sexta-feira, 15 de julho de 2022

inclusive


 


















Permito, inclusive, que penetres

o meu ser simbólico, imaginário

ao qual nem eu acesso ou tenho,

e a carne, inclusive.



Demito até meu nome:

que me chames é suficiente,

na demência do amor podes, inclusive,

não chamares

que eu vou.



Repito mantras que não aprendi,

cruzo dedos trêmulos,

persigno-me falsamente

credos rezo habitando fés

que moram longe, inclusive

inexistentes.



Invito palavras

como quem chama os exércitos

para batalha santa e negra

e atendem orixás de seda

e vinho. Bebo chás de ervas

desconhecidas sem temer

que, inclusive, me matem.



Dramatizo as horas,

ouço canções de exílio,

sonho esse lugar onde há grilos

e luzes não identificadas

passeiam no horizonte escuro

onde, inclusive, não me encontro.



Mastigo as saudades,

chiclete que ponho na geladeira

junto com açúcar, inclusive,

e masco os círculos de fumaça

que desenho, redondos.



Aspiro o frio de julho

feito quem aspira um beijo,

inclusive no agosto próximo

e em dezembro, porque todo ano

o que sinto será inconclusivo,

contínuo e fluido devirá

como por enquanto.

:: l'arbre de paradis | séraphine louis, 1928-30 ::


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