sábado, 25 de setembro de 2010

dokonalost



















eu queria estar em algum canto onde tu pudesses também estar
então desvirtuei, o quanto outro pode desvirtuar, teu caminho
e tentei enviesar tua linha de fuga na direção da minha clausura
sem limites, e para entender como vivo em um espaço mínimo
e infinito é preciso, ao mesmo tempo, ser e deixar-se.

eu, hoje, já não sei se existes ou se quem aí está
se chama luzes, se apagadas, se azuis, se há motores
ainda que nos levem pelo campo das paisagens e das árvores
pois que a vida se assustou quando cheguei e ainda gritamos.

sem espelho, olhando o lodo, o ponto que queima entre as sobrancelhas
meu corpo se arqueia para suspirar, e gemo: o arrepio
trêmulo dos lábios não basta à boca, não soma ao ruído escancarado
do mundo. estática, me resumo e me expando, de tal forma
que, se pudesse, humano, me olhar diria: “exangue e alastrada”,
e de mim afastaria seu cheiro mortal e suportável.

mas não pode me olhar humano nenhum. porque o que sou
rasga a retina desacostumada de quem existe apenas para.
mais é preciso para me ver em fraldas, em sedas, em sonhos:
é necessário se drogar com água do mar e injetar o sumo
de um milhão de estrelas na veia.

justa na medida do álcool, livre como um plágio
canalha, bizarra ,antes que a meia-noite desça sobre o campanário
desacato meio mundo, e espero que depois da explosão
gigante que aguardo, todas as palavras morram
e renasçam, mais brilhantes que nunca, crispadas,
como nossos olhares nunca dantes navegados,
e anunciem um desejo rarefeito, não porque invisível,
intocável, mas porque seus destinos e resultados serão
tão tão tão tão extraordinários.

[se amas tanto tanto tanto o que é dito
se amas tanto tudo que é dito como eu amo
então tudo está perfeito e entendes o gesto
a letra e o leito que não nos foi dado porque seria
excesso, seria até errado ultrapassar a perfeição].

:: um cão andaluz | luis buñuel, 1929 ::