estou prensada entre a luz e a escada
no corredor disparo as pernas
observo o número em cada porta:
e se eu bater na porta errada?
e se a sorte me atender?
estou prensada entre o erro e a memória
na praia enchuvarada calco o calcanhar
com força e a pegada desaparece na espuma:
e se a onda não me levar?
e se a morte me entender?
estou prensada entre a paranoia e o enfado
no alto do prédio observo o trânsito parado
e me sinto congestionada: e se houver resposta?
e se a canção tocar na hora certa?
estou prensada entre a repetição e a saudade
na estrada acelero os nervos de borracha
calculo quanto falta para eu não chegar:
e se eu for por um desvio nas nuvens?
e se eu andar para trás acho você?
estou prensada entre um zilhão de bytes e o destino
no teclado conto os dedos nas letras
encalacro meu veneno no anel de fumo:
e se eu não menti nunca?
e se for maior ainda do que digo?
mas veio um martelo e mudou tudo.
quebrou o tempo em mil pedaços de vidro.
e agora estou livre, nada entre mim e a parede.
já não estou achatada, esmagada ou espremida.
desimprensada sigo dormindo, pássaro no galho.
nada me ergue, nada me submerge
e se o encanto for verdade?
estou amada.

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