[para BT.]
da tailândia a liverpool
num ápice
cruza os ares o búfalo
asas gigantescas
e voando com ele
vão as sombras das árvores
do vale.
quem o viu se libertar
da frágil amarra
pôde vê-lo pela pista
verdazulada: toneladas
de sonho a galope.
descoberto pelo homem
o bicho é dócil
como se ignorasse
a morte
na simetria afiadíssima
dos cornos.
criança levada que fugiu
dos cuidados de um tio
cujos olhos foram capazes
de achá-lo, domesticado.
o mimetismo do seu torso
paralisado se fundia
às plantas e ao tudo
invisível menos à retina
acostumada desse outro:
seu-tio-filho-ele-mesmo-ontem.
nessas paragens
o traçado ocidental
perde os sentidos
se desgoverna, des-
falece, é o leito de um rio
seco. o ordenamento
não é o mesmo aqui
uncle boonmee, nem
mesmo lembramos
que somos hoje.
não consideramos o espírito
das flores e escondemos
as dores
no mais distante possível.
ainda sei me transportar
invocando geografia
e amando nomes: laos, mekong,
duras, por mim, por você, velha
poesia de gullar.
boonmee. pequenas mariposas
e fantasmas, camaradas.
:: por você por mim | ferreira gullar, 1968 ::
:: sobre "o vice-cônsul" de marguerite duras ::
num ápice
cruza os ares o búfalo
asas gigantescas
e voando com ele
vão as sombras das árvores
do vale.
quem o viu se libertar
da frágil amarra
pôde vê-lo pela pista
verdazulada: toneladas
de sonho a galope.
descoberto pelo homem
o bicho é dócil
como se ignorasse
a morte
na simetria afiadíssima
dos cornos.
criança levada que fugiu
dos cuidados de um tio
cujos olhos foram capazes
de achá-lo, domesticado.
o mimetismo do seu torso
paralisado se fundia
às plantas e ao tudo
invisível menos à retina
acostumada desse outro:
seu-tio-filho-ele-mesmo-ontem.
nessas paragens
o traçado ocidental
perde os sentidos
se desgoverna, des-
falece, é o leito de um rio
seco. o ordenamento
não é o mesmo aqui
uncle boonmee, nem
mesmo lembramos
que somos hoje.
não consideramos o espírito
das flores e escondemos
as dores
no mais distante possível.
ainda sei me transportar
invocando geografia
e amando nomes: laos, mekong,
duras, por mim, por você, velha
poesia de gullar.
boonmee. pequenas mariposas
e fantasmas, camaradas.
:: por você por mim | ferreira gullar, 1968 ::
:: sobre "o vice-cônsul" de marguerite duras ::
