ipês florescem na boca da manhã
fresca, verão de brejo
breve ainda enquanto novembro
tímido o dia esquenta
meu sentimento aguarda
no sinal vermelho,
o viaduto suspenso
é imagem de mim.
quando em que dia
me perguntarás pelo meu
amor?
quando o sentido
do que sentes se apresentará
somente e nu entrando
nos meus olhos?
teu olhar demora a escolher
partir e chora porque
ficar é impossível.
não quero que nos venha
um dia de deuses e abraços
não quero que a senha
de nossa existência em comum
seja um pecado, um deslize
um anzol, uma caixa lacrada.
quero que a vida exploda
e dessa granada uma farpa
me atinja e seja ela
o convite que nos falta.
se o contive, a despeito
e malgrado meu desejo
entenda: não tenho ofertas
nem problemas, não tenho
remendos e sou partida,
não lamento ontem
nem hoje e o futuro
inexiste até o futuro.
sou dura como a água
e sobre a pedra
me desfaço em imagens.
cresço quando queres
que me guarde e desapareço
nos sustos que te prego.
sem sossego, sossegada
persigo as montanhas mais altas
e sinto a brisa e piso a areia
das praias e estou nas florestas
e nas avenidas alteradas
sou o próprio trânsito
do teu sangue, e não percebes.
que se dane então toda a escritura
que se parta ao meio meu coração
pintado.
os ipês florescem na manhã
sem mágoas. e a vida continua
sem esquadro. a esperança
é um lago e o monstro
sou eu emergindo loucaness.
descansa, descansa, os ipês
florescem, os sóis, um novo
a cada dia, se sucedem.
descansa, que os ipês
feito meu amor
florescem. e nada podes fazer.

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