quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

ontem




















não, eu não curto palavrão, não

não temos nada em comum, sim

quero te encontrar na estrada - é certo -

na parada do último ônibus vermelho

numa londres desvairada, impulso

na escada de incêndio enferrujada

como num filme velho e tolo

ouro não me dá desejo, nem a fama



não, eu não sei o que há nos teus olhos, não

só sinto calafrios me queimando os ossos

um negócio que não cabe em letra

dentro de mim há uma suspeita

mas escapo, deixo a linha reta

não derrapo, sigo certa estrela

insuspeita como é teu brilho escuro

teu neon inscrito em meus muros



não, somos tão desiguais e não,

somos como um só desconforto, sim

que nos habita e nos joga fora

como agora quando rabisco linhas

minhas mãos não tremem, não vacilo

um cordel sem rima, sem estilo

nossas vidas não vão se encontrar:

já se encontram sem hora ou contato



os relógios são apenas artefatos

a arte consome tudo como fogo

cinzas, brasas, madeira de lei roubada

vivemos na floresta escura, encantada

em meio a dores amores sem cura ou norte

sigamos nossos caminhos fáceis

não há ninhos e também não vemos pássaros

apenas o céu cinzento prometendo raios



se eu disser que há de fato um nome

retrato de cor que rasga minha aorta

alguém de costas para a parede assina

remoendo lentamente um real havana

a garrafa cheia de vinho tinto barato

uma mulher de pele rara canta

pronta pra quebrar com as mãos e danças

a matéria dura dos canhões, a bala



continuo dobrando as esquinas

sem cuidado atravessando a ponte

dirigindo a própria vida, a morte

não me engana, sou muito mais forte

que imagina o brutamontes tosco

eu me dobro quando vem o soco

a navalha falha, não sabe encontrar

meu ponto de corte, o meu calcanhar



lido com a brisa que embaraça meu cabelo

peso cada frase, entorto cada verbo

destruindo com incerteza o selo, o segredo

durmo sem fazer esforço quando quero

e nos sonhos pesados concretos escrevo

leio os avessos e os palimpsestos

acordo derretida em um país sem terra

não, eu não desisto, quero o inverno e a primavera



vivo um ritmo que não se aprende logo

sou como uma ventania sobre o lago

como água parada, eu sou um pântano afável

areia movediça quando engole um corpo

cuspo faíscas, querosene, óleo fumegante

não sei fazer mal nem bem nem ouço

o que não quero, eu vou e desmantelo a fonte

com todo cuidado e zelo sigo minha errância



dentro de certos modelos pareço constante

de perto sou fina e gorda e mole e dura, impaciente

subo no mais alto monte, grito suave e minto

menos que se quer, as mentiras esmago de jeito

as verdades trato com mel, lua e açoites

pelas noites vago só no beco estreito

sem medo de nada que pressinto, não,

não fujo dos espelhos, mas não me confundo



vem me encontrar como já fizeste antes

numa nuvem de ópio e diamantes

na música batida e forte dos tambores

ousa arcar com a farsa dos amores

não há nada mais intenso que os rumores

beijos e mais beijos que não serão dados

não se pode acabar o nunca começado

os dados rolam sem rumo no horizonte



o destino é cada passo torto e incerto

a vida não aceita freio ou acelerador

o universo não é um motor à gasolina

tudo ensina, tudo erra, tudo é tentador

sem revólver, sem bala ou agulha

sem escudo, sem pudor, sem gula

me destrua, console, me refaça, indefina

amanhã também não será tarde ou sina



todo dia, noite, madrugada, lusco-fusco

nos pores de sol, na entranha da montanha

no túnel aleatório dos códigos, algoritmos

as portas sempre abertas, as veias, os sorrisos

vem me contar sobre as artimanhas e delírios

sobe no ponto mais alto do edifício e pula

meus braços macios vão garantir que seja doce

ouve o coração, teu coração, o meu e vem.


ontem.

:: the skidi pawnee star chart | field museum of natural history, chicago ::

:: stars and constellations of a pawnee sky map | ralph n. buckstaff, 1927 ::