sábado, 4 de junho de 2022

clarícima

 

















Eu,
o cachorro que pressente
a mudança
e logo se perde
antes que chegue
o caminhão
antes de cair dele,

morrendo de vésperas
mastigando vespas
chupando marimbondos,

vivendo e morrendo
de sede antecipada,
de fome em meio
ao prato cheio,

confusa como um sábio
porque são, sim, eles
os mais confusos.

Pensar, saber, sentir.
Onde está Morgana?
Quem partiu com o mistério?
Quem fechou o celeiro?
Por que o oleiro já não colhe o barro?

O vaso com a planta
responde, calado: “sim”.
E cresce o verde áspero do cacto.
O vento, não,
ainda no mistério ausente,
esse permanece e fala:
resposta igual e suficiente.

Que se dane o mais.
Que se faça o menos.
Que a febre suba.
Que a dor fomente.

Pois ninguém sabe,
como disse a moça
em fala clarícima
se o que sustenta o é
difícil inteiro é o defeito.

:: retrato de Clarice feito por Rui Ribeiro Couto, no caderno da escritora ::

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