domingo, 12 de junho de 2022
scio
eu só sei falar de amor
de um amor só ou de
dois,
o amor ao mundo,
o amor segundo,
primo
terceiro, escarpas, degraus
amor no
quarto, sétimo
inferno dantesco.
amor de irmã,
irmãos,
printados,
entalhados,
desavisados, cegos,
perseguidos, pacíficos
e plenos, realizados,
sem sangue, cortes,
não imolados.
às vezes, amor
semelhante
ao que se sente
pelas gentes,
amor que verte pelo
humano,
escorre um palmo na
calçada,
molha a rua inteira,
faz escorregar
da sela, saltar do
cavalo.
não porque seja
escolha,
mas porque o amor
verte
e todo amor é
quente
e transborda. dizem
que a
trai, transgride,
constrange,
amor de anjos
sexuais.
atrás da porta, na
varanda,
nos quintais, na
cena dura
das centrais
congestionadas,
no cais antigo das
desgraças,
depois das horas
mortas,
amor de madrugada
de lua e cobertores,
amores descobertos
e recobertos por
descaso,
enfiados no casulo
fechado toda a vida
borboleta-nunca.
o amor passa
pelas ruas
de mãos dadas
com a vida nua
de braços com a
filosofia
magra, mora nos
cortiços,
corre pelas estradas
louco e desgarrado,
o amor engolindo a nuca
tangenciando o passado
descascando o futuro,
remendo costurado
no escuro
do avesso.
amor assentado no
chão
de gelo, estagnado
no pântano,
amor ousado, arado
rasgando
a terra infértil,
amor que insiste
na colheita do que
não foi plantado
em pernas
entrelaçadas
nas redes, amores
que calçam
torres que ameaçam
desabar.
o amor romântico
atrelado
às vestes cheias de
babados
amor safado,
cafajeste:
não há amor que
preste
e todo amor é
válido:
nos bordéis, nos
cadafalsos
nos becos, nos
presídios
nos malditos fados,
amores destinados à
dor
nos túmulos, nas
ribeiras,
amor de estribo,
ferindo ilhargas,
amor que é um ilha
d’água
cercado de terra por
todo lado.
todo amor…
eu só sei falar de
amor:
dos escritos nos
muros
e apagados, dos
amores
rasos de um dia,
dos amores castos
inúteis e calados,
do amor sem gozo
do amor só gozo
e sem afagos, dos
usados,
em grego, em braile, em urdu,
latim, armênio, francês, espanhol,
tosco, rouco, pouco, exagerado,
do amor antropológico cozido
encruado, estrutural, desconstruído,
revezado.
amores não editados,
sacralizados,
relicários
invadidos, colados
com saliva e vinho,
destruídos por uma
fala.
mortais e para
sempre
eu só sei falar de
amor.
:: love, and you will be happy | gauguin, 1898 ::
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