terça-feira, 7 de julho de 2009

cazuza















não fale em meu ouvido
beija-flor
que seu bico é muito fino
comprido e perfura meu tímpano
não me diga o que fazer
para tirar os dedos ao lavar
as mãos e não deixar o anel na pia
não me peça para pendurar seu alimento
meu mel mel pra você
na roseira no quintal
não minta tão alto e não me force
a apostar que existe a sua existência
nem me venha com seu drama
sambando na sala logo pela manhã
da cor de um filhote
as asas da realidade ninguém corta
as asas do sonho ninguém corta
as minhas asas
não me venha com vírgulas
nem pontos
o pesadelo só me assusta
quando acordo
e não há beijo nem flor
por que então você jurou
por que não inventou
ao menos uma interrogação
que conversa beijaflorida
é essa de que não posso
tocar minha boca noutra boca
senão naquela
não me responda
e se eu fechar a janela
beija-flor
e se eu parar de sonhar
quantos universos paralelos
você costuma visitar
a cada noite
é você que os cria
ou cada criatura lhe inventa
sempre o mesmo
simplesmente porque tudo é um
e uno e único e múltiplo de si
a minha pele está cortada
beija-flor
meus lábios estão rachados
beija-flor
e eu já nem sei se sinto as dores
mas há coisas que eu sei
sabores cheiros olhares
mistérios segredos falares
loucuras delírios toques
as mãos que num golpe de ar
me despedaçam
a garganta que num gole de mar
me embriaga
a escrita de areia que bebi de um trago
o estrago que a noite sempre faz
naquilo que eu sofria e agora já não sofro
porque por mais que não me beije
beija-flor

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