domingo, 26 de julho de 2009

teu avatar



















já te lancei tantos beijos
e quis te abraçar,
dancei e sorrimos, invadi
teus aposentos.
trabalhei ao teu lado
soprei teus ferimentos
criança, joguei balões de água
em ti, te dei caixas
com presentes
que nem mesmo sabia
o que havia dentro.

vezes e vezes por dia
te visito, olho nos teus olhos
te tenho por perto:
universo ao inverso
onde a fantasia
é a vida real.

agora me instalei
em teu apartamento
e dele não quero sair.

nossas fotos estão no hall
e meu lugar é todo zen
como sonhei. mas quero
uma banheira e um jogo
de xadrez. me darás?

já temos pets,
que encherei de mimos
e alimento.
agora quero uma conta
conjunta, uma vida junto
de ti onde “só” falta
o guardião.

sim, para um determinado mundo
certamente não andam
bem minhas noções
e eu, à noite, numa cama onde
cabem dois, estou só.

não importa: em mim há
coisas sem norte, mas que
fazem minha alegria
minha sorte. e se tudo
é um jogo, não é brincadeira
te amar. por momentos
é tão forte a proximidade
que minha alma estarrecida
corre até meu coração
pra se certificar: e ele está lá
pulsando loucamente
saltando de minhas retinas
para a tela, para o infinito,
para o que não compreendo,
o que invento
e não me arrependo.

cresci o suficiente
para abrir os ovos da páscoa
e cantar os hinos de natal
separando criador e criatura.

não há nenhum sinal de loucura
nessa nova vida a teu lado,
apenas aproveito uma possibilidade
para ludicamente ser feliz sendo
apenas
meu avatar.

sábado, 18 de julho de 2009

um copo















eu queria só isso
um copo de poesia a cada dia
que se transformasse também em pão e pizza
e shampoo, em yõghurt com morta
dela, e roupas novas e botas e sa
patos sandálias chinelas. meias
pra quando o inverno...
poesia
no meu entender
tem que se transformar.

eu queria somente
um gosto de poesia a cada dia
que se transformasse
em armário e geladeira cheios
em telefonemas e aparelhos
grátis. perfume e brincos.
dentifrício.
uma poesia que me lançasse
um sorriso, me rendesse o bastante
pros cigarros. um copo embria
ga
nte
de poesia.

um instante de poesia por dia
onde o meu amor pelos amores
amigos amantes pai mãe vós vôs
irmãos
desconhecidos
parentes
distantes e inimigos
um instante de poesia por dia
onde esse amor fosse dito
e repetido.

eu quero

uma semente de poesia
para que eu possa plantar
e me alimentar pro resto
da vida.

uma poesia bem macia
onde eu pudesse dormir

eu queria

uma poesia que não me desse
trabalho, que saísse sem cortes
para que nenhum destino
mais ficasse preso, uma poesia
que me desse liberdade.

uma poesia totalmente sem palavras
explicáveis. eu queria só isso
um pouco de poesia a cada dia.

uma poesia pública e desonesta somente
até onde podem sê-lo as poesias
uma poesia privada de medo.

um dedo de poesia por dia
me bastaria, transformado em café
e aspirina. uma poesia sem plágio
sem ágio e sem ganância.

uma poesia sem fome:
uma poesia com fome
e comida.

eu quero
um alarido dentro da poesia
tipo passarinhos e barulho
de pétalas caindo na grama
- ventania na roseira -
eu quero uma poesia
feita somente de vento.
uma que passe e fique
passe e fique
acalmando os calores
mais tórridos se isso for preciso
uma poesia bem quente
como um sanduíche mixtu
latino palavras saborosas alho palmito
molho, uma poesia que contaminasse
os vírus malignos.

queria mais ainda: três doses
de poesia ao dia. uma poesia
assim era o que eu queria:
que morresse na hora certa
que acabasse antes da doença
que cansasse a dor.

domingo, 12 de julho de 2009

sonntag



















um mínimo domingo começando
e eu já errando na escrita, gerundiando
melhor descascar do cinzeiro as dez piolas
pior que a cerveja está gripada
menos de sete peles na balada
mais dentro de casa e laptop
joelhos chorando em cima do milho
um passado tão católico quanto adélia
deixei unhas e cabelos no salão
no quarto a sessão de sábado me espera
mas não quero filme nem reza
quero uma fita colorida
azul-senhor-do-bonfim
duas voltas no meu pulso
e uma tigela...
o estilete estava enferrujado
e por isso não morri na madrugada
tive somente tétano, o teto voava
da febre que sua imagem me ataca
esperei que tudo saísse da sala
para lembrar que você não foi embora
que voltou com um comentário na esquina
de um blog sem perfume e sem pintura
eu não cheiro nem é cedo mas você pode
com um golpe de cinco dígitos
me ressuscitar.

que poder, criatura,
têm seus dedos quando, ligeiro,
me revoltam, me retornam:
duas letras, dois parênteses
e um .

:: foresters house in weissenbach | klimt, 2014 ::

quarta-feira, 8 de julho de 2009

iconoclasta



















acordou fadada a quebrar os vidros
de cosmético, as jarras, as portas e
janelas. De um só golpe
destruiu três mitos e quando
percebeu que o quarto estava
ensanguentado, e quando percebeu
que não estava mais no quarto
quando entendeu que em sua fúria
derramara o vaso de plantas e o
pote de geleia de goiaba, não resistiu:
lambeu o chão e as folhas e as cascas
de vidro. Cortou-se. A língua presa
à garganta arrastou os farrapos afiados
e fez em frangalhos a gengiva, o céu da boca.
Naquele apartamento, ilha pendurada em cima
do concreto, rodeado de paredes por todos os lados
não podia gritar, nem telefonar, chamar ambulância
ou vizinho. Ali mesmo, no chão, sentiu as primeiras
contrações, as segundas, as terceiras. Já não estava
na cozinha, nem no quarto. Na quarta contração
empurrou com os pés o vaso sanitário. A falsa gravidez
chegava ao fim, nove anos, dezenove, vinte e nove,
trinta e nove. Quarenta e nove. O útero seco se contraía,
ela apertava a barriga com as duas mãos. O tempo passara.
Ela não vira. Só dormia e fumava. Comia doce de goiaba,
geleia, e aguava as plantas enquanto não se cansava de chorar.
As plantas cresciam rápido, com as lágrimas. Não entendia
como elas podiam florescer sem sol. Só com sol-idão.
Mas agora, que as janelas tinham sido destruídas, depois
de tantos anos o dia invadia as esquinas dos móveis
tocava as folhas espalhadas no chão da sala. E ela
parecia acrescentada, apascentada. O corpo já não
sentia as contrações, nem mesmo a garganta rebentada
doía. A porta quebrada dava passagem. E a rua a esperava.
Mas ela se perguntava: onde é que haverá mais solidão, aqui
ou entre estrangeiros à sua alma, que circulavam lá fora,
atarefados. Nunca tinham regado nada com lágrimas. Talvez
nunca tivessem tido a coragem de esfolar um mito. Mas para
permanecer em seu silêncio e ninho teria que avançar todos
os sinais, percorrer as ruas, correr as lojas atrás de artefatos
com os quais reconstruir a solidão e os estragos. Estava assustada
e paralisada. Talvez essa fosse a forma de continuar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

cazuza















não fale em meu ouvido
beija-flor
que seu bico é muito fino
comprido e perfura meu tímpano
não me diga o que fazer
para tirar os dedos ao lavar
as mãos e não deixar o anel na pia
não me peça para pendurar seu alimento
meu mel mel pra você
na roseira no quintal
não minta tão alto e não me force
a apostar que existe a sua existência
nem me venha com seu drama
sambando na sala logo pela manhã
da cor de um filhote
as asas da realidade ninguém corta
as asas do sonho ninguém corta
as minhas asas
não me venha com vírgulas
nem pontos
o pesadelo só me assusta
quando acordo
e não há beijo nem flor
por que então você jurou
por que não inventou
ao menos uma interrogação
que conversa beijaflorida
é essa de que não posso
tocar minha boca noutra boca
senão naquela
não me responda
e se eu fechar a janela
beija-flor
e se eu parar de sonhar
quantos universos paralelos
você costuma visitar
a cada noite
é você que os cria
ou cada criatura lhe inventa
sempre o mesmo
simplesmente porque tudo é um
e uno e único e múltiplo de si
a minha pele está cortada
beija-flor
meus lábios estão rachados
beija-flor
e eu já nem sei se sinto as dores
mas há coisas que eu sei
sabores cheiros olhares
mistérios segredos falares
loucuras delírios toques
as mãos que num golpe de ar
me despedaçam
a garganta que num gole de mar
me embriaga
a escrita de areia que bebi de um trago
o estrago que a noite sempre faz
naquilo que eu sofria e agora já não sofro
porque por mais que não me beije
beija-flor

segunda-feira, 6 de julho de 2009

abrakádabra



















de ti
[não vou mentir]
não quero menos
que amor
de ti
ao mesmo tempo me basta
a presença, a companhia
que faz com que eu sinta
que ninguém falta.

ao teu lado
não olho para trás
nem lembro o quanto é fugitivo
todo sentimento.

de ti
quero todos os momentos,
um dia inteiro -
algo tão simples
e impensável.

se ao abrir a caixa de cartas
eu encontrasse uma lâmpada
mágica e um gênio
eu pediria que ele fosse onde estás
e dissesse, em meu nome:
"fica comigo".

não, eu nem queria
que fosse infinito
ou eterno enquanto isso
ou aquilo.

mas seria bom saber o sabor
de um abraço teu
de corpo inteiro,
e como é o beijo
que nem adivinho.

um mínimo de fantasia:
lareira e vinho,
amanhecer na névoa,
viajar pela serra,
afundar no mar.

ah... falando sério?,
quero te encantar
quebrar tua dureza
para ter a certeza
que essa frieza
é puro disfarce.
nem chega a ser defesa.