por que quero permitir à dor
que não existe
criar no vácuo tão concreta
morte? por que ensandecida
não completo a queda e me atiro
ao nada
do difícil trampolim?
rio assim patética
mordendo a tarde, amaldiçoando luas
e planetas, noites que ainda vêm.
ritos de desdém (uma frase amargosa
no canto da boca).
se ninguém compreende, ninguém
mesmo avariada continuo
martelando insensatez
descendo lentamente
— submarino —
às regiões sem luz e sem sentido.
onde o brilho dos sóis
sob as águas? onde?
onde o fim das paredes desse poço
sem fim? onde
o permeável do outro corpo
se esconde se não há
sentimento que ultrapasse o tecido chumbo
invólucro de ansiedade e tensão?
necessidade de angústia, essa
que me leva para longe
dos humanos e ao mesmo tempo
retém o comum possível
da raça.
espécie essa de desígnio que invento
quando o destino é qualquer
caverna
absurda, cidade subterrânea, imaginária
feita de sedimento e sombra no futuro inabitável.
quantos animais amanhã em quantos
galhos
fugirão ligeiros à minha presença?
quantos homens e mulheres
dirão adeus da janelinha da nave?
quantas partes estarão faltando
quando os olhos adormecidos
acordarem?

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