os dentes
enquanto clicava o isqueiro
para o cigarro número um...
hoje eu quis dizer
que haveria um sinal
que eu enviaria um mandatário
um carteiro, um pombo-correio
um signo decifrável somente por ti.
hoje eu quis dizer
que uma borboleta te visitaria
e baixinho, doce, como costumam
falar as borboletas
ela esvoejaria ao teu redor
e baixinho, doce, como costuma
ser a fala das borboletas
ela te diria meu nome.
agora a manhã já vai longe
são 10:49. uma uma borboleta
um bichinho com assas
esvoejou em meu ombro.
quase pousou. impressionante.
quase pousou.
e disse, bem baixinho e doce:
vou mentir. e acrescentou:
teu amor lembrou de ti
agora.
mais baixinho ainda tornou
a falar. antes deu uma risadinha
deliciosa. e disse:
vou ficar quietinha para que você
possa me fotografar e me mandar
de volta. teu amor espera.
eu obedeci.
sábado, 23 de maio de 2009
revertério
o que você quer? diga pr'eu dar! quer a flor
no meu cabelo, meu maior pentelho?
quer um filho? um cadeado?
diga logo! o que é que você quer?
o sol? calço luvas de amianto
pra buscá-lo. a luz? a lua?
compro o lado conhecido
e o outro lado (à nasa, é claro!)
o que você quer? uma casa?
um texto? um telhado? duas águas
marinhas e um topázio? quer o amor
meio a meio? quer um caso?
o que é que você quer que eu não acho?
um lastro? um navio? um baseado?
um psicanalista tempo integral
o mal mal disfarçado? o mar?
um aterro?
um carro novo? o que é que não me atrevo?
o que você quer? um doce de algas
e sargaços? a boca sempre rindo
dos palhaços? diga o que é!
que você já tem e ainda quer...
é um espelho? é o bico
a parte dura do meu seio? o que é?
me conte, eu dou um jeito...
é o sexo? um reflexo? é o meu recheio?
pois eu dou. dou tudo, que só sei amar
inteira, engolindo como a maré cheia.
quer um pouco de areia no seu corpo? quer
o mel e a língua desabusada lambuzando
a torto e a direito? quer as asas
do meu pássaro? o cativeiro? quer a cor
estúpida do dinheiro? esperança?
pois eu cavo e desenterro
abro uma mina. quer na minha
mão uma lâmina? me assassinar?
quer o toque indecifrável dos meus medos?
quer? o que é que você quer? por favor,
me diga! quer estar no meu umbigo?
minha barriga? quer as traças que me roem?
quer os portos, os faróis? os meus lençóis?
meus lenços brancos de cambraia na partida?
quer que eu tranque todo escuro no meu quarto?
quer nunca mais ser infeliz? quer meu retrato?
o que é? o que é? andar de quatro?
quer um prato sem fundo como um poço? quer um fruto
maduro? um pessegueiro? peixes de prata, a mata?
inventos ou outra máquina?
quer o mundo? o esboço que criei?
ah! cansei...
para victor hugo ceccato
quinta-feira, 21 de maio de 2009
somos nós
somos nós pelas estradas de um lugar qualquer
infringindo a lei seca somos nós em um ford 1896
metralhadoras no colo, charuto nas mãos
minha boca pintada de vermelho escuro
somos nós, a cavalo passeando nos campos
de lincolnshire, o cheiro de verde somos nós.
somos nós atravessando a paulista e entrando no espelho
que vai dar em katmandu e somos nós no deserto
australiano onde o mar aparece por encanto e nos leva
deixando corpos enxutos no aeroporto de schiphol e somos nós
entrando no rijksmuseum para olhar de perto a beleza
da dor de vincent van e sem cansar penetrar noutro museu
para nos encantarmos com a arte de klimt.
o navio vai partir e somos nós mediterrâneo adentro, olhando a brancura
das casas das ilhas gregas e eu acordando gueixa no japão.
somos nós em cada estado do brasil, provando as comidas típicas
fazendo castelos de areia nas prais tropicais, dormindo nas
camas macias das pousadas, vendo tardes douradas enquanto
alimentamos o espírito com um trago. somos nós nas cordilheiras
somos nós coast to coast ao lado dos beatnicks
jogando sinuca nos bares mais carregados
praticando a liberdade em alto e perigosíssimo grau.
que tudo é infinito, somos nós pelo nosso mundo
inteiro. cerebral. que importa? é mundo, também.
é nosso. restrito? que importa, se tudo é lindo nele
e sonhar é um vício? somos nós em saint petersburg,
não, na flórida, não, perto dos bálcãs, nas savanas da áfrica
animais famintos. os domingos não têm fim.
e minha imaginação descansada vê só o seu sorriso
por todas essas paragens, seu corpo forte, sua voz
amável, seu cheiro perfeito, seu olhar innominabile.
suas mãos tocando as minhas
somos nós nas entrelinhas de tudo que acontece.
somos a rosa-dos-rumos, os moinhos e os quixotes.
somos nós, em tanto repetido que esquecemos que a vida
não se repete. somos nós, cada qual em si, articulando
sons e vértebras para desconhecidos, porque o mundo
todo só é parecido conosco. até que o insuportável
medo me cale e as palavras desapareçam, e as imagens
se recusem, e nós, sem mais sermos nós, aceitemos
que os domingos são intermináveis para mim.
só para mim. mas, não. meus olhos tocam o céu
de um azul preciso e sem querer você faz o mesmo.
e somos nós, de novo, na garganta de um polvo gigante
nos tornamos abraço de tantos braços. e, não. desfaço
as rimas com as unhas, me desembaraço de você
e corro para o quarto vazio. mas, não. hoje é quinta
porque amanhã será sexta. sábado. não, segunda, não.
pela linha telefônica, pela janela que abri no meu peito?
entra. a casa é sua. como eu, toda, inteira, sou sua, ao me
entregar aos devaneios. nunca pertenci a nada. ninguém.
nunca mais pertencerei. a tatuagem com teu nome por completo
em meu cóccix. outra escrita. seu nome que salva minha vida
por um instante e é o bastante. porque outro instante o sucede
e eu repito: angel. angel. angel. eagle.
sobre minhas digressões. meu amor, meu jardim cheio de pavões,
em paz com tudo e com a natureza. de novo. eu e você. somos nós.
e não somos. nossa carne apartada pela distância que os sonhos não
vencem, nossa alma incompartilhável, como todas as almas. e apesar
disso somos nós, porque chego de mansinho, pura energia disfarçada
em tudo que lhe rodeia: mesas, cadeiras, roupas, meias. a água do seu banho.
a água que você engole. em tudo estou um pouco, pura energia
que nada remove. que se move pela atmosfera, rápida como uma flecha,
mais rápida que a bala, que a ave, mas sutil que a borboleta. aranha. teia.
estou nas curvas de suas digitais, átomos, invisíveis carbonos,
eu sou seu abandono, no sono. e o beijo que você recebe quando acorda...
sou o que falta e o que sobra. somos nós, pelo vento. por tudo que
invento e que desmorona. somos nós, em toda frase que construo
e que você, ao ler, destrói. somos nós. elos. perdidos por nascimento,
um de um útero, outro de outro. somos nós. mas mesmo que os dias
tenham seu veneno, não morro. porque nunca disse nenhuma vez
enquanto isso vou fazendo mel para sua boca.
colhendo néctar das flores mais estranhas.
vou sendo abelhas, vou sendo plantas.
e dormindo junto a você no nosso alvéolo.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
sem noção
mastigar as lâminas mais duras
mergulhar na lava do vulcão
morcegar na highway um caminhão
ir a pé daqui pra palestina
adoçar meu café com estricnina
abraçar um grande porco-espinho
insultar a mãe de um assassino
perdi a noção do perigo
vou
beijar na sua boca sem pedir
sonhar que de você não vou partir
esquecer que o tempo é implacável
decidir nomear o inominável
destrancar a jaula da pantera
pular do avião sem paraquedas
me entregar ao vício de beber
me anular até o desnascer
tudo inútil
se tocasse no quente do meu corpo
diria que é febre
tudo inútil
se olhasse em meus olhos
diria que é breve.
mas é amor.
terça-feira, 19 de maio de 2009
because
aquário em chamas
o lastro frio da cama
e tua dor me chutando.
faço um esforço para sair da trama
e lembrar o sorriso-vida
de outros filmes.
arte é real.
por te saber assim
capaz de fingir
as dores que deveras sentes,
e vejo teu mundo interior
inteiro do que é sensível,
cheio de magia e risco
silêncio e grito
melodia e sorvete
poesia e medo
gargalhada e dengo
fortaleza e feno
obscuro e claro
bastidores e palcos
de bicho e gente:
um ser humano todo.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
bem cedo
hoje eu queria alguma inspiração
de trato divino ou humano
que me viesse certeira e pudesse
sem causar constrangimento
deixar-te saber o quanto
cada palavra tua é luz
no meu dia.
hoje eu queria uma inocência completa
o sentimento mais puro
a sentença mais correta
que caísse como um raio
em teu entendimento
sem causar ansiedade ou medo
e te fizesse entender o quanto
por milagre ou invento
já te amo.
hoje eu queria somente uma frase
que coubesse e transportasse
de volta a doçura e o carinho
tudo de bom que eu respiro
a alegria sem começo
de quase ouvir tua voz.
mas só se soltam de mim
esses termos tão pobres
sem poesia, sem acordes
ridículos e simples
como deveriam ser e são
todas as falas de amor.
eu não entendo
mas nem por isso me furto:
revelo o susto, a surpresa
mais que bendita
de sentir meu coração
descartado
pulsar mais forte, mais quente
contente, apaziguado
mesmo sabendo, é claro,
que a sorte do teu abraço
é impossível. mais ainda
é um beijo.
mas que importa a falta
de senso se o sonho é denso
e eu nunca desisto?
domingo, 17 de maio de 2009
roda gigante
sou seu parque de diversões
você brinca comigo, joga as palavras
que eu digo de volta com mais força
você balança no meu coração
salta de um sim para um não
e escorrega bem na hora
mas você não está com essa bola
toda: seu revólver de plástico
enferrujou, as rodas do seu skate
estão travadas
suas chances você não vê
mas vão ficando cada vez mais raras.
você vai se esconder
mas não vou lhe procurar,
não precisa mais correr
porque já estou parada,
se prepare pra chorar
porque já estou cansada
e vou fechar o parque
de suas diversões
sábado, 16 de maio de 2009
me leve
o amor é da ordem
do raro do absurdo
do secreto. o amor
é sempre um panfleto
porque é tão igual.
e porque os passarinhos
delicadamente depositam
em lugares distantes
sementes.
e porque algumas flores nascem
dentro da gente sem querer
em certos dias.
e porque melodias nos tomam
de assalto transportam
nossos sonhos como se o espaço
não fosse. nem o tempo.
só mais um coração
o último. último trem
último apelo. depois disso
nunca mais para sempre.
apenas mais um extremo
e ardente olhar. enfeitiçado
o coração escolhe e escolhe
estar batendo. [claro que
para sempre e nunca mais
é errado. se minto e dramatizo
se brinco e se pratico
o risco das palavras
é só porque você me inspira
a sacudir o mofo das verdades.
não me leve a sério me leve
a sério me leve. me leve.
e nunca mais para sempre
me traga. amor.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
78 rotações
disco novo
ouço
cantora nova
enquanto o colírio alcança o fim do olho
(a velhice começa a me cegar).
me pergunte que eu não saberei responder
porque acredito que num logo em breve
estaremos lado a lado
escutando o hino de duran.
eu cato palheiros, mas encontrei você
não é a primeira nem última agulha
mas estou sempre apostando.
por quê?, me pergunte e eu respondo:
porque sonho.
desde sempre, desde que me lembro
invento amores-cazuza
que não se podem consumar.
curiosidade? mato: melhor assim,
porque assim tenho o melhor
o mais escolhido, o exatamente
desejado. e se permaneço distante
se no máximo desses sentimentos
palavras são o que extraio
tem também o seu sorriso
para provar que acertei
mais uma vez, e quem sabe
entre um talvez e um dia
um buarque, um gullar
uma thais.
além do mais é mais fácil
sem toalha molhada em cima da cama
sem pasta sem tampa e a gosma branca
sem defeitos sem traição sem medo
sem supermercado sem brochada
sem dúvida.
sem dúvida.
além do que é o que eu posso
contra a distância e o desconhecer
contra a morte que pode ocorrer
contra o ciúme em longa metragem
contra as possibilidades de todo ruim.
então posso dizer que amo
com firmeza com sentido
com a mesma libido que existiria
com a boca em seu sorriso
com o cálice com o mar
com seus dentes em minha língua
com a rima e a canção
com o corpo no tapete
com o corpete e o mundo antigo
78 rotaçoes, beibê.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
descansa
ipês florescem na boca da manhã
fresca, verão de brejo
breve ainda enquanto novembro
tímido o dia esquenta
meu sentimento aguarda
no sinal vermelho,
o viaduto suspenso
é imagem de mim.
quando em que dia
me perguntarás pelo meu
amor?
quando o sentido
do que sentes se apresentará
somente e nu entrando
nos meus olhos?
teu olhar demora a escolher
partir e chora porque
ficar é impossível.
não quero que nos venha
um dia de deuses e abraços
não quero que a senha
de nossa existência em comum
seja um pecado, um deslize
um anzol, uma caixa lacrada.
quero que a vida exploda
e dessa granada uma farpa
me atinja e seja ela
o convite que nos falta.
se o contive, a despeito
e malgrado meu desejo
entenda: não tenho ofertas
nem problemas, não tenho
remendos e sou partida,
não lamento ontem
nem hoje e o futuro
inexiste até o futuro.
sou dura como a água
e sobre a pedra
me desfaço em imagens.
cresço quando queres
que me guarde e desapareço
nos sustos que te prego.
sem sossego, sossegada
persigo as montanhas mais altas
e sinto a brisa e piso a areia
das praias e estou nas florestas
e nas avenidas alteradas
sou o próprio trânsito
do teu sangue, e não percebes.
que se dane então toda a escritura
que se parta ao meio meu coração
pintado.
os ipês florescem na manhã
sem mágoas. e a vida continua
sem esquadro. a esperança
é um lago e o monstro
sou eu emergindo loucaness.
descansa, descansa, os ipês
florescem, os sóis, um novo
a cada dia, se sucedem.
descansa, que os ipês
feito meu amor
florescem. e nada podes fazer.
terça-feira, 12 de maio de 2009
mosca
que haverá de tão doce
depois da janela?
que fruta, que açúcar
esperam por ela?
doçura de vento?
segunda-feira, 11 de maio de 2009
já é
pipocas numa grande panela, estourando
muitas crianças chegando à praia na manhã de sol
a mesa cheia de amigos brindando a alguma vitória
o abraço de quem voltou do exílio
ver a neve pela primeira vez
passar no vestibular
ter um filho bem esperado
a recuperação completa de uma doença
a doçura do primeiro beijo
sentir o vento batendo no rosto
olhar o céu estrelado de um lugar onde ainda não há eletricidade
é assim, é como assim, ouvir tua voz
meu coração inundado de algo que não sei descrever
minha alma cantando uma canção que nenhum humano poderia compor
a divindade explodindo nos meus olhos, para dentro
as células rejuvenescendo, se regenerando
a chuva fazendo crescer o cheiro da terra
o mais belo dos pores de sol
a natureza intacta
a cachoeira gelada
o horizonte na estrada
tudo que de mais simples existe e resiste
a tudo, às palavras rebuscadas, aos versos elaborados
ao cinismo, ao enfado, ao tédio
que é capaz de se recompor, fênix, super-herói
rabo de lagartixa, estrela-do-mar, nietzsche, borges
eterno retorno que um afirma e outro nega
que é piegas e ninguém se importa
boca aberta, porta aberta, abraço
flecha que não fere, bala que não mata
sapato que não gasta
pão multiplicado, ruma de milagre
tudo que é espontâneo e infinito
inacreditável assim como
é o amor que sinto
assim como uma flor desabrochando com orvalho
primeiras horas do mundo, nossa odisseia
todo dia, todo novo dia.
e o que parece a mais.
gotas de brilho
sonhos sorrindo
o grau exato de álcool no sangue
a avalanche de uma gargalhada
os sete véus que vão ao chão e não revelam nada
o oculto que permanece
tudo que desentristece
os cabelos longos cachos de um menino
a música dizendo da mesa farta e dos destinos
distintos e felizes de shangri lá à palestina
os dons infinitos da menina
o samba o reggae o funk punk delicado
os dois espelhos gêmeos e vazios
as luzes grandes e redondas
as ondas de silêncio e de perfume
o olhar comendo o mar e os mistérios
os punhados de afetos atirados
os punhos que jamais serão usados
os medos que serão sempre deletados
em última instância, primeira instância
tudo que é arriscado e perpetrado
sem maiores e dolorosas consequências
as urgências adiadas e os afagos
como em mim tudo, assim
e mais ainda, despalavreadas
despalavreados os sentidos
são só olhos, boca, narizes e ouvidos
as mãos tateando o futuro em braile
um presente cego de amor.
seja o que for que seja assim
como, e continue. por quanto e como
assim se for, indefinidamente,
até que tudo aguente e se sustente
pela imensa força do que há. já é.
domingo, 10 de maio de 2009
pessoa secreta
pudesse e seria
secreta pessoa a ir
com o vento toda vez
que ele arrastasse do teu olho
uma sombra, deixasse um nome
sem nome em tua boca, arrepiasse
o desejo em teu ouvido.
nunca porém me foi dada
mágica nenhuma de voar
ou senão não
estaria onde me ponho: puro
papel, palavra sem seda, mel
coagulado que não roça teu
sexo, ao contrário: nem chego
a escrever um poema
que te diga, de fato
qualquer aviso de que o amor
mesmo escondido e não feito
permanece e percorre o espaço
todo, feito o vento.
pudesse, e seria...
sábado, 9 de maio de 2009
criatura

me criou como quem cria uma personagem
me deu nome próprio
ampliou o arco dos meus olhos
me fez perder o trem das onze.
me alimentou como quem alimenta a fome
me deu doses diárias de alegria
negociou as minhas fantasias
me fez jogar doze dores fora.
me sequestrou a alma, entrou na minha história
mudou o enredo do meu samba
atrapalhou o tiro de misericórdia
que eu projetei pra mim.
me fez sentir na pele da rainha
com os dentes partiu o aço das algemas
não me recusou beijos nem poemas
e desistiu de mim num dia qualquer
dessa semana.
eu e minha personagem
sentamos na grama
o céu sem nuvens parecia chuva
o sol sem pena parecia neve
e desisti de mim num mês qualquer
desse ano.
sem rima
os versos quebrados
são uma casa em ruínas.
sem drama
o corpo em febre espera
que a doença ceda
e que o desejo aprenda
a sair de cena.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
palimpsesto
no candelabro
dois cristais falsos
pendurados no retrato
nossos olhos denunciam a solidão
do amor que nunca soube
o que é pecado
que em divinos descalabros
se desfez nas pequeninas ilusões.
tanta coisa eu escrevo
contrárias ao que digo
ao que faço... a verdade é o descompasso
pois o amor e o desejo estão distantes
quando mentes, quando estanques
nossas mãos ainda assim se procurando.
permanentemente iguais
nosso calor, nossos sinais
palavras que ainda diremos
normais, sobre o tempo
o mormaço.
nas estradas
vicinais encontraremos povoados
pousadas que acolherão
nossos novos amores proibidos
e em cada canto desforrado
nos travesseiros procurarei
seu cheiro nas toalhas
no ar sob a copa das árvores
na velocidade das cercas passando
por mim e devorarei o barro
o asfalto os paralelepípedos
e com todos esses indícios
rabiscarei mais uns colapsos
acasos no palimpsesto de
nosso amor rasgado.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
a letra
e nessa forma
o coração que andava aos pedaços
encontrou afagos
repetiu a letra
da felicidade.
e dessa forma
nada fácil
fez a fábula de um amor sem face
como o girassol do poema
como um disfarce
fujo de aceitar a faca
que me corta a carne.
mas tudo é inútil,
fábrica de sentimentos
o coração que anda aos pedaços
só sabe repetir o falso
argumento: fiapos de dor
rolam no pensamento
enquanto a fé nos beijos
não se cansa jamais.
e tudo que era feio jaz.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
frugal
ontem em meu sonho você foi rinoceronte
solitário na paisagem ovalada de um oásis.
que os sonhos não respeitam geografia,
sonhos só respeitam as vontades.
ontem em meu sonho você ria,
transformou-se em girassol selvagem,
e era noite no jardim mais branco do alasca.
que os sonhos não respeitam a argamassa
taciturna que levanta a realidade.
de manhã o lençol todo derramado
travesseiros que atravessaram o mar cáspio
descansam na cerâmica azulada.
e meu amor, tão mais simples que a memória,
estica a preguiça, devagar procura a copa:
café leite pão.
domingo, 3 de maio de 2009
muitas
eu sou o mouse e a musa
a usada e a que abusa
sou a doença e o milagre
a força e a mais covarde
a faca e os botões da blusa
a música e o alarme
o grito e a écharpe
os olhos e a navalha
o clique e a metralha
o sangue e o bombom.
eu sou na pele um bicho
do diamante o lixo
eu sou o que não sobra
a cobra e o antídoto
nem orfeu eu sou
nem sou vinícius
só sei falar de mim
e vícios.
eu sou o ópio e a deusa
a câmera e o escuro
o furo e a represa
eu sou o disco e a unha
a farsa e a fortuna
eu sou a fada e a louca
o padre e a tortura
o cuspe e quem o engole
a estrangeira e a morte
amiga de nós todos.
sábado, 2 de maio de 2009
nada no mundo
lá vão eles meus passos
na calçada a madrugada
nem fria ou solitária
tão linda a lua mais
plena de ti impossível.
saudade sim e tudo flui
em mim como se eu
a noite e tu as horas
pena que toda a tralha
- razão palavra -
não seja suficiente para dizer
meu coração
é uma estrada
onde passeias e mais ninguém
e ainda és o vento e árvores
que ladeiam.
lá vão eles meus passos
e quando piso sorrio
és o caminho q me leva à casa
onde chego e largo o corpo
na cama por uns minutos
nada no mundo é maior que a falta
do teu corpo me cobrindo.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
afronta
finos rubores
que por tão suaves
sequer alteram a densidade da pele
sequer são visíveis a olho nu.
o coração é tanque e batuque
tambor, lá se lavam as vestes despidas
lá se tocam os dedos frenéticos, fazendo
ritmo.
o coração é porto e edifício, de lá se
afastam os transatlânticos, lá habitam
famílias inteiras e suas histórias.
o coração é branco e preto, arco-íris
filtrando a chuva, cristais que refletem
as cores que inundam o seu vermelho.
sangue. fogueira. espírito do fogo
mensageiro que entre alegorias, flamas,
chamas, anunciam brasas, carvão, diamante.
o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera branda, cólera apenas
como intensidade, como o espaço
que permite toda extrapolação,
onde o instinto é dominante e
as mais inesperadas situações
acontecem, porque as palavras não
obedecem à garganta, obrigam as cordas
e os lábios à pronúncia: palato, dentes,
tudo sucumbe à cólera.
o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera mansa, energia condensada
concentrada, motivo para acordar. e acordo.
sou acordada. não importa se não é para
um beijo, um abraço. é para a vida.
para a vida toda, eu diria, se a linguagem
permitisse voar sobre esse limite. e permite.
nada existe para sempre, mas existe
um momento solene dentro de nós
que deixa que seja dito o impossível
que a promessa seja feita embora
sem alívio, sem certezas, sem dívidas.
a dúvida não mora ali em nós
nesse momento, e não é sob a religião
mas sob o firmamento que esse impulso
se espalha, descontrolado, sagrado
e mesmo sendo dito permanece
segredo. a voz mais doce
o olhar mais sereno
as mãos mais ternas
os gestos mais brandos
e o amor se derramando
até afogar todas as tristezas
em uma cena que certamente
não merece o respeito da literatura
de arte alguma, de nenhuma instituição
ou palavra, de nada que seja humano
ou divino, e ao mesmo tempo
é tudo que há de divino e humano
em nós: dizer te amo eternamente
acreditando, com a força de uma
tempestade que suspende o dentro
e o fora, o tempo e a hora
o espaço e o ruído. só o silêncio
é permitido por alguns segundos
enquanto o mundo aceita
e desespera, porque a felicidade
quimérica é mais temida
que todos os monstros,
é quase afronta.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
bruxuleio
faz que vai partir:
não consegue
rir à luz
de vela.
dá forma e vida
a deusa dos fantasmas:
essa bruxa cheira à cera,
usa pavio e vassoura.
quase que não pude vê-la
antes, quando escuro,
agora branca e fogo
lacrimeja no cinzeiro.
faz que vai partir
mas não consegue ir
a luz da vela:
treme e se incendeia.
feia. bela.

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