sábado, 30 de julho de 2022

oceânide















tomaste a cabeceira de assalto

se perto dela durmo

nela tu moras



como não sei muito chorar

mas dizem ser preciso

no antessono

abro-te como bíblia

oráculo corto palavras

romã regrido

inverto-me

vértebras estralam

ouço sons de flauta



apesar de tudo

sempre tem vindo

nenhuma lágrima

porque não sei chorar

pouco nada

mas vejo

um rio de gotinhas

nos versos auschwitz

pois muitos teus vêm de lá

ou das cercanias



e anda o relógio

da estação treblinka

o tempo das 3 horas

que não se sabe



madrugada ou tarde



se move por fim

e o espéculo retrato das dores

de doris e todas e todos

brilha doido doído

moderno pós e antigo

como as guerras

diodo emissor de luz

sigla LED em inglês

light-emitting diode.

:: rain, steam and speed | william turner, 1844 ::



quinta-feira, 28 de julho de 2022

redondo























A curvatura do vulcão,

a redondeza da esfera,

a bola de gude, a roda

arada da bicicleta,

a base ampla do farol,

as bordas da bacia, a concha,

a tampa frouxa de um bueiro,

as argolas do mistério,

anéis de fumo sem cinza,

moedas em cada esquina,

compasso que mira o círculo,

as almas e o esquisito

das auras brilhando no escuro

os olhos da onça, os furos

por onde entraram as balas,

a Terra, a Lua que desponta

todo e qualquer planeta,

a cor que rodeia o seio,

a forma do bastidor,

o caroço do abacate,

os zeros, os ós, o ninho,

o laço no ar buscando

o cavalo, o vinil antigo,

a luz quando encontra

o espaço, o tempo

que se contorce

buscando de volta

o começo, a boca aberta

do sino, os aros dos óculos - finos -,

o sol por si só aceso,

o centro do girassol,

a forma do desatino,

o jeito do amor no peito,

o oráculo de cristal,

o prato de ouro, a cama

feita do motel, os lábios

abertos em grito,

a sombra do carrossel,

a cobra enrolada, o giro

que descreve no ar o véu,

o som que solta o pandeiro,

a fórmula do cansaço,

a vida encontrando a morte:

cada qual no seu quadrado.

:: le premier disque | robert delaunay, 1912-13 ::

segunda-feira, 25 de julho de 2022

tremendo





















Levei o dia a tremer de amor

como se algo

(não faço ideia do quê)

estivesse acontecendo

(não imagino onde).



Sim, o amor é invenção

dos individualistas burgueses,

sentimento liberal,

ilusão que não dura seis meses,

construções do romantismo,

de verter até o suicídio,

de morar em gueto

infestado de vícios

e escuridão. Sofrimento

que não vem de fome

de comida, coração de quem tem

onde morar e é está bem servido,

servida. Amor que, Carlos, filho nosso,

é assim mesmo, claro e enigmático.



O dia me levou assim:

estômago na garganta

borboletas de febre na fronte,

agitação de bandeira de renda,

suores inexplicáveis:

talvez não seja amor,

seja vírus: amor de pandemia.

:: birth of virus | robert steven connett, 2020 ::

quinta-feira, 21 de julho de 2022

desordem


















O que me ata

me desamarra

por onde me espalho

me encolho?



Que terra me bate

nos olhos, o que me cega

me acalma, me trafega

por que subo o morro?



Por que desço

me encosto na pedra

escorrego, tropeço

que queda me assusta?



Arremesso-me até

desarrumar a boca

os braços tensos

as mãos postas

para o mergulho?



Mistura de óleo

e água, amoródio

que as criaturas

devotam umas

as outras

também.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

inclusive


 


















Permito, inclusive, que penetres

o meu ser simbólico, imaginário

ao qual nem eu acesso ou tenho,

e a carne, inclusive.



Demito até meu nome:

que me chames é suficiente,

na demência do amor podes, inclusive,

não chamares

que eu vou.



Repito mantras que não aprendi,

cruzo dedos trêmulos,

persigno-me falsamente

credos rezo habitando fés

que moram longe, inclusive

inexistentes.



Invito palavras

como quem chama os exércitos

para batalha santa e negra

e atendem orixás de seda

e vinho. Bebo chás de ervas

desconhecidas sem temer

que, inclusive, me matem.



Dramatizo as horas,

ouço canções de exílio,

sonho esse lugar onde há grilos

e luzes não identificadas

passeiam no horizonte escuro

onde, inclusive, não me encontro.



Mastigo as saudades,

chiclete que ponho na geladeira

junto com açúcar, inclusive,

e masco os círculos de fumaça

que desenho, redondos.



Aspiro o frio de julho

feito quem aspira um beijo,

inclusive no agosto próximo

e em dezembro, porque todo ano

o que sinto será inconclusivo,

contínuo e fluido devirá

como por enquanto.

:: l'arbre de paradis | séraphine louis, 1928-30 ::


terça-feira, 5 de julho de 2022

across the universe

















sem linguagem ao alcance

enquanto acontece

vaga pelos corações um sangue

onipresente e alegre, quente

como um meio-dia de verão

em praia do nordeste.

mais além do compreensível

explode o tempo, quebra tudo

amansa a noite e o dia

manipula as regras da obediência

arranca o normal da vida à unha

reconhece o pulsar e assombra.



sem pretensão ou alvo

enquanto desaparece

voa nas asas incandescentes,

oníricas, do desejo

carrega o universo indecente,

errante, impossível,

mel que nenhuma abelha urdiu

erode a pedra, é um fio

amarração invisível de prata

mar que invade as pernas

alcança as veias e os olhos

remove a dor e as sombras.



sem querer vê a estrela que cai

e a apanha na garganta,

vela que se estufa e não há vento.

onde nada estava certo

começa um rito de erros sucessivos,

espanta o mal com largo riso.

mergulhando em lava e precipício

entende, não entende, aceita

amargo o gosto do licor

maravilha-se e se expande

até adormecer o medo

respira à sombra e acorda.


inacreditável.
incontrolável.

incontornável.
inapreensível.

:: la corde sensible | magritte, 1960 ::


quinta-feira, 30 de junho de 2022

verso fulo





















Para quem não sabe nada

não tem de mim geografia

não ouviu a minha toda história

assim como eu até duvida

pensa que eu só quero a glória

mas sempre lembro é do peninha

e do morcego vermelho

infância às vezes disneysíaca

sem ponto, vírgulas, exclamações
dois pontos

nas chuvas o canal enchia

e a boia era as entranhas

de um velho pneu



sou gibi, sou fada, sou padrinho

sou o balão com a fala acima

na cabeça trago pouca rima

e tenho um pé quebrado

na garganta, um sobrado

feito de esperanças

um galpão de gorda estripulia

galinheiro de maçãs e milho

milharal de migalhas, farinha

de mandioca, tapioca

carne de sol que seca à lua

banho de cuia e pesadelos

sou mata cheia de espinhos

sedosos como algum cabelo

sou crespa como pão de trigo

que no fogão a gás se queima

mas só se o tempo se extermina

facão e lima, limoeiro

sou quase uma caipirinha

a matutar com a espinha ereta

os porquês do coração tranquilo.



Para quem não sabe de nada

assim como eu também não sei

meus parabéns, como admiro

a falta de repente habita

a falta é coisa infinita

a falta é como tudo e mais



no divã as meias sempre aflitas

miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga

aquilo que me alumia

o candeeiro de meuzói

as praças lá de caicó

e de uma lagoa seca

puxinanã e mato dentro

a soledad de um passeio

navio à velas apagadas

veleiro de moral suspeita

subo rápida no barco alheio

pirata sem deixar a ilha

capitã de minhas muitas vidas

vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta

navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade

sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha

e durmo ouvindo uma fita. 

:: fogo | giuseppe arcimboldo, 1566 ::