terça-feira, 9 de junho de 2009

calada

















eu rastejava e era areia o que havia sob a lua
um unicórnio me esperava solene.
havia maçãs caídas sob a única árvore da paisagem.
eu arfava, cotovelos roídos, joelhos em brasa
as mãos transformavam os grãos em prata
em minha cabeça um submarino afundava
são jorge largou sua lança que caiu a meio palmo
do meu ombro nu.

eu rastejava e era a ti que buscava no escuro
um pássaro vermelho pousou no meu cabelo
havia folhas mordidas sobre as formigas caminhando
eu respirava, o nariz comia teu perfume, coração em casa
as pernas cavavam sulcos na areia em brilho
em meu sexo um vestido suava
borboletas largavam lagartas e no céu piscava
o meu nome cru.

eu rastejava e era força o que havia em minha boca
um gato macio me olhava fixo
eu mastigava, dentes partindo a dor, seios úmidos
as cores atravessavam os olhos transtornados
os pincéis saltavam como polichinelos e grilos
em meus dedos anéis rangiam e soltavam óleo
flores caminhavam e brincavam de roda
no meu corpo mudo.

eu fustigava e era cada palavra um doce e grosso
sussurro, pequeno azedume de pingo de limão
no osso, e um polvo azul enorme abraçava
a única árvore do mundo. eu escrevia e escorria
pela areia ensopando tudo. eu queria parar
e os lençóis bordados carregavam núpcias,
imantavam beijos, cuspiam fotografias minúsculas
em meus sonhos carrosséis de fumaça eram teu pescoço
eu olhava hipnotizada a beleza sem dono
copiava o sono da próxima dormida
filmava as marcas que teus pés deixavam no mar
bebia mais um gole de teu sorriso e desvanecia.

eu fui acusada e condenada e feliz
sabia que a única droga que alimentava meu ali
meu aqui, meu estar, meu passado desaparecido
era um amor de mendiga que nascia quase morto
mas que nunca morreria.

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