pipocas numa grande panela, estourando
muitas crianças chegando à praia na manhã de sol
a mesa cheia de amigos brindando a alguma vitória
o abraço de quem voltou do exílio
ver a neve pela primeira vez
passar no vestibular
ter um filho bem esperado
a recuperação completa de uma doença
a doçura do primeiro beijo
sentir o vento batendo no rosto
olhar o céu estrelado de um lugar onde ainda não há eletricidade
é assim, é como assim, ouvir tua voz
meu coração inundado de algo que não sei descrever
minha alma cantando uma canção que nenhum humano poderia compor
a divindade explodindo nos meus olhos, para dentro
as células rejuvenescendo, se regenerando
a chuva fazendo crescer o cheiro da terra
o mais belo dos pores de sol
a natureza intacta
a cachoeira gelada
o horizonte na estrada
tudo que de mais simples existe e resiste
a tudo, às palavras rebuscadas, aos versos elaborados
ao cinismo, ao enfado, ao tédio
que é capaz de se recompor, fênix, super-herói
rabo de lagartixa, estrela-do-mar, nietzsche, borges
eterno retorno que um afirma e outro nega
que é piegas e ninguém se importa
boca aberta, porta aberta, abraço
flecha que não fere, bala que não mata
sapato que não gasta
pão multiplicado, ruma de milagre
tudo que é espontâneo e infinito
inacreditável assim como
é o amor que sinto
assim como uma flor desabrochando com orvalho
primeiras horas do mundo, nossa odisseia
todo dia, todo novo dia.
e o que parece a mais.
gotas de brilho
sonhos sorrindo
o grau exato de álcool no sangue
a avalanche de uma gargalhada
os sete véus que vão ao chão e não revelam nada
o oculto que permanece
tudo que desentristece
os cabelos longos cachos de um menino
a música dizendo da mesa farta e dos destinos
distintos e felizes de shangri lá à palestina
os dons infinitos da menina
o samba o reggae o funk punk delicado
os dois espelhos gêmeos e vazios
as luzes grandes e redondas
as ondas de silêncio e de perfume
o olhar comendo o mar e os mistérios
os punhados de afetos atirados
os punhos que jamais serão usados
os medos que serão sempre deletados
em última instância, primeira instância
tudo que é arriscado e perpetrado
sem maiores e dolorosas consequências
as urgências adiadas e os afagos
como em mim tudo, assim
e mais ainda, despalavreadas
despalavreados os sentidos
são só olhos, boca, narizes e ouvidos
as mãos tateando o futuro em braile
um presente cego de amor.
seja o que for que seja assim
como, e continue. por quanto e como
assim se for, indefinidamente,
até que tudo aguente e se sustente
pela imensa força do que há. já é.

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