sábado, 30 de maio de 2009

luz del fuego















por onze vezes fui ao céu
e voltei.

depois mais onze.

então parei de contar.

sua mão era minha mão
era sua mão.

era clara e transparente
cristal sua presença,
porém inquebrantável.

meu cansaço, transformado
em delícia, me adormeceu
dentro de um sorriso
no meio do seu corpo.

acordei nos seus braços
ouvi sua voz de bom dia
e recebi o primeiro beijo
desde a criação do universo

sabendo que o amor
a tudo repetirá
e quantas vezes
você me tocar
vou mergulhar na doce agonia
meu dia é outro
minha vida.

dizer o tamanho do amor
não é fácil: a distância
somada às horas de ausência
acumulam-se na carne da esperança.

que em um amanhã bem próximo
meu sentimento possa ser exposto
direto aos seus olhos, seu coração.
e, quem sabe, a morte perde a vontade
a dor esquece de nós?

e a vida será leve
como suas asas, forte
como seu rugido:
nossas feras, nossos anjos
soltos comemorando
o encontro marcado
por nenhuma despedida.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

calendário















e se eu disser
que foi pra você
que levantei no escuro
sem fazer barulho
de lanterna em punho
foquei a folha branca
e rabisquei a dança
dos meus pensamentos?

e se eu disser
que tudo que escrevo
tem seu nome dentro
que sou cem por cento
sua de março a novembro?

o resto do tempo?
em janeiro
minhas férias são você
em fevereiro
você meu é carnaval
e meu natal quem é?
você.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

nomes















hoje eu quis dizer
na primeira escritura do dia
quando abri os olhos, bocejei
estiquei os ombros e braços
e tentei tocar o chão com as pontas dos dedos...

hoje eu quis dizer
logo na primeira hora
na coisa inicial que fosse escrever
pensando enquanto escovava os dentes
enquanto clicava o isqueiro
para o cigarro número um...

hoje eu quis dizer
que haveria um sinal
que eu enviaria um mandatário
um carteiro, um pombo-correio
um signo decifrável somente por ti.

hoje eu quis dizer
que uma borboleta te visitaria
e baixinho, doce, como costumam
falar as borboletas
ela esvoejaria ao teu redor
e baixinho, doce, como costuma
ser a fala das borboletas
ela te diria meu nome.

agora a manhã já vai longe
são 10:49. uma uma borboleta
um bichinho com assas
esvoejou em meu ombro.
quase pousou. impressionante.
quase pousou.
e disse, bem baixinho e doce:
vou mentir. e acrescentou:
teu amor lembrou de ti
agora.
mais baixinho ainda tornou
a falar. antes deu uma risadinha
deliciosa. e disse:
vou ficar quietinha para que você
possa me fotografar e me mandar
de volta. teu amor espera.

eu obedeci.


sábado, 23 de maio de 2009

revertério














o que você quer? diga pr'eu dar! quer a flor
no meu cabelo, meu maior pentelho?
quer um filho? um cadeado?

diga logo! o que é que você quer?
o sol? calço luvas de amianto
pra buscá-lo. a luz? a lua?
compro o lado conhecido
e o outro lado (à nasa, é claro!)

o que você quer? uma casa?
um texto? um telhado? duas águas
marinhas e um topázio? quer o amor
meio a meio? quer um caso?

o que é que você quer que eu não acho?
um lastro? um navio? um baseado?
um psicanalista tempo integral
o mal mal disfarçado? o mar?
um aterro?
um carro novo? o que é que não me atrevo?

o que você quer? um doce de algas
e sargaços? a boca sempre rindo
dos palhaços? diga o que é!
que você já tem e ainda quer...
é um espelho? é o bico
a parte dura do meu seio? o que é?
me conte, eu dou um jeito...
é o sexo? um reflexo? é o meu recheio?
pois eu dou. dou tudo, que só sei amar
inteira, engolindo como a maré cheia.

quer um pouco de areia no seu corpo? quer
o mel e a língua desabusada lambuzando
a torto e a direito? quer as asas
do meu pássaro? o cativeiro? quer a cor
estúpida do dinheiro? esperança?
pois eu cavo e desenterro
abro uma mina. quer na minha
mão uma lâmina? me assassinar?
quer o toque indecifrável dos meus medos?

quer? o que é que você quer? por favor,
me diga! quer estar no meu umbigo?
minha barriga? quer as traças que me roem?
quer os portos, os faróis? os meus lençóis?
meus lenços brancos de cambraia na partida?
quer que eu tranque todo escuro no meu quarto?

quer nunca mais ser infeliz? quer meu retrato?
o que é? o que é? andar de quatro?

quer um prato sem fundo como um poço? quer um fruto
maduro? um pessegueiro? peixes de prata, a mata?
inventos ou outra máquina?

quer o mundo? o esboço que criei?
ah! cansei...


para victor hugo ceccato , pq ele diz q gosta. eu gosto dele :)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

somos nós















somos nós pelas estradas de um lugar qualquer
infringindo a lei seca somos nós em um ford 1896
metralhadoras no colo, charuto nas mãos
minha boca pintada de vermelho escuro
somos nós, a cavalo passeando nos campos
de lincolnshire, o cheiro de verde somos nós.

somos nós atravessando a paulista e entrando no espelho
que vai dar em katmandu e somos nós no deserto
australiano onde o mar aparece por encanto e nos leva
deixando corpos enxutos no aeroporto de schiphol e somos nós
entrando no rijksmuseum para olhar de perto a beleza
da dor de vincent van e sem cansar penetrar noutro museu
para nos encantarmos com a arte de klimt.

o navio vai partir e somos nós mediterrâneo adentro, olhando a brancura
das casas das ilhas gregas e eu acordando gueixa no japão.
somos nós em cada estado do brasil, provando as comidas típicas
fazendo castelos de areia nas prais tropicais, dormindo nas
camas macias das pousadas, vendo tardes douradas enquanto
alimentamos o espírito com um trago. somos nós nas cordilheiras
somos nós coast to coast ao lado dos beatnicks
jogando sinuca nos bares mais carregados
praticando a liberdade em alto e perigosíssimo grau.

somos nós na aurora boreal começando a acreditar
que tudo é infinito, somos nós pelo nosso mundo
inteiro. cerebral. que importa? é mundo, também.
é nosso. restrito? que importa, se tudo é lindo nele
e sonhar é um vício? somos nós em saint petersburg,
não, na flórida, não, perto dos bálcãs, nas savanas da áfrica
animais famintos. os domingos não têm fim.
e minha imaginação descansada vê só o seu sorriso
por todas essas paragens, seu corpo forte, sua voz
amável, seu cheiro perfeito, seu olhar innominabile.

suas mãos tocando as minhas
somos nós nas entrelinhas de tudo que acontece.
somos a rosa-dos-rumos, os moinhos e os quixotes.
somos nós, em tanto repetido que esquecemos que a vida
não se repete. somos nós, cada qual em si, articulando
sons e vértebras para desconhecidos, porque o mundo
todo só é parecido conosco. até que o insuportável
medo me cale e as palavras desapareçam, e as imagens
se recusem, e nós, sem mais sermos nós, aceitemos
que os domingos são intermináveis para mim.

só para mim. mas, não. meus olhos tocam o céu
de um azul preciso e sem querer você faz o mesmo.
e somos nós, de novo, na garganta de um polvo gigante
nos tornamos abraço de tantos braços. e, não. desfaço
as rimas com as unhas, me desembaraço de você
e corro para o quarto vazio. mas, não. hoje é quinta
porque amanhã será sexta. sábado. não, segunda, não.
quando pela primeira vez verei você chegando pelos cabos óticos,
pela linha telefônica, pela janela que abri no meu peito?
entra. a casa é sua. como eu, toda, inteira, sou sua, ao me
entregar aos devaneios. nunca pertenci a nada. ninguém.
nunca mais pertencerei. a tatuagem com teu nome por completo
em meu cóccix. outra escrita. seu nome que salva minha vida
por um instante e é o bastante. porque outro instante o sucede
e eu repito: angel. angel. angel. eagle.

que veio para reconstruir meu reino e reinar, absolutamente
sobre minhas digressões. meu amor, meu jardim cheio de pavões,
em paz com tudo e com a natureza. de novo. eu e você. somos nós.
e não somos. nossa carne apartada pela distância que os sonhos não
vencem, nossa alma incompartilhável, como todas as almas. e apesar
disso somos nós, porque chego de mansinho, pura energia disfarçada
em tudo que lhe rodeia: mesas, cadeiras, roupas, meias. a água do seu banho.
a água que você engole. em tudo estou um pouco, pura energia
que nada remove. que se move pela atmosfera, rápida como uma flecha,
mais rápida que a bala, que a ave, mas sutil que a borboleta. aranha. teia.

estou nas curvas de suas digitais, átomos, invisíveis carbonos,
eu sou seu abandono, no sono. e o beijo que você recebe quando acorda...
sou o que falta e o que sobra. somos nós, pelo vento. por tudo que
invento e que desmorona. somos nós, em toda frase que construo
e que você, ao ler, destrói. somos nós. elos. perdidos por nascimento,
um de um útero, outro de outro. somos nós. mas mesmo que os dias
tenham seu veneno, não morro. porque nunca disse nenhuma vez
e vou dizer de novo: não morro. não enquanto não lhe encontrar.

enquanto isso vou fazendo mel para sua boca.
colhendo néctar das flores mais estranhas.
vou sendo abelhas, vou sendo plantas.
e dormindo junto a você no nosso alvéolo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

sem noção















perdi a noção do perigo

vou

tocar fogo nos livros e nas bulas
mastigar as lâminas mais duras
mergulhar na lava do vulcão
morcegar na highway um caminhão
ir a pé daqui pra palestina
adoçar meu café com estricnina
abraçar um grande porco-espinho
insultar a mãe de um assassino

perdi a noção do perigo

vou

beijar na sua boca sem pedir
sonhar que de você não vou partir
esquecer que o tempo é implacável
decidir nomear o inominável
destrancar a jaula da pantera
pular do avião sem paraquedas
me entregar ao vício de beber
me anular até o desnascer

tudo inútil
você não me percebe
se tocasse no quente do meu corpo
diria que é febre

tudo inútil
você me ignora
se olhasse em meus olhos
diria que é breve.

mas é amor.

perdi a noção do perigo eu vou...

terça-feira, 19 de maio de 2009

because















aquário em chamas
o lastro frio da cama
e tua dor me chutando.
faço um esforço para sair da trama
e lembrar o sorriso-vida
de outros filmes.
arte é real.
parte minha ri de feliz
por te saber assim
capaz de fingir
as dores que deveras sentes,
e vejo teu mundo interior
inteiro do que é sensível,
cheio de magia e risco
silêncio e grito
melodia e sorvete
poesia e medo
gargalhada e dengo
fortaleza e feno
obscuro e claro
bastidores e palcos
de bicho e gente:
um ser humano todo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

bem cedo















hoje eu queria alguma inspiração
de trato divino ou humano
que me viesse certeira e pudesse
sem causar constrangimento
deixar-te saber o quanto
cada palavra tua é luz
no meu dia.

hoje eu queria uma inocência completa
o sentimento mais puro
a sentença mais correta
que caísse como um raio
em teu entendimento
sem causar ansiedade ou medo
e te fizesse entender o quanto
por milagre ou invento
já te amo.

hoje eu queria somente uma frase
que coubesse e transportasse
de volta a doçura e o carinho
tudo de bom que eu respiro
a alegria sem começo
de quase ouvir tua voz.

mas só se soltam de mim
esses termos tão pobres
sem poesia, sem acordes
ridículos e simples
como deveriam ser e são
todas as falas de amor.

eu não entendo
mas nem por isso me furto:
revelo o susto, a surpresa
mais que bendita
de sentir meu coração
descartado
pulsar mais forte, mais quente
contente, apaziguado
mesmo sabendo, é claro,
que a sorte do teu abraço
é impossível. mais ainda
é um beijo.

mas que importa a falta
de senso se o sonho é denso
e eu nunca desisto?

domingo, 17 de maio de 2009

roda gigante















sou seu parque de diversões
você brinca comigo, joga as palavras
que eu digo de volta com mais força
você balança no meu coração
salta de um sim para um não
e escorrega bem na hora
mas você não está com essa bola
toda: seu revólver de plástico
enferrujou, as rodas do seu skate
estão travadas
suas chances você não vê
mas vão ficando cada vez mais raras.
você vai se esconder
mas não vou lhe procurar,
não precisa mais correr
porque já estou parada,
se prepare pra chorar
porque já estou cansada
e vou fechar o parque
de suas diversões
e jogar a chave
na privada.

sábado, 16 de maio de 2009

me leve















o amor é da ordem
do raro do absurdo
do secreto. o amor
é sempre um panfleto
porque é tão igual.

e porque os passarinhos
delicadamente depositam
em lugares distantes
sementes.
e porque algumas flores nascem
dentro da gente sem querer
em certos dias.
e porque melodias nos tomam
de assalto transportam
nossos sonhos como se o espaço
não fosse. nem o tempo.

só mais um coração
o último. último trem
último apelo. depois disso
nunca mais para sempre.
apenas mais um extremo
e ardente olhar. enfeitiçado
o coração escolhe e escolhe
estar batendo. [claro que
para sempre e nunca mais
é errado. se minto e dramatizo
se brinco e se pratico
o risco das palavras
é só porque você me inspira
a sacudir o mofo das verdades.
não me leve a sério me leve
a sério me leve. me leve.
e nunca mais para sempre
me traga. amor.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

78 rotações















disco novo
ouço
cantora nova
enquanto o colírio alcança o fim do olho
(a velhice começa a me cegar).

me pergunte que eu não saberei responder
porque acredito que num logo em breve
estaremos lado a lado
escutando o hino de duran.

eu cato palheiros, mas encontrei você
não é a primeira nem última agulha
mas estou sempre apostando.

por quê?, me pergunte e eu respondo:
porque sonho.

desde sempre, desde que me lembro
invento amores-cazuza
que não se podem consumar.
curiosidade? mato: melhor assim,

porque assim tenho o melhor
o mais escolhido, o exatamente
desejado. e se permaneço distante

se no máximo desses sentimentos
palavras são o que extraio
tem também o seu sorriso
para provar que acertei
mais uma vez, e quem sabe
entre um talvez e um dia
um buarque, um gullar
uma thais.

além do mais é mais fácil
sem toalha molhada em cima da cama
sem pasta sem tampa e a gosma branca
sem defeitos sem traição sem medo
sem supermercado sem brochada
sem dúvida.
sem dúvida.

além do que é o que eu posso
contra a distância e o desconhecer
contra a morte que pode ocorrer
contra o ciúme em longa metragem
contra as possibilidades de todo ruim.

então posso dizer que amo
com firmeza com sentido
com a mesma libido que existiria
com a boca em seu sorriso
com o cálice com o mar
com seus dentes em minha língua
com a rima e a canção
com o corpo no tapete
com o corpete e o mundo antigo
78 rotaçoes, beibê.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

descansa















ipês florescem na boca da manhã
fresca, verão de brejo
breve ainda enquanto novembro
tímido o dia esquenta
meu sentimento aguarda
no sinal vermelho,
o viaduto suspenso
é imagem de mim.

quando em que dia
me perguntarás pelo meu
amor?

quando o sentido
do que sentes se apresentará
somente e nu entrando
nos meus olhos?

teu olhar demora a escolher
partir e chora porque
ficar é impossível.

não quero que nos venha
um dia de deuses e abraços
não quero que a senha
de nossa existência em comum
seja um pecado, um deslize
um anzol, uma caixa lacrada.

quero que a vida exploda
e dessa granada uma farpa
me atinja e seja ela
o convite que nos falta.

se o contive, a despeito
e malgrado meu desejo
entenda: não tenho ofertas
nem problemas, não tenho
remendos e sou partida,
não lamento ontem
nem hoje e o futuro
inexiste até o futuro.

sou dura como a água
e sobre a pedra
me desfaço em imagens.
cresço quando queres
que me guarde e desapareço
nos sustos que te prego.

sem sossego, sossegada
persigo as montanhas mais altas
e sinto a brisa e piso a areia
das praias e estou nas florestas
e nas avenidas alteradas
sou o próprio trânsito
do teu sangue, e não percebes.

que se dane então toda a escritura
que se parta ao meio meu coração
pintado.

os ipês florescem na manhã
sem mágoas. e a vida continua
sem esquadro. a esperança
é um lago e o monstro
sou eu emergindo loucaness.

descansa, descansa, os ipês
florescem, os sóis, um novo
a cada dia, se sucedem.
descansa, que os ipês
feito meu amor
florescem. e nada podes fazer.

terça-feira, 12 de maio de 2009

mosca















incansável na vidraça
bate e volta
elástica
a mosca.

que haverá de tão doce
depois da janela?

que fruta, que açúcar
esperam por ela?

doçura de vento?
pedaço de voo?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

já é















pipocas numa grande panela, estourando
muitas crianças chegando à praia na manhã de sol
a mesa cheia de amigos brindando a alguma vitória
o abraço de quem voltou do exílio
ver a neve pela primeira vez
passar no vestibular
ter um filho bem esperado
a recuperação completa de uma doença
a doçura do primeiro beijo
sentir o vento batendo no rosto
olhar o céu estrelado de um lugar onde ainda não há eletricidade
é assim, é como assim, ouvir tua voz
meu coração inundado de algo que não sei descrever
minha alma cantando uma canção que nenhum humano poderia compor
a divindade explodindo nos meus olhos, para dentro
as células rejuvenescendo, se regenerando
a chuva fazendo crescer o cheiro da terra
o mais belo dos pores de sol
a natureza intacta
a cachoeira gelada
o horizonte na estrada
tudo que de mais simples existe e resiste
a tudo, às palavras rebuscadas, aos versos elaborados
ao cinismo, ao enfado, ao tédio
que é capaz de se recompor, fênix, super-herói
rabo de lagartixa, estrela-do-mar, nietzsche, borges
eterno retorno que um afirma e outro nega
que é piegas e ninguém se importa
boca aberta, porta aberta, abraço
flecha que não fere, bala que não mata
sapato que não gasta
pão multiplicado, ruma de milagre
tudo que é espontâneo e infinito
inacreditável assim como
é o amor que sinto
assim como uma flor desabrochando com orvalho
primeiras horas do mundo, nossa odisseia
todo dia, todo novo dia.
e o que parece a mais.
gotas de brilho
sonhos sorrindo
o grau exato de álcool no sangue
a avalanche de uma gargalhada
os sete véus que vão ao chão e não revelam nada
o oculto que permanece
tudo que desentristece
os cabelos longos cachos de um menino
a música dizendo da mesa farta e dos destinos
distintos e felizes de shangri lá à palestina
os dons infinitos da menina
o samba o reggae o funk punk delicado
os dois espelhos gêmeos e vazios
as luzes grandes e redondas
as ondas de silêncio e de perfume
o olhar comendo o mar e os mistérios
os punhados de afetos atirados
os punhos que jamais serão usados
os medos que serão sempre deletados
em última instância, primeira instância
tudo que é arriscado e perpetrado
sem maiores e dolorosas consequências
as urgências adiadas e os afagos
como em mim tudo, assim
e mais ainda, despalavreadas
despalavreados os sentidos
são só olhos, boca, narizes e ouvidos
as mãos tateando o futuro em braile
um presente cego de amor.
seja o que for que seja assim
como, e continue. por quanto e como
assim se for, indefinidamente,
até que tudo aguente e se sustente
pela imensa força do que há. já é.

domingo, 10 de maio de 2009

pessoa secreta















pudesse e seria
secreta pessoa a ir
com o vento toda vez
que ele arrastasse do teu olho
uma sombra, deixasse um nome
sem nome em tua boca, arrepiasse
o desejo em teu ouvido.

nunca porém me foi dada
mágica nenhuma de voar
ou senão não
estaria onde me ponho: puro
papel, palavra sem seda, mel
coagulado que não roça teu
sexo, ao contrário: nem chego
a escrever um poema
que te diga, de fato
qualquer aviso de que o amor
mesmo escondido e não feito
permanece e percorre o espaço
todo, feito o vento.

pudesse, e seria...

sábado, 9 de maio de 2009

criatura















me criou como quem cria uma personagem
me deu nome próprio
ampliou o arco dos meus olhos
me fez perder o trem das onze.

me alimentou como quem alimenta a fome
me deu doses diárias de alegria
negociou as minhas fantasias
me fez jogar doze dores fora.

me sequestrou a alma, entrou na minha história
mudou o enredo do meu samba
atrapalhou o tiro de misericórdia
que eu projetei pra mim.

me fez sentir na pele da rainha
com os dentes partiu o aço das algemas
não me recusou beijos nem poemas
e desistiu de mim num dia qualquer
dessa semana.

eu e minha personagem
sentamos na grama
o céu sem nuvens parecia chuva
o sol sem pena parecia neve
e desisti de mim num mês qualquer
desse ano.

sem rima
os versos quebrados
são uma casa em ruínas.
sem drama
o corpo em febre espera
que a doença ceda
e que o desejo aprenda
a sair de cena.




sexta-feira, 8 de maio de 2009

palimpsesto















no candelabro
dois cristais falsos
pendurados no retrato
nossos olhos denunciam a solidão
do amor que nunca soube
o que é pecado
que em divinos descalabros
se desfez nas pequeninas ilusões.

tanta coisa eu escrevo
contrárias ao que digo
ao que faço... a verdade é o descompasso
pois o amor e o desejo estão distantes
quando mentes, quando estanques
nossas mãos ainda assim se procurando.

permanentemente iguais
nosso calor, nossos sinais
palavras que ainda diremos
normais, sobre o tempo
o mormaço.

nas estradas
vicinais encontraremos povoados
pousadas que acolherão
nossos novos amores proibidos
e em cada canto desforrado
nos travesseiros procurarei
seu cheiro nas toalhas
no ar sob a copa das árvores
na velocidade das cercas passando
por mim e devorarei o barro
o asfalto os paralelepípedos
e com todos esses indícios
rabiscarei mais uns colapsos
acasos no palimpsesto de
nosso amor rasgado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

a letra















e nessa forma
o coração que andava aos pedaços
encontrou afagos
repetiu a letra
da felicidade.

e dessa forma
nada fácil
fez a fábula de um amor sem face
como o girassol do poema
como um disfarce
fujo de aceitar a faca
que me corta a carne.

mas tudo é inútil,
fábrica de sentimentos
o coração que anda aos pedaços
só sabe repetir o falso
argumento: fiapos de dor
rolam no pensamento
enquanto a fé nos beijos
não se cansa jamais.
e tudo que era feio jaz.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

frugal















ontem em meu sonho você foi rinoceronte
solitário na paisagem ovalada de um oásis.
que os sonhos não respeitam geografia,
sonhos só respeitam as vontades.

ontem em meu sonho você ria,
transformou-se em girassol selvagem,
e era noite no jardim mais branco do alasca.
que os sonhos não respeitam a argamassa
taciturna que levanta a realidade.

de manhã o lençol todo derramado
travesseiros que atravessaram o mar cáspio
descansam na cerâmica azulada.
e meu amor, tão mais simples que a memória,
estica a preguiça, devagar procura a copa:
café leite pão.

domingo, 3 de maio de 2009

muitas















eu sou o mouse e a musa
a usada e a que abusa
sou a doença e o milagre
a força e a mais covarde
a faca e os botões da blusa
a música e o alarme
o grito e a écharpe
os olhos e a navalha
o clique e a metralha
o sangue e o bombom.

eu sou na pele um bicho
do diamante o lixo
eu sou o que não sobra
a cobra e o antídoto
nem orfeu eu sou
nem sou vinícius
só sei falar de mim
e vícios.

eu sou o ópio e a deusa
a câmera e o escuro
o furo e a represa
eu sou o disco e a unha
a farsa e a fortuna
eu sou a fada e a louca
o padre e a tortura
o cuspe e quem o engole
a estrangeira e a morte
amiga de nós todos.

sábado, 2 de maio de 2009

nada no mundo















lá vão eles meus passos
na calçada a madrugada
nem fria ou solitária
tão linda a lua mais
plena de ti impossível.
saudade sim e tudo flui
em mim como se eu
a noite e tu as horas
pena que toda a tralha
- razão palavra -
não seja suficiente para dizer
meu coração
é uma estrada
onde passeias e mais ninguém
e ainda és o vento e árvores
que ladeiam.
lá vão eles meus passos
e quando piso sorrio
és o caminho q me leva à casa
onde chego e largo o corpo
na cama por uns minutos
nada no mundo é maior que a falta
do teu corpo me cobrindo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

afronta















finos rubores
que por tão suaves
sequer alteram a densidade da pele
sequer são visíveis a olho nu.

o coração é tanque e batuque
tambor, lá se lavam as vestes despidas
lá se tocam os dedos frenéticos, fazendo
ritmo.

o coração é porto e edifício, de lá se
afastam os transatlânticos, lá habitam
famílias inteiras e suas histórias.

o coração é branco e preto, arco-íris
filtrando a chuva, cristais que refletem
as cores que inundam o seu vermelho.
sangue. fogueira. espírito do fogo
mensageiro que entre alegorias, flamas,
chamas, anunciam brasas, carvão, diamante.

o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera branda, cólera apenas
como intensidade, como o espaço
que permite toda extrapolação,
onde o instinto é dominante e
as mais inesperadas situações
acontecem, porque as palavras não
obedecem à garganta, obrigam as cordas
e os lábios à pronúncia: palato, dentes,
tudo sucumbe à cólera.

o mundo tem um pulsar colérico
agora, cólera mansa, energia condensada
concentrada, motivo para acordar. e acordo.
sou acordada. não importa se não é para
um beijo, um abraço. é para a vida.
para a vida toda, eu diria, se a linguagem
permitisse voar sobre esse limite. e permite.
nada existe para sempre, mas existe
um momento solene dentro de nós
que deixa que seja dito o impossível
que a promessa seja feita embora
sem alívio, sem certezas, sem dívidas.

a dúvida não mora ali em nós
nesse momento, e não é sob a religião
mas sob o firmamento que esse impulso
se espalha, descontrolado, sagrado
e mesmo sendo dito permanece
segredo. a voz mais doce
o olhar mais sereno
as mãos mais ternas
os gestos mais brandos
e o amor se derramando
até afogar todas as tristezas
em uma cena que certamente
não merece o respeito da literatura
de arte alguma, de nenhuma instituição
ou palavra, de nada que seja humano
ou divino, e ao mesmo tempo
é tudo que há de divino e humano
em nós: dizer te amo eternamente
acreditando, com a força de uma
tempestade que suspende o dentro
e o fora, o tempo e a hora
o espaço e o ruído. só o silêncio
é permitido por alguns segundos
enquanto o mundo aceita
e desespera, porque a felicidade
quimérica é mais temida
que todos os monstros,
é quase afronta.