O último amor
explodiu a manhã
com mãos nuas
extraiu cada estilhaço
de medo
do meu corpo
com asas úmidas
estendeu-se ao sol,
despudorado.
O amor último
abriu as cortinas
tocou com antenas finas
um raio de luar
que insistia
e prometeu que à noite
devolveria,
com estrelas.
O último amor
voou pelas frestas
de dor e a todas dissolveu
na passagem
como se dissipam
brumas da aurora
ao calor do dia.
O amor último
espalhou belezas impensáveis
devolveu cores à pele seca
e fez o coração brilhar
a cada pulso
abriu um sorriso,
e cantei.
O último amor
– esse que não partirá –
alertou todas as veias
chamou meu coração
por seu nome
soprou cada grão
de areia
dos meus olhos.
O amor último
misturou a terra que sou
ao mar, fundiu as águas
o sal, o doce, é onda, rio
mergulho no insondável
mistério claro
que me navega
sem urgência.
O último amor último
– como o primeiro –
vestiu de fogo e vento
as brasas do tempo.
E não terminará.



