sábado, 8 de junho de 2019

serpente e pássaro













os brancos britânicos
os espanhóis espelhados
caçadores do índio incivilizado.
e como se via o pássaro emplumado
ou aquele índio vermelho de barro
diante de si mesmo armado?

os franceses cor de rosa
na maloca, cheirando a purê de mandioca
depois do almoço. depois na rede
fazendo bastardos, misturando gens
fazendo um caldo.

os besteiros portugueses
fazendo as vezes do soldado. mais tarde
os navios carregados: pólvora, sementes,
reses e reses de escravos
que caem nas armadilhas: vêm de luanda,
sofala, moçambique, serra leoa e senegal

para o brasil 
e para as canárias 
e para as antilhas.

lembranças da ilha de bastardia, nas costas ocidentais do oceano

quinta-feira, 6 de junho de 2019

climática










por que quero permitir à dor
que não existe
criar no vácuo tão concreta
morte? por que ensandecida
não completo a queda e me atiro
ao nada
do difícil trampolim?

rio assim patética
mordendo a tarde, amaldiçoando luas
e planetas, noites que ainda vêm.

ritos de desdém (uma frase amargosa
no canto da boca).

se ninguém compreende, ninguém
mesmo avariada continuo
martelando insensatez
descendo lentamente
      — submarino —
às regiões sem luz e sem sentido.

onde o brilho dos sóis
sob as águas? onde?
onde o fim das paredes desse poço
sem fim? onde
o permeável do outro corpo
se esconde se não há
sentimento que ultrapasse o tecido chumbo
invólucro de ansiedade e tensão?

necessidade de angústia, essa
que me leva para longe
dos humanos e ao mesmo tempo
retém o comum possível
                          da raça.
espécie essa de desígnio que invento
quando o destino é qualquer
                               caverna
absurda, cidade subterrânea, imaginária
feita de sedimento e sombra no futuro inabitável.

quantos animais amanhã em quantos
                                               galhos
fugirão ligeiros à minha presença?
quantos homens e mulheres
dirão adeus da janelinha da nave?
quantas partes estarão faltando
quando os olhos adormecidos
acordarem?