tomaste a cabeceira de assalto
se perto dela durmo
nela tu moras
como não sei muito chorar
mas dizem ser preciso
no antessono
abro-te como bíblia
oráculo corto palavras
romã regrido
inverto-me
vértebras estralam
ouço sons de flauta
apesar de tudo
sempre tem vindo
nenhuma lágrima
porque não sei chorar
pouco nada
mas vejo
um rio de gotinhas
nos versos auschwitz
pois muitos teus vêm de lá
ou das cercanias
e anda o relógio
da estação treblinka
o tempo das 3 horas
que não se sabe
madrugada ou tarde
se move por fim
e o espéculo retrato das dores
de doris e todas e todos
brilha doido doído
moderno pós e antigo
como as guerras
diodo emissor de luz
sigla LED em inglês
light-emitting diode.
sábado, 30 de julho de 2022
oceânide
quinta-feira, 28 de julho de 2022
redondo
A curvatura do vulcão,
a redondeza da esfera,
a bola de gude, a roda
arada da bicicleta,
a base ampla do farol,
as bordas da bacia, a concha,
a tampa frouxa de um bueiro,
as argolas do mistério,
anéis de fumo sem cinza,
moedas em cada esquina,
compasso que mira o círculo,
as almas e o esquisito
das auras brilhando no escuro
os olhos da onça, os furos
por onde entraram as balas,
a Terra, a Lua que desponta
todo e qualquer planeta,
a cor que rodeia o seio,
a forma do bastidor,
o caroço do abacate,
os zeros, os ós, o ninho,
o laço no ar buscando
o cavalo, o vinil antigo,
a luz quando encontra
o espaço, o tempo
que se contorce
buscando de volta
o começo, a boca aberta
do sino, os aros dos óculos - finos -,
o sol por si só aceso,
o centro do girassol,
a forma do desatino,
o jeito do amor no peito,
o oráculo de cristal,
o prato de ouro, a cama
feita do motel, os lábios
abertos em grito,
a sombra do carrossel,
a cobra enrolada, o giro
que descreve no ar o véu,
o som que solta o pandeiro,
a fórmula do cansaço,
a vida encontrando a morte:
cada qual no seu quadrado.
segunda-feira, 25 de julho de 2022
tremendo
Levei o dia a tremer de amor
como se algo
(não faço ideia do quê)
estivesse acontecendo
(não imagino onde).
Sim, o amor é invenção
dos individualistas burgueses,
sentimento liberal,
ilusão que não dura seis meses,
construções do romantismo,
de verter até o suicídio,
de morar em gueto
infestado de vícios
e escuridão. Sofrimento
que não vem de fome
de comida, coração de quem tem
onde morar e é está bem servido,
servida. Amor que, Carlos, filho nosso,
é assim mesmo, claro e enigmático.
O dia me levou assim:
estômago na garganta
borboletas de febre na fronte,
agitação de bandeira de renda,
suores inexplicáveis:
talvez não seja amor,
seja vírus: amor de pandemia.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
desordem
O que me ata
me desamarra
por onde me espalho
me encolho?
Que terra me bate
nos olhos, o que me cega
me acalma, me trafega
por que subo o morro?
Por que desço
me encosto na pedra
escorrego, tropeço
que queda me assusta?
Arremesso-me até
desarrumar a boca
os braços tensos
as mãos postas
para o mergulho?
Mistura de óleo
e água, amoródio
que as criaturas
devotam umas
as outras
também.
sexta-feira, 15 de julho de 2022
inclusive
Permito, inclusive, que penetres
o meu ser simbólico, imaginário
ao qual nem eu acesso ou tenho,
e a carne, inclusive.
Demito até meu nome:
que me chames é suficiente,
na demência do amor podes, inclusive,
não chamares
que eu vou.
Repito mantras que não aprendi,
cruzo dedos trêmulos,
persigno-me falsamente
credos rezo habitando fés
que moram longe, inclusive
inexistentes.
Invito palavras
como quem chama os exércitos
para batalha santa e negra
e atendem orixás de seda
e vinho. Bebo chás de ervas
desconhecidas sem temer
que, inclusive, me matem.
Dramatizo as horas,
ouço canções de exílio,
sonho esse lugar onde há grilos
e luzes não identificadas
passeiam no horizonte escuro
onde, inclusive, não me encontro.
Mastigo as saudades,
chiclete que ponho na geladeira
junto com açúcar, inclusive,
e masco os círculos de fumaça
que desenho, redondos.
Aspiro o frio de julho
feito quem aspira um beijo,
inclusive no agosto próximo
e em dezembro, porque todo ano
o que sinto será inconclusivo,
contínuo e fluido devirá
como por enquanto.
terça-feira, 5 de julho de 2022
across the universe
sem linguagem ao alcance
enquanto acontece
vaga pelos corações um sangue
onipresente e alegre, quente
como um meio-dia de verão
em praia do nordeste.
mais além do compreensível
explode o tempo, quebra tudo
amansa a noite e o dia
manipula as regras da obediência
arranca o normal da vida à unha
reconhece o pulsar e assombra.
sem pretensão ou alvo
enquanto desaparece
voa nas asas incandescentes,
oníricas, do desejo
carrega o universo indecente,
errante, impossível,
mel que nenhuma abelha urdiu
erode a pedra, é um fio
amarração invisível de prata
mar que invade as pernas
alcança as veias e os olhos
remove a dor e as sombras.
sem querer vê a estrela que cai
e a apanha na garganta,
vela que se estufa e não há vento.
onde nada estava certo
começa um rito de erros sucessivos,
espanta o mal com largo riso.
mergulhando em lava e precipício
entende, não entende, aceita
amargo o gosto do licor
maravilha-se e se expande
até adormecer o medo
respira à sombra e acorda.
inacreditável.
incontrolável.
incontornável.
inapreensível.
quinta-feira, 30 de junho de 2022
verso fulo
.jpg!Large.jpg)
Para quem não sabe nada
não tem de mim geografia
não ouviu a minha toda história
assim como eu até duvida
pensa que eu só quero a glória
mas sempre lembro é do peninha
e do morcego vermelho
infância às vezes disneysíaca
sem ponto, vírgulas, exclamações
nas chuvas o canal enchia
e a boia era as entranhas
de um velho pneu
sou gibi, sou fada, sou padrinho
sou o balão com a fala acima
na cabeça trago pouca rima
e tenho um pé quebrado
na garganta, um sobrado
feito de esperanças
um galpão de gorda estripulia
galinheiro de maçãs e milho
milharal de migalhas, farinha
de mandioca, tapioca
carne de sol que seca à lua
banho de cuia e pesadelos
sou mata cheia de espinhos
sedosos como algum cabelo
sou crespa como pão de trigo
que no fogão a gás se queima
mas só se o tempo se extermina
facão e lima, limoeiro
sou quase uma caipirinha
a matutar com a espinha ereta
os porquês do coração tranquilo.
Para quem não sabe de nada
assim como eu também não sei
meus parabéns, como admiro
a falta de repente habita
a falta é coisa infinita
a falta é como tudo e mais
no divã as meias sempre aflitas
miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga
aquilo que me alumia
o candeeiro de meuzói
as praças lá de caicó
e de uma lagoa seca
puxinanã e mato dentro
a soledad de um passeio
navio à velas apagadas
veleiro de moral suspeita
subo rápida no barco alheio
pirata sem deixar a ilha
capitã de minhas muitas vidas
vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta
navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade
sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha
e durmo ouvindo uma fita.




.jpg)
