quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

festa da luz e sombra












[para BT.]
 
da tailândia a liverpool
num ápice
cruza os ares o búfalo
asas gigantescas
e voando com ele
vão as sombras das árvores
do vale.

quem o viu se libertar
da frágil amarra
pôde vê-lo pela pista
verdazulada: toneladas
de sonho a galope.

descoberto pelo homem
o bicho é dócil
como se ignorasse
a morte
na simetria afiadíssima
dos cornos.

criança levada que fugiu
dos cuidados de um tio
cujos olhos foram capazes
de achá-lo, domesticado.
o mimetismo do seu torso
paralisado se fundia
às plantas e ao tudo
invisível menos à retina
acostumada desse outro:
seu-tio-filho-ele-mesmo-ontem.

nessas paragens
o traçado ocidental
perde os sentidos
se desgoverna, des-
falece, é o leito de um rio
seco. o ordenamento
não é o mesmo aqui
uncle boonmee, nem
mesmo lembramos
que somos hoje.

não consideramos o espírito
das flores e escondemos
as dores
no mais distante possível.

ainda sei me transportar
invocando geografia
e amando nomes: laos, mekong,
duras, por mim, por você, velha
poesia de gullar.

boonmee. pequenas mariposas
e fantasmas, camaradas.

:: por você por mim | ferreira gullar, 1968 ::
:: sobre "o vice-cônsul" de marguerite duras ::

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