
A curvatura do vulcão,
a redondeza da esfera,
a bola de gude, a roda
arada da bicicleta,
a base ampla do farol,
as bordas da bacia, a concha,
a tampa frouxa de um bueiro,
as argolas do mistério,
anéis de fumo sem cinza,
moedas em cada esquina,
compasso que mira o círculo,
as almas e o esquisito
das auras brilhando no escuro
os olhos da onça, os furos
por onde entraram as balas,
a Terra, a Lua que desponta
todo e qualquer planeta,
a cor que rodeia o seio,
a forma do bastidor,
o caroço do abacate,
os zeros, os ós, o ninho,
o laço no ar buscando
o cavalo, o vinil antigo,
a luz quando encontra
o espaço, o tempo
que se contorce
buscando de volta
o começo, a boca aberta
do sino, os aros dos óculos - finos -,
o sol por si só aceso,
o centro do girassol,
a forma do desatino,
o jeito do amor no peito,
o oráculo de cristal,
o prato de ouro, a cama
feita do motel, os lábios
abertos em grito,
a sombra do carrossel,
a cobra enrolada, o giro
que descreve no ar o véu,
o som que solta o pandeiro,
a fórmula do cansaço,
a vida encontrando a morte:
cada qual no seu quadrado.
:: le premier disque | robert delaunay, 1912-13 ::