sexta-feira, 12 de junho de 2009

trêmula















trêmula
os olhos doidos de incerteza
as mãos em fogo e água
não quero calma
me injeto nicotina e desejo
para esse vício novo
que me aumenta a fome.

estou grávida
dentro de mim sinto crescer
o que esperei a vida inteira
uma alameda, um bosque,
uma praia ensolarada,
montanha e barraca
acampar para sempre
lançar a âncora
ou como no romance
de garcía márquez
(meu preferido)
navegar o resto da vida
em tua cólera.

sou um peixe agora
porque não me afogo mais
respiro líquidos translúcidos
enquanto a lucidez escapole
e não ligo. não posso ligar.
sua voz
certamente
me desmancharia
certamente
não me atenderias.
e ainda é tão cedo
e já é tão tarde!...

trêmula
a saliva passa difícil
pela garganta apertada
de medo.
o corpo em pé de guerra
não aceita a explicação
que eu não tenho.

sou a dúvida caminhando
a esmo, substantiva,
perplexa, perdida.

em que lugar me darão
socorro? que horas terás
piedade? hoje é um dia
de gases e nuvens negras:
outra bomba atômica
sobe no pequeno espaço
que ainda sobra dentro de mim
onde não estás. estou preenchida e
sem abraço. dia
dos que namoram, dos que têm
enlace, dos que têm pernas
para entrelaçar. eu não tenho
nada. trêmula, faço uma oração
sem graça: com certeza
não posso te alcançar.

mas mesmo assim
a tristeza faz pausas
longas pausas
de dias inteiros salvos
pela esperança.
que essa, viva no ditado,
nunca morre.
eu tonta penso:
é hoje que tu escolherás
me dizer tudo.

como uma criança
crente em contos de fadas
amiga do faz de conta
a partir de então
terei no dedo quarto
da mão esquerda uma aliança,
desdenharei da realidade
esquecerei que não tem eu
no teu verso, e ao invés disso
declaro amor incondicional
para o resto da minha vida
e completo essa verborragia
com o que não poderia deixar
de dizer apesar de não haver
eco: eu te amo.

2 comentários:

  1. "Ama como ama o amor"
    "E atreve-se à loucura só para mostrar ao infinito as possibilidades do real"
    Sei bem como é isso...

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  2. fernando sempre vem a calhar.
    e como ele, só nisso, não sei bem como é nada.
    e estou com ele quando diz: entre o nada e a dor, a dor. ou seria o contrário? rs.

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