sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

josé julio jorge



a noite é imprecisa
navio na corcova
do camelo
o homem se abriga
na tempestade
de si mesmo.

dois
o deus e ele
entre os raios
procurando
os dias no espelho.

a sorte é escondida
enguia em meios às algas
pesadelo
o homem se acredita
náufrago do naufrágio
de si mesmo.

pelas ruínas
-cego -
circulares
lendo labirintos
com os dedos.

a morte é esquecida
memória contrária do começo
o homem se multiplica
no mito, no ídolo, no avesso

e é o tempo
espuma
sobre os mares
um segundo
único e espesso

sábado, 23 de abril de 2016

ouço o tapete















acompanho seu silêncio
com meu silêncio
e não basta

toco o limite plástico
da distância
e minha mão se perde
no portal das mágicas

é um jogo de perguntas 
realizado
na sala atapetada
com cascas de ovos

reality show onde nós
somos quatro 
e nos vemos
enquanto jogamos
de fato

pequena armadilha
sutil campeonato
e vencer talvez seja
um final impossível

o que importa é o lançado
o que se desdobra

a promessa de novos
e possíveis prazeres
seu riso meu riso
os raros deslizes
palavras que indicam
avanços e recuos

a curiosidade que incide
sobre os pontos escuros:
suspense que arde
nas pontas dos dedos
nas mãos do futuro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

mais um ano

















estás tão longe de ser o que dizes
que não te alcanças.
nada te alcança.
e vives nessa poça de resíduos de vazio.
o que sobrou, irreconhecível
não quer espelhos, não olha para o céu
não se atreve a gritar.
as suaves mentiras, diárias
os sorrisos maleáveis
tudo nessa viagem solitária
é fumo e desperdício,
arquitetura de nuvens
que um sopro atravessa
para encontrar, novamente, o éter.
e no lugar transplantado, onde havia pensamentos
e no espaço transplantado, onde habitou o coração
(que não conheceu a sinceridade)
moram, colados no chão, sob os pés,
(e não mais no corpo erguido)
transplantados: espetáculo de artifícios
que explodem.