quarta-feira, 24 de março de 2021

mais nenhum


















O último amor
explodiu a manhã
com mãos nuas
extraiu cada estilhaço
de medo
do meu corpo
com asas úmidas
estendeu-se ao sol,
despudorado.

O amor último 
abriu as cortinas
tocou com antenas finas
um raio de luar
que insistia
e prometeu que à noite
devolveria,
com estrelas.

O último amor
voou pelas frestas
de dor e a todas dissolveu
na passagem
como se dissipam
brumas da aurora
ao calor do dia.

O amor último
espalhou belezas impensáveis
devolveu cores à pele seca
e fez o coração brilhar
a cada pulso
abriu um sorriso,
e cantei.

O último amor
– esse que não partirá –
alertou todas as veias
chamou meu coração
por seu nome
soprou cada grão
de areia
dos meus olhos.

O amor último
misturou a terra que sou
ao mar, fundiu as águas
o sal, o doce, é onda, rio
mergulho no insondável
mistério claro
que me navega
sem urgência.

O último amor último
– como o primeiro –
vestiu de fogo e vento
as brasas do tempo.
E não terminará.

:: joan miró | el comenzament del dia, 1968 ::

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

alumínio e vidro













Hora da tarde
em que me debruço
na janela
tão longe do chão.

Dois ventos sopram
um em uma direção
da rosa
outro ao contrário,
(forças do ar)
por isso as nuvens
mal deslizam
nesse encontro
sem embate
se trespassam, envolvem
dissolvem,
brancas e volumosas
umas, outras
apenas fiapos.

Há tantas cores
que não processo,
penso em certas pinturas
nas gentes capazes
– nunca entenderei como –
de transportar essa imagem
do cérebro.

Quase no cérebro
(dentro dos ouvidos)
tua música
vai e vem
como elas,
no céu.

E sou feliz
como elas,
de passagem.

:: a cloud study - sunset | john constable, 1821 ::

domingo, 21 de fevereiro de 2021

lá e ou cá



















não há nada na vida melhor que alucinar-
se
na plena consciência –

que a sombra em movimento
é o escuro
soprado pelo vento
e a pouca luz
atravessando
a cortina
não inspira

medo de ver-
te
em carne,
duplo corpo
que desconhece
fronteiras de terra
ou
mar, países

deitados, em sono, ou
junto a outro, ou
bêbado na varanda
rosto para o céu
nuvens, frio, estrelas
imaginando, ou
flutuando sobre
ruínas reais
da cidade de pedra
(lá, ou
aqui e lá ou)
mais velha que a história.

– que é tudo matéria, até o sonho, ou
não sei se acendi
a luz
para escrever, ou
estancar tanta
alucinação que escorria em mim.

:: le cirque bleu | marc chagall 1950 ::

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

sílex
















a jangada
inteira
é adaga
na coincidência
entre a água e a espuma,
o que se abre e se fecha
entre uma existência
que “é” apenas no desatingir
da retina fixa – olho
do interior –
e propalada em risco:
não é, afinal,
nem depois, nem antes
durante
ainda menos.

o caminho, mastigado
pelo
corpo
boca
caninos
molares do mar
impermanente – desde o porto
defendido por uma lâmina
de rocha –
se foi um caminho
já não lembra.

uma unha
espúria, uma linha
de saliva ainda por escorrer,
uma gota de pus
poderia ter dado ao caminho
um nome. 

o nome não me diria
algo,
nado,
respiro,
moro
mais longe
a cada dia
dos lugares estridentes
onde as correntes de perguntas
inúteis impedem que se console
a jovem que chora¹
porque se foi seu primeiro amor
ou que se compre duas maçãs
(elas retornam, pecado melhor)
uma para o menino, outra para ti². 

tenho aprendido
bem
devagar
que

há mais estrelas
na dança dos dedos
que acompanham o estender
dos braços (o peito aberto, desimportância
do coração errado)
como asas das notinhas
pequenas que pulam das cordas³,

há mais de vida
nas mansas borboletas de fogo
tão meninas
que abandonam a fogueira
e se desmancham no ar
“já”
são o céu4.

tenho aprendido
bem
devagar
que

há mais
entre o livro e a cadeira:
o retorno do que chamam
sentimento,
e se ele é estilete

corta a-
penas para
proteger.

:: ponta de flecha ::
:: lendo esporas ::

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¹ barco de papel
² doña maría
³ la novia tierra
 cartas de amor que se queman