sábado, 23 de abril de 2016

ouço o tapete















acompanho seu silêncio
com meu silêncio
e não basta

toco o limite plástico
da distância
e minha mão se perde
no portal das mágicas

é um jogo de perguntas 
realizado
na sala atapetada
com cascas de ovos

reality show onde nós
somos quatro 
e nos vemos
enquanto jogamos
de fato

pequena armadilha
sutil campeonato
e vencer talvez seja
um final impossível

o que importa é o lançado
o que se desdobra

a promessa de novos
e possíveis prazeres
seu riso meu riso
os raros deslizes
palavras que indicam
avanços e recuos

a curiosidade que incide
sobre os pontos escuros:
suspense que arde
nas pontas dos dedos
nas mãos do futuro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

mais um ano

















estás tão longe de ser o que dizes
que não te alcanças.
nada te alcança.
e vives nessa poça de resíduos de vazio.
o que sobrou, irreconhecível
não quer espelhos, não olha para o céu
não se atreve a gritar.
as suaves mentiras, diárias
os sorrisos maleáveis
tudo nessa viagem solitária
é fumo e desperdício,
arquitetura de nuvens
que um sopro atravessa
para encontrar, novamente, o éter.
e no lugar transplantado, onde havia pensamentos
e no espaço transplantado, onde habitou o coração
(que não conheceu a sinceridade)
moram, colados no chão, sob os pés,
(e não mais no corpo erguido)
transplantados: espetáculo de artifícios
que explodem.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

memória















aMor és uma variedade suave e fechada, e tudo de Ti em Mim e Mim é uma involução suave e definida em Ti., não, em Mim. Não. Em. Tu e Mim, dis Juntos, somos estranha des_união de dois espaços. Sim, tens razão, te projeto e encontro algo de invariante. Mas nem sempre somos um par. Nem sempre ao mesmo tempo positivos. É complexo. a + bi + cj + dk, em que a e c são reais. b também. d também. d é mais real. F já faz parte da equação. Cada letra em seu lugar. E ele e M? M já está. É peça principal. I e J são uma matriz infinita. O próprio universo. Mas não podemos nos multiplicar comutativamente. Não há porque ir e vir. Tu és Mim elevada a n. Nem saberia dizer, não poderia. O contexto sempre dá margem à confusão. Há fatos intrigantes no capítulo zero e nossa história é exatamente assim como diz o dicionário: uma molécula aquiral, ou de face de uma molécula insaturada, que não leva ao surgimento de um enantiômero, seja por substituição, seja por adição. É, eu não entendo. Nossa música é Floyd, mas não é Pink. Minha fibra se estica e em alguns momentos não passo de coisa fibrada. Sem conjunção. Apenas fibras que ainda podem andar, correr, nadar, comer, rir, dormir, viajar. Amar. O dicionário só vai até borda. Não há bordismo. Difeo é um prefixo da cidade de Atlanta que você resgatou. Bordar já não significa trançar fios, não diz respeito a pano ou bastidor, ponto de +, renda, labirinto. Bordar | bordejar | é tocar de olhos fechados o abismo. E enquanto isso as transformações unívocas riem de mim, as transformações dos grupos sobre outros riem de mim, e enquanto isso as operações são preservadas: operações De descartes, operações de desastre, operações de cura.

:: andrews ostrovsky + george redhawk ::
»  ostrovsky
«  redhawk

ps_1. redwahwk is legally blind
ps_2. imagens forte

domingo, 31 de maio de 2015

redução



















acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo

debaixo de você há um
debaixo desse um, o chão
o sangue, apenas pancadas
em volta
a sirene insone
as grades, os maus tratos
o instituto médico legal
a vala comum
e nenhum nome

quase sempre a mesma
dor do irmão, da mãe ou não
quase sempre a mesma cor
o invisível coração
que, quem sabe o que passou?

recolha-se ao seu torpor
porque clichê é chato

quem sabe o que se passou?
se horror, se frio e fome
se ria a gosto quando atirava
se tinha medo, se tinha falhas
se falava grosso ou empostava
quem se importa a ponto de
calado, rente ao asfalto
deitar-se de braço dado
com o corpo, grande,
pequeno, de que tamanho?
menor?
.
..
...

acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo.

domingo, 21 de dezembro de 2014

replicantes



















não, não podemos.
nossos corpos se destruiriam
porque parto 
ao
teu encontro
e partes 
ao 
meu encontro
com a velocidade e a fúria,
com a predestinação de androides.

não, não devemos.
meu afeto, teu afeto
são duas forças cruas
e sangram e ardem
como se tivessem carne.

sábado, 8 de novembro de 2014

roubando barthes














longa espera já começada
em pequenos sonhos de quem
dorme e acorda, dorme
e acorda, sobressaltozinhos.

no sonho se antecipava a espera:
signo do que ama e eternamente olha
para a porta, torce
o pescoço a cada ranger de carro,
se esforça para ouvir sapatos
subindo
e descendo
escadas, e se enrosca
nos fios de telefone procurando
sinais elétricos.

longa espera já começada
no olhar que não descansa,
no cérebro sobrecarregado
funcionando ininterruptamente:
erres fazendo barulho rrrrrrrrrrrrr

é quase uma trovoada, a espera: nuvens
chumbando o céu, se juntando pesadas
para a chuva. queria esperar
desmaiada e nua, no meio
de uma lufada
de vento.
 
"Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero."
O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar
aquele que não espera; tento me ocupar com outra
coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre
perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso,
pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal
do amante nada mais é que: sou aquele que espera.

[...]

Um mandarim estava enamorado de uma cortesã.
"Serei tua, diz ela, quando passares cem noites
me esperando sentando num tamborete, em
meu jardim, sob minha janela." Mas, na
nonagésima nona noite, o mandarim se levantou,
pôs seu tamborete debaixo do braço e partiu.
 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ressurreição














dei por morto meu desejo.
escrevi, sem medo, na lápide:
“nirvana”, e fiz tocar a banda.

anos serenos e vazios
dormiram em minha cama.

solto, desarmado
o coração sem vigilância
aceitou seus olhos
onde não havia ou há
intenção nem glória.

agora, fantasmagórico
o desejo dorme comigo
e acorda.