vai que no passar das horas
daqui algum tempo, no correr do século vinte e um
me escorra outra vez o suor dos amores trabalhosos,
a aflição dos quase-suicidas, a estupefação dos não-amados
podridão das esperanças, lodaçal insone...
vai que no fugir dos dígitos
daqui a alguns relógios, no gargalo de vidro
a areia meça os dias sem pena e me voltem
as tonturas, as sedes, a seca, o amargor da linguagem
a angústia dos que se esfolam, a indignação dos esquecidos
mormaço e cólicas, coração sem nome...
vai que...
então, por agora, me deixe dizer do que tenho:
tempo de sobra, sombra larga, um havana e espreguiçadeira
marolas e sol e sombra, afagos, nuvens de chuva
que parecem amparos e olhos em silêncio.
então, me perdoem, mas devo dizer enquanto posso
que os ponteiros são amigos, são exatos, correspondem à voz
e à chegada: já não espero em nervo.
não liguem se na madrugada já não tusso
pulmões dilacerados pela lágrima.
desculpem os excessos de confiança e o desprezo
pelo detalhe, pois que
se parece grande uma tarde de halitose,
óleo nos cabelos e espinhas, se nada é perfeito e ainda
assim o é, se ser é somente deitar ao lado e existir,
esquecer o mastigar e um gesto desamparado no andar
das carruagens, se todos os impedimentos se tornam passagens
livres como um abraço e a cama desaforada,
pois que
se desagrada um mundo inteiro a rabugice de tantos beijos
é porque provavelmente dura pouco esse enlevo – e aqui
toco a madeira com os nós dos dedos e olho para o azul
pedindo longevidade a esta trégua: que dure muito,
ainda é cedo, ainda é eterno, ainda é infinito.
mas vai que....
por isso escrevo essa ode à alegria
capaz de repugnar à pior literatura
e ensejar o nojo de todos os que desconhecem
os benefícios da fluoxetina e do amor correspondido,
o asco daqueles que embora desfrutem de ambos
ainda assim insistem no ditirambo em sua versão trágica.
por isso registro, porque talvez não caiba na flexão dos verbos:
passado, presente e o principalmente-do-futuro.
por isso aproveito o instante final da pétala
sobre a grama, quase estrume. por isso me engano
e por isso sei que não minto. agora.
mas para que não me sinta de todo afastada dos infelizes
para que não achem que dos que sofrem por amor eu faço pouco
(porque faço muito, muito mais do que achava que poderia)
traço essa escritura sem nenhum tempero
nem alho, nem sal, nem canela ou mostarda,
deixo no final desses versos mal-amanhados
apenas o gostinho de algum medo, filho legítimo
das maladies e da crença-freudiana-quase-
insuperável: não se pode ser feliz.
então...
vai que...
por isso...
vamos pedir piedade e ouvir o blues.

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