sábado, 9 de maio de 2009

criatura















me criou como quem cria uma personagem
me deu nome próprio
ampliou o arco dos meus olhos
me fez perder o trem das onze.

me alimentou como quem alimenta a fome
me deu doses diárias de alegria
negociou as minhas fantasias
me fez jogar doze dores fora.

me sequestrou a alma, entrou na minha história
mudou o enredo do meu samba
atrapalhou o tiro de misericórdia
que eu projetei pra mim.

me fez sentir na pele da rainha
com os dentes partiu o aço das algemas
não me recusou beijos nem poemas
e desistiu de mim num dia qualquer
dessa semana.

eu e minha personagem
sentamos na grama
o céu sem nuvens parecia chuva
o sol sem pena parecia neve
e desisti de mim num mês qualquer
desse ano.

sem rima
os versos quebrados
são uma casa em ruínas.
sem drama
o corpo em febre espera
que a doença ceda
e que o desejo aprenda
a sair de cena.




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