terça-feira, 21 de dezembro de 2010

ouvindo "a arte da fuga"



















kontra can’t & descartes... a favor de tudo e do miúdo, querendo a quinquilharia de de barros, manuel! lendo e pensando em {toujour} [tu, ju :) – porque cogito que entendes & mentendes]


... como pode ocorrer que o homem pense o que ele não pensa, habite o que lhe escapa sob a forma de uma ocupação muda, anime, por uma espécie de movimento rijo, essa figura dele mesmo que se lhe apresenta sob a forma de uma exterioridade obstinada? Como pode o homem ser essa vida cuja rede, cujas pulsações, cuja força encoberta transbordam indefinidamente a experiência que dela lhe é imediatamente dada? Como pode ele ser esse trabalho, cujas exigências e cujas leis se lhe impõem como um rigor estranho? Como pode ele ser o sujeito de uma linguagem que, desde milênios, se formou sem ele, cujo sistema lhe escapa, cujo sentido dorme um sono quase invencível nas palavras que, por um instante ele faz cintilar por seu discurso, e no interior da qual ele é, desde o início, obrigado a alojar sua fala e seu pensamento, como se estes nada mais fizessem senão animar por algum tempo um segmento nessa trama de possibilidades inumeráveis? – Quádruplo deslocamento em relação à questão kantiana, pois que se trata não mais da verdade, mas do ser; não mais da natureza, mas do homem; não mais da possibilidade de um conhecimento, mas daquela de um desconhecimento primeiro; não mais do caráter não-fundado das teorias filosóficas em face da ciência, mas da retomada, numa consciência filosófica clara, de todo esse domínio de experiências não-fundadas em que o homem não se reconhece. [445-6]

... posso eu dizer, com efeito, que sou essa linguagem que falo e na qual meu pensamento desliza a ponto de nela encontrar o sistema de toda as suas possibilidades próprias, mas que, no entanto, só existe sob o peso de sedimentações que ele jamais será capaz de atualizar inteiramente? Posso eu dizer que sou este trabalho que faço com minhas mãos, mas que me escapa não somente quando o concluo, mas antes mesmo de o haver encetado? Posso eu dizer que sou essa vida que sinto no fundo de mim, mas que me envolve tanto pelo tempo formidável que ela impulsiona consigo e que me eleva por um instante sobre sua crista, quanto pelo tempo iminente que me prescreve minha morte? Posso dizer tanto que sou quanto que não sou tudo isso; o cogito não conduz a uma afirmação de ser, mas abre justamente para toda uma série de interrogações em que o ser está em questão: que é preciso eu ser, eu que penso e que sou meu pensamento, para que eu seja o que não penso, para que meu pensamento seja o que não sou? Que é, pois, esse ser que cintila e, por assim dizer, tremeluz na abertura do cogito, mas não é dado soberanamente nele e por ele? Qual é, pois, a relação e a difícil interdependência entre o ser e o pensamento? Que é o ser do homem, e como pode ocorrer que esse ser, que se poderia tão facilmente caracterizar pelo fato de que “ele tem pensamento” e que talvez seja o único a possuí-lo, tenha uma relação indelével e fundamental com o impensado {etc e saudade. sempre} [447-8]

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 8.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

:: las meninas | diego velázquez, 1656 ::

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

a última giulietta



















ninguém que eu conheça
mais que tu
ama trocadilhos assim
na missa
no engenho
na casa grande
no bueiro
na asa de um pterodátilo.
ninguém mais ama tanto
trocadilhos assim
como se fossem palíndromos:
irmãos gêmeos andando aflitos:
as roupas domingueiras pelo avesso.

és tão ancestral em mim
assim
como uma miss feita de papas
como uma cisma feita de mágoas.

uma única ceia magra
antes do cadafalso.

uma única cena
onde tuas penas
em revogadas
surtissem nenhum efeito
surtassem por sobre a água
feito pássaros
antes da temporada de caça
antes da ferroada que cada um
se aplica: quem depois do escuro
se lembra? só um nome de bar em recife.
depois do escuro.
depois do muro
depois das palavras que se dobram sobre si
como uma onda de asfalto.

não. não cremos em nós.
mentimos alto
e nossa última esperança
é que continuemos a mentir
que cada nosso passo
nos leve mais. nos leve.
nos enleveça. faça de nós
cada passo um centímetro a menos
nessa distância intransc
orrível.

:: noites de cabiria, giulietta masina | federico fellini, 1957 ::

sábado, 25 de setembro de 2010

dokonalost



















eu queria estar em algum canto onde tu pudesses também estar
então desvirtuei, o quanto outro pode desvirtuar, teu caminho
e tentei enviesar tua linha de fuga na direção da minha clausura
sem limites, e para entender como vivo em um espaço mínimo
e infinito é preciso, ao mesmo tempo, ser e deixar-se.

eu, hoje, já não sei se existes ou se quem aí está
se chama luzes, se apagadas, se azuis, se há motores
ainda que nos levem pelo campo das paisagens e das árvores
pois que a vida se assustou quando cheguei e ainda gritamos.

sem espelho, olhando o lodo, o ponto que queima entre as sobrancelhas
meu corpo se arqueia para suspirar, e gemo: o arrepio
trêmulo dos lábios não basta à boca, não soma ao ruído escancarado
do mundo. estática, me resumo e me expando, de tal forma
que, se pudesse, humano, me olhar diria: “exangue e alastrada”,
e de mim afastaria seu cheiro mortal e suportável.

mas não pode me olhar humano nenhum. porque o que sou
rasga a retina desacostumada de quem existe apenas para.
mais é preciso para me ver em fraldas, em sedas, em sonhos:
é necessário se drogar com água do mar e injetar o sumo
de um milhão de estrelas na veia.

justa na medida do álcool, livre como um plágio
canalha, bizarra ,antes que a meia-noite desça sobre o campanário
desacato meio mundo, e espero que depois da explosão
gigante que aguardo, todas as palavras morram
e renasçam, mais brilhantes que nunca, crispadas,
como nossos olhares nunca dantes navegados,
e anunciem um desejo rarefeito, não porque invisível,
intocável, mas porque seus destinos e resultados serão
tão tão tão tão extraordinários.

[se amas tanto tanto tanto o que é dito
se amas tanto tudo que é dito como eu amo
então tudo está perfeito e entendes o gesto
a letra e o leito que não nos foi dado porque seria
excesso, seria até errado ultrapassar a perfeição].

:: um cão andaluz | luis buñuel, 1929 ::

domingo, 7 de março de 2010

sunday



















ao mesmo tempo dos quadrinhos e um caminho
nome e sobrenome vazados num domingo.
ainda sem poder de interpretação
espero que tudo se dissipe e os ossos
só ossos se tornem pelo menos pele e pelo
e sobrevivam à minha insanidade
à minha verbosidade
ao meu chamado.
quem sabe você volta
por uma estrada menos sinuosa
porque o amor é a mais viciante
das drogas. mas é legal.

:: morphinomaniac | eugene grasset, 1897 ::

sábado, 6 de março de 2010

quantum



















quantas pontes esperas que eu atravesse
destas dúbias de sentidos que constróis
sem que eu me parta ao meio sobre o abismo?

quantas vezes dirás o que quero não ouvir
e o que quero de maneira que eu não saiba
jamais o que foi dito?

quantos acordes o vento haverá ainda
de tocar nas cordas tensas dessa incerteza
que estendes entre o que sentes e o que negas?

quantos encontros esperas que eu desdobre
refazendo as esquinas estreitas
sem que minhas asas cansadas se quebrem?

quantas entregas pretendes que eu faça
da minha presença explícita na prata
do teu espelho faminto?

quantos nomes darás ao infinito momento
em que me pensas diária navegando
em teus silêncios?

:: girl before a mirror | picasso, 1932 ::

quinta-feira, 4 de março de 2010

little














eu sei que só dura um tempo
até para os grandes
imagine pros pequenos
menores como eu
artistas se esgotam
suas almas rotas desgostam
dos versos, melodias,
todos os beijos se tornam frios
todas as mãos hirtas descansam
ao lado dos corpos, dos copos
e a voz é só um remorso
da canção.

eu sei que só dura um tempo
mesmo os mais talentos-
os maiores que compõem
que criam o que se pode
sem errar dizer poesia
um dia insípidos rabiscam
o que já foi tão dito
o que ninguém mais escuta:
a inspiração é tão curta
que não cobre a dor
não veste a ilusão
não esboça alegria.

eu sei que só dura um tempo.
parece insuficiente a palavra
melhor deixá-la na mão do vento.
mas se é preciso calar, por que falo?
se é preciso dormir, por que ardo?
se já não vale um centavo o que eu penso.
de medíocre, de igual
nunca passo, mas um compasso
ainda insiste em rodar
como se o coração, golpe em falso
pulsasse contra o que é música
traísse as notas, rebentasse as comportas
do texto ordinário e rondasse as valas
os cenários, quartos, varandas,
extorquindo sentimento
de quem não tem mais nada por dentro.

 :: all gizah pyramids ::

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

mais um menos um



















faz sentido pensar que 0 é o futuro e -1, o presente? faz sentido associar -12 ao presente e menos onze ao passado? faz sentido inverter os inteiros e crescer, crescer mesmo, para trás? faz sentido dizer que tudo começa em 13, que doze é o passado e o futuro estanca em 14? faz sentido o tempo ser número? faz sentido o espaço ser número negativo? espaço racional. tempo racional. partidos. aqui são exatamente 15:04:26 etc. -07° 13' 50'' 35° 52' 52'' etc. sentido. fazer sentido. se o futuro é negativo e o presente e o passado vêm antes do futuro, também são negativos. vida serial. morte serial. como pensar positivamente o negativo? como pensar nulo o negativo? pensar. fazer sentido. não. não faz. xaráp.

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer

E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar

Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

:: chico buarque, por maria bethânia ::

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

descartáveis















DESCARTÁVEL I

Farei um poema curto
de uso fácil, instantâneo
um verso desidratado
comum, assalariado
um pouco salgado
um pouco amargo e algo,
tanto assim, seco.
Poema sem exagero
de verbo azul desbotado
de metro livre caseiro,
quem sabe um poema inteiro
moderno e descartável.


DESCARTÁVEL II

Farei um poema leve
sem couro, carne, nem osso
feito um boneco de neve
faltando os pés e o pescoço
correndo o grande perigo
que cada verso derreta
escorra antes do almoço.

Farei um poema frio
gelado, batendo os dentes
mas que não chega a sorvete,
parece com picolé. Poema
que se se chupa
é pura tinta e açúcar
e água suja o poema.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

vigília


















Cabem meus olhos fechados
além de todo meu corpo
na antessala do sono
Minha cabeça é um barco
sempre indiferente ao porto.

Corto a memória em pedaços
aqui e acolá, um morto
envolto em névoa de outono
Meu coração é um arco
de ventre empenado e torto.

:: the chimera | odilon redon, 1891 ::

domingo, 14 de fevereiro de 2010

um oito zero



















cento e oitenta graus
girei o corpo
a vida girou junto
no lado oposto

o mesmo espetáculo
esplendor da relva
tomates verdes fritos
cria cuervos
um criador de camarões
um obscuro objeto do desejo
um café no deserto calling you.

mais alguns graus à esquerda
o corpo girou
e girei a vida junto
nesse espaço de encontro
te vi, no sé si eras un angel o un rubi y

apenas o céu olhou pra trás
quando perdi a trilha.

agora é hora do desafogo
da liberdade me afogar de novo
de esculpir uns sonhos
onde não posso desenhar você
porque seria o cúmulo.

 

::  torus | jotero, 2007 ::


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

dois oito sete















duzentos e oitenta e sete anos
foi o tempo de espera!
e a noite do encontro,
fechada para reformas:
mas aconteceu:
entre escombros e tropeços
meu corpo não lhe disse nada
meus olhos estancados pelo amor
não lhe disseram nada
minhas mãos salgadas não fizeram nada
nadei até o fim da fachada
onde estavam escritos nossos nomes
e notei que estavam trocados
que embora os signos estivessem corretos
não me chamava. somente o meu pequeno fogo
estava aceso na praia: vela que o vento permitiu
se extinguir sem choro.
nunca nunca nunca
me senti mais perdida e achada
porque as certezas grita(ra)m alto, guitarras
em meu estômago, na pélvis, nos ombros
nos cabelos desgrenhados, na minha fala buliçosa
nas cartas do tarot. tudo imprime meu sentimento
perplexo de solidão. inimaginável. nunca nunca
nunca + nem - acreditarei nos sonhos e nas esperas
fantasmáticas.

duzentos e oitenta e oito anos se passarão
enquanto tudo permanecerá desperto.
abro os olhos, reforço o fôlego, acendo a boca
anteno os ouvidos e nunca nunca nunca
ouço nada diferente do que seu suspiro
confuso: não eram nossos nomes
mas éramos nós. nós miúdos, íntimos, profundos
nós e a lua enchendo para depois minguar
e revelar mais uma vez a inutilidade dos ciclos.
noite novamente e o tapete de prata leva ao horizonte.
nadei outra vez até o fim dos nossos nomes
e encontrei uma rima tântrica, verso quebrado
palavra tantálica posta em desacordo na música roubada.
até isso me foi negado. e por isso mesmo estou salva
até sua voz tocar meu hipotálamo
afetando meu sono, o metabolismo de minhas águas,
minha temperatura corporal.
enquanto escrevo minhas sobrancelhas crescem,
quem sabe isso me faça parecer comigo de novo
quem sabe o laço frouxo que fechou o céu e o cérebro
embrulhados, quem sabe...

[www.jotero.com/bilder/topmod/torus_moebius_ring_texture.jpg]

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

por isso tanto onda: adivinhei









Nem notei o quanto minhas unhas estavam grandes e sujas.
Notei como parecia fora de mim.
Nem notei que fui. Nem notei que vim.

O que restou? Grãozinhos de areia no ouvido direito. A onda me levou.
O que restou? Já disse: grãozinhos de areia no ouvido esquerdo.
E um mar de coisas que ainda tenho pra dizer.

O que restou? Um ombro da t-shirt cheirando a você.
E eu me cheirando na viagem de volta.
O cheiro do café que penetrou o sofá.
As latas e latas e latas de cerveja.
As piolas e piolas e piolas de cigarro.

O que restou? Grãozinhos de sua risada nos meus dois ouvidos.
O carro sujo. As pernas cansadas.
E a impossibilidade de tirar as imagens de dentro de mim.

É. Não restou muito. Tudo ainda está l-a-qui.
Restou meu castelo inexpugnável e sandálias perdidas.
Chaves perdidas, isqueiros perdidos.
Uma toalha usada e desodorante.
Dois universos em choque, e explosão e mais uma estrela recém-nascida.
Em alguns milhões de anos talvez essa luz me atravesse.

O que restou? Um prato inteirinho de camarão empanado
e a lembrança longínqua de um abraço. Agora só falta eu voltar pra onde
eu era
eu era
eu.

Agora só falta minha alma aterrissar na varanda.
O que restou? O de sempre. Nenhum começo.
O que restou? A pergunta insistente e a ressaca.
Uma roupa vermelha. Uma roupa amarela.
Seus olhos bêbados de... de quê mesmo?

Agora só falta eu morrer de novo.
Porque preciso renascer.

Restou o céu daqui e o sol sozinho.
O plano e o ponto............................................
[como sempre, me fez aprender algo fabuloso].

O que restou? Não restou nada.
“Cala a boca!”

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

this is the sounds...














propaganda política: um carro de som.
imbecis a bordo: um carro com som de estrondo tocando música que não gosto.
dezessete pardais chilreando.
minha respiração.
o parque de diversões: mesmo cd há meses e crianças gritando.
o freio no asfalto.
sete televisões ligadas em canais diferentes.
buzina.
a terra tremeu: assombro, barulho de avião caindo em cima de nós.
galhos da roseira balançando e a voz do vento.
fones de ouvido, bethânia.
telefone tocou.
impressora imprimiu.
um chup no cigarro: barulhos.
goles de cerveja. glut. glut. glut.
arroto. xixi. descarga.
gatos falando.
o óculos subindo nas orelhas: barulhinho.
silêncio. puro silêncio no msn. nenhum tunc.
as palavras roncam em seu sono diabólico, roncos assustadores.
e no sonho tem alguém cantando.
“alguém cantando longe daqui
alguém cantando ao longe, longiiii...
alguém cantando muito
alguém cantando bem
alguém cantando é bom de se ouvir”.
silêncio? nenhum.

[olha, ansiedade, nenhuma. oficialmente, não lhe persigo. você não me segue.
olha, tudo entre nós...]

:: two women | schiele, 1915 ::

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

cajuína



















:: aspas ::

A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro, impulsionadas, arrastadas ou incitadas; e é uma visão da ordem – isto é, de uma situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum outro. Não há nenhum meio de pensar sobre a pureza sem ter uma imagem de “ordem”, sem atribuir às coisas seus lugares “justos” e “convenientes” – que ocorre serem aqueles lugares que elas não preencheriam “naturalmente”, por sua livre vontade. O oposto da “pureza” – o sujo, o imundo, os “agentes poluidores” – são coisas “fora do lugar”. Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em “sujas”, mas tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem de coisas idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são “sujas” num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num outro lugar – e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao monte dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato do jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro.

Há, porem, coisas para as quais o “lugar certo” não foi reservado em qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam “fora do lugar” em toda a parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo da pureza tem sido destinado. O mundo dos que procuram a pureza é simplesmente pequeno demais para acomodá-las. Ele não será suficiente para mudá-las para outro lugar: será preciso livrar-se delas uma vez por todas – queimá-las, envenená-las, despedaçá-las, passá-las a fio de espada. Mais frequentemente, estas são coisas moveis, coisas que não se cravarão no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por sua livre vontade. A dificuldade com essas coisas é que ela cruzarão as fronteiras, convidadas ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza “para colocarem as coisas em seu lugar” e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as acomodações. Baratas, moscas, aranhas ou camundongos, que em nenhum momento podem resolver partilhar um lar com os seus moradores legais (e humanos) sem pedir permissão aos donos, são por esse motivo, sempre e potencialmente, hóspedes não convidados, que não podem, desse modo, ser incorporados a qualquer imaginável esquema de pureza.

:: aspas ::

zygmunt bauman, o mal estar da pós-modernidade.

meu neurônio claro que não

















Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo.

À brusquidão se segue sem intervalo grande gargalhada: o bichinho falante (merdalhim – ouvido direito; merdalhão – ouvido esquerdo, agora, versão 2010 mais que estereofônico. tem até propaganda de carro com os bichinhos falantes e alados, diabolim à esquerda, anjelim à direita. crofamas e nópios. tentativa de explicação: livro anterior: “pra te comer melhor”, de eduardo gudiño kieffer, ana palíndroma e severin personagens – o título significa ainda mais do que você está pensando. será que são lembranças-de-verdades ou estou inventando?)

Pinóquio só tinha merdalhim falante. A consciência é um grilo, mesmo. A gente fica grilada. As primeiras histórias que escutamos ou lemos parece que não largam mais. Complexo de Cinderela, Peter Pan e Pinóquio. Cada qual com sua respectiva análise psicanalítica. E branca de neve, e os três ursos-porquinhos? Há de havê-los dentro de lacanfreudjungetc. Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. Sujíssimo. Porque talvez eu queira quem você não quer. 

Talvez eu queira quem não quer você. cazuza não diz nada vara a madrugada procurando por mim. A sujidade vem das incertezas. A pureza é igual à certeza. Sou misturada. Hitler que me perdoe. Mais um livro eu lembro, bem recente, bauman e a história dos sapatos na mesa e da omelete no travesseiro. cada qual no seu quadrado. funkspunk. sertanejobrego. Bach, tchê!, será que estou triste??!! ... !!! CLARO QUE NÃO. Isso não mais existe em mim. A tristeza não tem mais serventia. Noites de insônia são opcionais. Comprimidos de opção. Dias de angústia e existencialismo barato também são facultativos. A gente escolhe. 0 ou 1. uma cadeia de zeros e uns infinita é nossa vida. não é primeira vez que penso nisso. Não será a última. 

Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. Existem pessoas mais inteligentes que outras? CLARO QUE NÃO. a inteligência é tão somente a capacidade de pensar e nisso todos somos iguais. Tão iguais como na morte. Se escolhemos pensar sobre isso ou aquilo. Se escolhemos não pensar sobre isso e aquilo. E OU. O e convergente. O ou divergente. Apenas as vidas e as realidades ilimitadas que se apresentam a cada nanosegundo e a gente sem pensar toma o rumo daqui, Dali, dacolá. Pessoa já não me entende. Deixei de entender pessoa. Joguei com a água o balde e augusto dos anjos. Agora só Diadorim. Daforim. Que diferença faz? Tudo é tão prosaico. Prozac. 

Aos exatamente 89, morrer. Sono profundo é a morte. Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. CLARO QUE NÃO?

:: dome neuron | jburkardt ::

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

no prelo



















estou prensada entre a luz e a escada
no corredor disparo as pernas
observo o número em cada porta:
e se eu bater na porta errada?
e se a sorte me atender?

estou prensada entre o erro e a memória
na praia enchuvarada calco o calcanhar
com força e a pegada desaparece na espuma:
e se a onda não me levar?
e se a morte me entender?

estou prensada entre a paranoia e o enfado
no alto do prédio observo o trânsito parado
e me sinto congestionada: e se houver resposta?
e se a canção tocar na hora certa?

estou prensada entre a repetição e a saudade
na estrada acelero os nervos de borracha
calculo quanto falta para eu não chegar:
e se eu for por um desvio nas nuvens?
e se eu andar para trás acho você?

estou prensada entre um zilhão de bytes e o destino
no teclado conto os dedos nas letras
encalacro meu veneno no anel de fumo:
e se eu não menti nunca?
e se for maior ainda do que digo?

mas veio um martelo e mudou tudo.
quebrou o tempo em mil pedaços de vidro.
e agora estou livre, nada entre mim e a parede.
já não estou achatada, esmagada ou espremida.
desimprensada sigo dormindo, pássaro no galho.
nada me ergue, nada me submerge
e se o encanto for verdade?

estou amada.

 

:: the amorous perspective | magritte, 1935 ::

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

com açúcar, sim



















se for ana, sim se for raquel
sim, sendo gertrudes, patrícia ou vivian
se for ana, sim, ana estrela
e que a hora dela custe a chegar,
que nada atropele se for joana.

se for clarice, se for maria, se for andrea.
que seja um sentimento macabéico
em simplicidade e pureza.

que seja maquiavélico, uma vez a cada dez anos
porque você gosta de emoções veladas.
que seja estratégico, porque sua inteligência
adora labirintos.
sim, se lhe ins-pirar. sendo para o voo
de suas palavras na noite digital
sendo para a vazão da poesia.

se for cássia, sim. sim, se for adelaide.
que seja ameno e doce ao lado das futilidades
e profundo como os mares que insiste em desenhar.
que seja sonho, e mais ainda que seja realidade e sonho.

sim, se for a paixão.
sim, se for segundo e primeiro as alegrias
sim, se tiver alguma dor pra marcar as fronteiras
e identificar a vida.
sim com sangue, mas correndo nas veias
bem quente e veloz como lhe apraz.
sim. se tudo chegar bem devagar
e forte.

sim para a mulher que você ama
sim para o amor que lhe proteja
sim para o suor dos corpos
sim para os diálogos gozosos
sim.
se for para e por seu sorriso, sim.