inventar o pássaro
que já existe
e voa raso, medonho
a se arrastar
à noite pelos pastos
ou cortando o vento
com seu rabo
ao
ao
espalhar um grito
escuro
há quem o diga
arauto
do passado
─ impossivelmente ─
e quem o negue
no presente
e no vindouro
um disse que matou
bacurau: esse mente.
ele é feito de desdém-
semente e não se machuca:
se ameaçam bacurau
bacurau respeita
a si, os seus e suas
muito mais que dá vez
à ameaça
não veste armadura
de seda são suas penas
seu olho vasculha
um voo em curva
lúdica e sangrenta
onde o tempo
derrapa: tão pequeno
pássaro-bacurau
estronda
tão forte é o barulho
que faz pensar que há armas
mas somente há garras
fininhas e seu bico curto
se for caçar um bacurau
vá na paz
que logo virá
porque para todos
os mortos
ela vem
sem rima
sem aviso
sem discurso.
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