A curvatura do vulcão,
a redondeza da esfera,
a bola de gude, a roda
arada da bicicleta,
a base ampla do farol,
as bordas da bacia, a concha,
a tampa frouxa de um bueiro,
as argolas do mistério,
anéis de fumo sem cinza,
moedas em cada esquina,
compasso que mira o círculo,
as almas e o esquisito
das auras brilhando no escuro
os olhos da onça, os furos
por onde entraram as balas,
a Terra, a Lua que desponta
todo e qualquer planeta,
a cor que rodeia o seio,
a forma do bastidor,
o caroço do abacate,
os zeros, os ós, o ninho,
o laço no ar buscando
o cavalo, o vinil antigo,
a luz quando encontra
o espaço, o tempo
que se contorce
buscando de volta
o começo, a boca aberta
do sino, os aros dos óculos - finos -,
o sol por si só aceso,
o centro do girassol,
a forma do desatino,
o jeito do amor no peito,
o oráculo de cristal,
o prato de ouro, a cama
feita do motel, os lábios
abertos em grito,
a sombra do carrossel,
a cobra enrolada, o giro
que descreve no ar o véu,
o som que solta o pandeiro,
a fórmula do cansaço,
a vida encontrando a morte:
cada qual no seu quadrado.
quinta-feira, 28 de julho de 2022
redondo
segunda-feira, 25 de julho de 2022
tremendo
Levei o dia a tremer de amor
como se algo
(não faço ideia do quê)
estivesse acontecendo
(não imagino onde).
Sim, o amor é invenção
dos individualistas burgueses,
sentimento liberal,
ilusão que não dura seis meses,
construções do romantismo,
de verter até o suicídio,
de morar em gueto
infestado de vícios
e escuridão. Sofrimento
que não vem de fome
de comida, coração de quem tem
onde morar e é está bem servido,
servida. Amor que, Carlos, filho nosso,
é assim mesmo, claro e enigmático.
O dia me levou assim:
estômago na garganta
borboletas de febre na fronte,
agitação de bandeira de renda,
suores inexplicáveis:
talvez não seja amor,
seja vírus: amor de pandemia.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
desordem
O que me ata
me desamarra
por onde me espalho
me encolho?
Que terra me bate
nos olhos, o que me cega
me acalma, me trafega
por que subo o morro?
Por que desço
me encosto na pedra
escorrego, tropeço
que queda me assusta?
Arremesso-me até
desarrumar a boca
os braços tensos
as mãos postas
para o mergulho?
Mistura de óleo
e água, amoródio
que as criaturas
devotam umas
as outras
também.
sexta-feira, 15 de julho de 2022
inclusive
Permito, inclusive, que penetres
o meu ser simbólico, imaginário
ao qual nem eu acesso ou tenho,
e a carne, inclusive.
Demito até meu nome:
que me chames é suficiente,
na demência do amor podes, inclusive,
não chamares
que eu vou.
Repito mantras que não aprendi,
cruzo dedos trêmulos,
persigno-me falsamente
credos rezo habitando fés
que moram longe, inclusive
inexistentes.
Invito palavras
como quem chama os exércitos
para batalha santa e negra
e atendem orixás de seda
e vinho. Bebo chás de ervas
desconhecidas sem temer
que, inclusive, me matem.
Dramatizo as horas,
ouço canções de exílio,
sonho esse lugar onde há grilos
e luzes não identificadas
passeiam no horizonte escuro
onde, inclusive, não me encontro.
Mastigo as saudades,
chiclete que ponho na geladeira
junto com açúcar, inclusive,
e masco os círculos de fumaça
que desenho, redondos.
Aspiro o frio de julho
feito quem aspira um beijo,
inclusive no agosto próximo
e em dezembro, porque todo ano
o que sinto será inconclusivo,
contínuo e fluido devirá
como por enquanto.
terça-feira, 5 de julho de 2022
across the universe
sem linguagem ao alcance
enquanto acontece
vaga pelos corações um sangue
onipresente e alegre, quente
como um meio-dia de verão
em praia do nordeste.
mais além do compreensível
explode o tempo, quebra tudo
amansa a noite e o dia
manipula as regras da obediência
arranca o normal da vida à unha
reconhece o pulsar e assombra.
sem pretensão ou alvo
enquanto desaparece
voa nas asas incandescentes,
oníricas, do desejo
carrega o universo indecente,
errante, impossível,
mel que nenhuma abelha urdiu
erode a pedra, é um fio
amarração invisível de prata
mar que invade as pernas
alcança as veias e os olhos
remove a dor e as sombras.
sem querer vê a estrela que cai
e a apanha na garganta,
vela que se estufa e não há vento.
onde nada estava certo
começa um rito de erros sucessivos,
espanta o mal com largo riso.
mergulhando em lava e precipício
entende, não entende, aceita
amargo o gosto do licor
maravilha-se e se expande
até adormecer o medo
respira à sombra e acorda.
inacreditável.
incontrolável.
incontornável.
inapreensível.
quinta-feira, 30 de junho de 2022
verso fulo
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Para quem não sabe nada
não tem de mim geografia
não ouviu a minha toda história
assim como eu até duvida
pensa que eu só quero a glória
mas sempre lembro é do peninha
e do morcego vermelho
infância às vezes disneysíaca
sem ponto, vírgulas, exclamações
nas chuvas o canal enchia
e a boia era as entranhas
de um velho pneu
sou gibi, sou fada, sou padrinho
sou o balão com a fala acima
na cabeça trago pouca rima
e tenho um pé quebrado
na garganta, um sobrado
feito de esperanças
um galpão de gorda estripulia
galinheiro de maçãs e milho
milharal de migalhas, farinha
de mandioca, tapioca
carne de sol que seca à lua
banho de cuia e pesadelos
sou mata cheia de espinhos
sedosos como algum cabelo
sou crespa como pão de trigo
que no fogão a gás se queima
mas só se o tempo se extermina
facão e lima, limoeiro
sou quase uma caipirinha
a matutar com a espinha ereta
os porquês do coração tranquilo.
Para quem não sabe de nada
assim como eu também não sei
meus parabéns, como admiro
a falta de repente habita
a falta é coisa infinita
a falta é como tudo e mais
no divã as meias sempre aflitas
miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga
aquilo que me alumia
o candeeiro de meuzói
as praças lá de caicó
e de uma lagoa seca
puxinanã e mato dentro
a soledad de um passeio
navio à velas apagadas
veleiro de moral suspeita
subo rápida no barco alheio
pirata sem deixar a ilha
capitã de minhas muitas vidas
vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta
navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade
sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha
e durmo ouvindo uma fita.
domingo, 26 de junho de 2022
antes do brinde
Meu coração quer te expulsar,
eu toda sofro os efeitos enjoativos
e bilaterais: nos pulmões, nos braços
nos olhos, nas mãos, nos seios, nos pés.
A cabeça não acompanha o jorro,
não se rende, te quer até o fim.
E os ouvidos, de fato, não aceitam
tua partida, assim, depressa
antes que algo aconteça
antes que um amanhecer...
antes do brinde.
Quanta contradição à poesia!
É a razão que te ama mais,
o sentimento de fugir
é desmandado, não é a loucura
a querer-te, é o quereres vasto
cantando, encantado:
é o pensamento.
Os barcos se chocam no mar
da luz de junho, com seus céus
noturnos, nublados, e outros
limpos, todos azuis e estrelas
esperando meu olhar na noite
de São João a rogar,
junto a milhares, que olhes
para a imensidão e vejas
como ela é linda.
♫ Olha pro céu, meu amor ♪
:: noite estrelada sobre o ródano | van gogh, 1888 ::



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