domingo, 7 de março de 2010

sunday



















ao mesmo tempo dos quadrinhos e um caminho
nome e sobrenome vazados num domingo.
ainda sem poder de interpretação
espero que tudo se dissipe e os ossos
só ossos se tornem pelo menos pele e pelo
e sobrevivam à minha insanidade
à minha verbosidade
ao meu chamado.
quem sabe você volta
por uma estrada menos sinuosa
porque o amor é a mais viciante
das drogas. mas é legal.

:: morphinomaniac | eugene grasset, 1897 ::

sábado, 6 de março de 2010

quantum



















quantas pontes esperas que eu atravesse
destas dúbias de sentidos que constróis
sem que eu me parta ao meio sobre o abismo?

quantas vezes dirás o que quero não ouvir
e o que quero de maneira que eu não saiba
jamais o que foi dito?

quantos acordes o vento haverá ainda
de tocar nas cordas tensas dessa incerteza
que estendes entre o que sentes e o que negas?

quantos encontros esperas que eu desdobre
refazendo as esquinas estreitas
sem que minhas asas cansadas se quebrem?

quantas entregas pretendes que eu faça
da minha presença explícita na prata
do teu espelho faminto?

quantos nomes darás ao infinito momento
em que me pensas diária navegando
em teus silêncios?

:: girl before a mirror | picasso, 1932 ::

quinta-feira, 4 de março de 2010

little














eu sei que só dura um tempo
até para os grandes
imagine pros pequenos
menores como eu
artistas se esgotam
suas almas rotas desgostam
dos versos, melodias,
todos os beijos se tornam frios
todas as mãos hirtas descansam
ao lado dos corpos, dos copos
e a voz é só um remorso
da canção.

eu sei que só dura um tempo
mesmo os mais talentos-
os maiores que compõem
que criam o que se pode
sem errar dizer poesia
um dia insípidos rabiscam
o que já foi tão dito
o que ninguém mais escuta:
a inspiração é tão curta
que não cobre a dor
não veste a ilusão
não esboça alegria.

eu sei que só dura um tempo.
parece insuficiente a palavra
melhor deixá-la na mão do vento.
mas se é preciso calar, por que falo?
se é preciso dormir, por que ardo?
se já não vale um centavo o que eu penso.
de medíocre, de igual
nunca passo, mas um compasso
ainda insiste em rodar
como se o coração, golpe em falso
pulsasse contra o que é música
traísse as notas, rebentasse as comportas
do texto ordinário e rondasse as valas
os cenários, quartos, varandas,
extorquindo sentimento
de quem não tem mais nada por dentro.

 :: all gizah pyramids ::