quarta-feira, 3 de junho de 2009

alteridade















o Outro é vago e vasto:
é como o vento que não dá
abraço, e deixa o desejo
fendendo o vazio
desenhando no ar bocas sem lábios.

o Outro é soluço e rastro:
um nome atado ao silêncio,
voz rasgada ao meio,
o que não se pode ter nunca
por inteiro, o lento passo
distendido que o abismo aceita.

o Outro é ponto fatal de espera,
o olho errante que não se completa
em imagem, estreita miragem
que o horizonte concede à sede.
o Outro, às vezes, é o oásis.

o Outro é a farpa que a carne entende,
a farsa (como o sono é farsa)
compreensível, onde a realidade
se recria: o percurso mágico
por onde o sonho escorre.

O Outro faz aparecer o imbecil
em nós, nos molha no ridículo
e nos absorve. encolhe nosso
grito e desaparece. apaga
a luz, nos devolve ao escuro
primeiro, escolhe nosso sexo
com o dedo aponta nosso erro.
nos transforma de tal jeito
que de repente somos o Outro, com medo.

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