quinta-feira, 28 de julho de 2022

redondo























A curvatura do vulcão,

a redondeza da esfera,

a bola de gude, a roda

arada da bicicleta,

a base ampla do farol,

as bordas da bacia, a concha,

a tampa frouxa de um bueiro,

as argolas do mistério,

anéis de fumo sem cinza,

moedas em cada esquina,

compasso que mira o círculo,

as almas e o esquisito

das auras brilhando no escuro

os olhos da onça, os furos

por onde entraram as balas,

a Terra, a Lua que desponta

todo e qualquer planeta,

a cor que rodeia o seio,

a forma do bastidor,

o caroço do abacate,

os zeros, os ós, o ninho,

o laço no ar buscando

o cavalo, o vinil antigo,

a luz quando encontra

o espaço, o tempo

que se contorce

buscando de volta

o começo, a boca aberta

do sino, os aros dos óculos - finos -,

o sol por si só aceso,

o centro do girassol,

a forma do desatino,

o jeito do amor no peito,

o oráculo de cristal,

o prato de ouro, a cama

feita do motel, os lábios

abertos em grito,

a sombra do carrossel,

a cobra enrolada, o giro

que descreve no ar o véu,

o som que solta o pandeiro,

a fórmula do cansaço,

a vida encontrando a morte:

cada qual no seu quadrado.

:: le premier disque | robert delaunay, 1912-13 ::

segunda-feira, 25 de julho de 2022

tremendo





















Levei o dia a tremer de amor

como se algo

(não faço ideia do quê)

estivesse acontecendo

(não imagino onde).



Sim, o amor é invenção

dos individualistas burgueses,

sentimento liberal,

ilusão que não dura seis meses,

construções do romantismo,

de verter até o suicídio,

de morar em gueto

infestado de vícios

e escuridão. Sofrimento

que não vem de fome

de comida, coração de quem tem

onde morar e é está bem servido,

servida. Amor que, Carlos, filho nosso,

é assim mesmo, claro e enigmático.



O dia me levou assim:

estômago na garganta

borboletas de febre na fronte,

agitação de bandeira de renda,

suores inexplicáveis:

talvez não seja amor,

seja vírus: amor de pandemia.

:: birth of virus | robert steven connett, 2020 ::

quinta-feira, 21 de julho de 2022

desordem


















O que me ata

me desamarra

por onde me espalho

me encolho?



Que terra me bate

nos olhos, o que me cega

me acalma, me trafega

por que subo o morro?



Por que desço

me encosto na pedra

escorrego, tropeço

que queda me assusta?



Arremesso-me até

desarrumar a boca

os braços tensos

as mãos postas

para o mergulho?



Mistura de óleo

e água, amoródio

que as criaturas

devotam umas

as outras

também.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

inclusive


 


















Permito, inclusive, que penetres

o meu ser simbólico, imaginário

ao qual nem eu acesso ou tenho,

e a carne, inclusive.



Demito até meu nome:

que me chames é suficiente,

na demência do amor podes, inclusive,

não chamares

que eu vou.



Repito mantras que não aprendi,

cruzo dedos trêmulos,

persigno-me falsamente

credos rezo habitando fés

que moram longe, inclusive

inexistentes.



Invito palavras

como quem chama os exércitos

para batalha santa e negra

e atendem orixás de seda

e vinho. Bebo chás de ervas

desconhecidas sem temer

que, inclusive, me matem.



Dramatizo as horas,

ouço canções de exílio,

sonho esse lugar onde há grilos

e luzes não identificadas

passeiam no horizonte escuro

onde, inclusive, não me encontro.



Mastigo as saudades,

chiclete que ponho na geladeira

junto com açúcar, inclusive,

e masco os círculos de fumaça

que desenho, redondos.



Aspiro o frio de julho

feito quem aspira um beijo,

inclusive no agosto próximo

e em dezembro, porque todo ano

o que sinto será inconclusivo,

contínuo e fluido devirá

como por enquanto.

:: l'arbre de paradis | séraphine louis, 1928-30 ::


terça-feira, 5 de julho de 2022

across the universe

















sem linguagem ao alcance

enquanto acontece

vaga pelos corações um sangue

onipresente e alegre, quente

como um meio-dia de verão

em praia do nordeste.

mais além do compreensível

explode o tempo, quebra tudo

amansa a noite e o dia

manipula as regras da obediência

arranca o normal da vida à unha

reconhece o pulsar e assombra.



sem pretensão ou alvo

enquanto desaparece

voa nas asas incandescentes,

oníricas, do desejo

carrega o universo indecente,

errante, impossível,

mel que nenhuma abelha urdiu

erode a pedra, é um fio

amarração invisível de prata

mar que invade as pernas

alcança as veias e os olhos

remove a dor e as sombras.



sem querer vê a estrela que cai

e a apanha na garganta,

vela que se estufa e não há vento.

onde nada estava certo

começa um rito de erros sucessivos,

espanta o mal com largo riso.

mergulhando em lava e precipício

entende, não entende, aceita

amargo o gosto do licor

maravilha-se e se expande

até adormecer o medo

respira à sombra e acorda.


inacreditável.
incontrolável.

incontornável.
inapreensível.

:: la corde sensible | magritte, 1960 ::


quinta-feira, 30 de junho de 2022

verso fulo





















Para quem não sabe nada

não tem de mim geografia

não ouviu a minha toda história

assim como eu até duvida

pensa que eu só quero a glória

mas sempre lembro é do peninha

e do morcego vermelho

infância às vezes disneysíaca

sem ponto, vírgulas, exclamações
dois pontos

nas chuvas o canal enchia

e a boia era as entranhas

de um velho pneu



sou gibi, sou fada, sou padrinho

sou o balão com a fala acima

na cabeça trago pouca rima

e tenho um pé quebrado

na garganta, um sobrado

feito de esperanças

um galpão de gorda estripulia

galinheiro de maçãs e milho

milharal de migalhas, farinha

de mandioca, tapioca

carne de sol que seca à lua

banho de cuia e pesadelos

sou mata cheia de espinhos

sedosos como algum cabelo

sou crespa como pão de trigo

que no fogão a gás se queima

mas só se o tempo se extermina

facão e lima, limoeiro

sou quase uma caipirinha

a matutar com a espinha ereta

os porquês do coração tranquilo.



Para quem não sabe de nada

assim como eu também não sei

meus parabéns, como admiro

a falta de repente habita

a falta é coisa infinita

a falta é como tudo e mais



no divã as meias sempre aflitas

miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga

aquilo que me alumia

o candeeiro de meuzói

as praças lá de caicó

e de uma lagoa seca

puxinanã e mato dentro

a soledad de um passeio

navio à velas apagadas

veleiro de moral suspeita

subo rápida no barco alheio

pirata sem deixar a ilha

capitã de minhas muitas vidas

vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta

navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade

sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha

e durmo ouvindo uma fita. 

:: fogo | giuseppe arcimboldo, 1566 ::

domingo, 26 de junho de 2022

antes do brinde















Meu coração quer te expulsar,
eu toda sofro os efeitos enjoativos
e bilaterais: nos pulmões, nos braços
nos olhos, nas mãos, nos seios, nos pés.

A cabeça não acompanha o jorro,
não se rende, te quer até o fim.
E os ouvidos, de fato, não aceitam
tua partida, assim, depressa
antes que algo aconteça
antes que um amanhecer...
antes do brinde.

Quanta contradição à poesia!
É a razão que te ama mais,
o sentimento de fugir
é desmandado, não é a loucura
a querer-te, é o quereres vasto
cantando, encantado:
é o pensamento.

Os barcos se chocam no mar
da luz de junho, com seus céus
noturnos, nublados, e outros
limpos, todos azuis e estrelas
esperando meu olhar na noite
de São João a rogar,
junto a  milhares, que olhes
para a imensidão e vejas
como ela é linda.

 ♫ Olha pro céu, meu amor ♪

:: noite estrelada sobre o ródano | van gogh, 1888 ::