quinta-feira, 21 de julho de 2022
desordem
O que me ata
me desamarra
por onde me espalho
me encolho?
Que terra me bate
nos olhos, o que me cega
me acalma, me trafega
por que subo o morro?
Por que desço
me encosto na pedra
escorrego, tropeço
que queda me assusta?
Arremesso-me até
desarrumar a boca
os braços tensos
as mãos postas
para o mergulho?
Mistura de óleo
e água, amoródio
que as criaturas
devotam umas
as outras
também.
sexta-feira, 15 de julho de 2022
inclusive
Permito, inclusive, que penetres
o meu ser simbólico, imaginário
ao qual nem eu acesso ou tenho,
e a carne, inclusive.
Demito até meu nome:
que me chames é suficiente,
na demência do amor podes, inclusive,
não chamares
que eu vou.
Repito mantras que não aprendi,
cruzo dedos trêmulos,
persigno-me falsamente
credos rezo habitando fés
que moram longe, inclusive
inexistentes.
Invito palavras
como quem chama os exércitos
para batalha santa e negra
e atendem orixás de seda
e vinho. Bebo chás de ervas
desconhecidas sem temer
que, inclusive, me matem.
Dramatizo as horas,
ouço canções de exílio,
sonho esse lugar onde há grilos
e luzes não identificadas
passeiam no horizonte escuro
onde, inclusive, não me encontro.
Mastigo as saudades,
chiclete que ponho na geladeira
junto com açúcar, inclusive,
e masco os círculos de fumaça
que desenho, redondos.
Aspiro o frio de julho
feito quem aspira um beijo,
inclusive no agosto próximo
e em dezembro, porque todo ano
o que sinto será inconclusivo,
contínuo e fluido devirá
como por enquanto.
terça-feira, 5 de julho de 2022
across the universe
sem linguagem ao alcance
enquanto acontece
vaga pelos corações um sangue
onipresente e alegre, quente
como um meio-dia de verão
em praia do nordeste.
mais além do compreensível
explode o tempo, quebra tudo
amansa a noite e o dia
manipula as regras da obediência
arranca o normal da vida à unha
reconhece o pulsar e assombra.
sem pretensão ou alvo
enquanto desaparece
voa nas asas incandescentes,
oníricas, do desejo
carrega o universo indecente,
errante, impossível,
mel que nenhuma abelha urdiu
erode a pedra, é um fio
amarração invisível de prata
mar que invade as pernas
alcança as veias e os olhos
remove a dor e as sombras.
sem querer vê a estrela que cai
e a apanha na garganta,
vela que se estufa e não há vento.
onde nada estava certo
começa um rito de erros sucessivos,
espanta o mal com largo riso.
mergulhando em lava e precipício
entende, não entende, aceita
amargo o gosto do licor
maravilha-se e se expande
até adormecer o medo
respira à sombra e acorda.
inacreditável.
incontrolável.
incontornável.
inapreensível.
quinta-feira, 30 de junho de 2022
verso fulo
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Para quem não sabe nada
não tem de mim geografia
não ouviu a minha toda história
assim como eu até duvida
pensa que eu só quero a glória
mas sempre lembro é do peninha
e do morcego vermelho
infância às vezes disneysíaca
sem ponto, vírgulas, exclamações
nas chuvas o canal enchia
e a boia era as entranhas
de um velho pneu
sou gibi, sou fada, sou padrinho
sou o balão com a fala acima
na cabeça trago pouca rima
e tenho um pé quebrado
na garganta, um sobrado
feito de esperanças
um galpão de gorda estripulia
galinheiro de maçãs e milho
milharal de migalhas, farinha
de mandioca, tapioca
carne de sol que seca à lua
banho de cuia e pesadelos
sou mata cheia de espinhos
sedosos como algum cabelo
sou crespa como pão de trigo
que no fogão a gás se queima
mas só se o tempo se extermina
facão e lima, limoeiro
sou quase uma caipirinha
a matutar com a espinha ereta
os porquês do coração tranquilo.
Para quem não sabe de nada
assim como eu também não sei
meus parabéns, como admiro
a falta de repente habita
a falta é coisa infinita
a falta é como tudo e mais
no divã as meias sempre aflitas
miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga
aquilo que me alumia
o candeeiro de meuzói
as praças lá de caicó
e de uma lagoa seca
puxinanã e mato dentro
a soledad de um passeio
navio à velas apagadas
veleiro de moral suspeita
subo rápida no barco alheio
pirata sem deixar a ilha
capitã de minhas muitas vidas
vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta
navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade
sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha
e durmo ouvindo uma fita.
domingo, 26 de junho de 2022
antes do brinde
Meu coração quer te expulsar,
eu toda sofro os efeitos enjoativos
e bilaterais: nos pulmões, nos braços
nos olhos, nas mãos, nos seios, nos pés.
A cabeça não acompanha o jorro,
não se rende, te quer até o fim.
E os ouvidos, de fato, não aceitam
tua partida, assim, depressa
antes que algo aconteça
antes que um amanhecer...
antes do brinde.
Quanta contradição à poesia!
É a razão que te ama mais,
o sentimento de fugir
é desmandado, não é a loucura
a querer-te, é o quereres vasto
cantando, encantado:
é o pensamento.
Os barcos se chocam no mar
da luz de junho, com seus céus
noturnos, nublados, e outros
limpos, todos azuis e estrelas
esperando meu olhar na noite
de São João a rogar,
junto a milhares, que olhes
para a imensidão e vejas
como ela é linda.
♫ Olha pro céu, meu amor ♪
:: noite estrelada sobre o ródano | van gogh, 1888 ::
terça-feira, 14 de junho de 2022
vou te contar
O desejo em mim
é como onda sonora:
caminha no ar.
E sou eu o rádio, a
onda:
receptora.
Nem sempre sei
onde fica a torre
transmissora
(talvez por dentro).
Será certo que há
outro aparelho?
Estou quieta e do
nada
ele se instala, sem
chip,
transístores ou
fusíveis,
sem led ou aviso:
um instante de instinto
de querer. Vontades.
Em certos tempos
parece que o nada do
nada
que vem, queimou;
em certos tempos
queimam os poros.
Não discuto com
sensações
ou odores, não
questiono
as emissões do
gozo.
Por que o faria?
Deixo que se produza
em mim o esperado:
a alegria de estar
viva
e inteira.
Inteiramente
eu
vivo.
Mesmo que toda a
pele se desgarre,
o sistema
imunológico desista,
o amor sem razão
multiplica
os dias, corre nas
horas,
inunda os olhos de
céu, sopra
os ventos que me
ligam,
desligam, ligam,
desligam
piscando as pálpebras
da existência
plena somente
e somente se e
quando sobre
a lama, o barro, a
carne
o prazer incide.
:: magnetic fields of the hot jupiter tau boötis | jack madden, 2020 ::
domingo, 12 de junho de 2022
scio
eu só sei falar de amor
de um amor só ou de
dois,
o amor ao mundo,
o amor segundo,
primo
terceiro, escarpas, degraus
amor no
quarto, sétimo
inferno dantesco.
amor de irmã,
irmãos,
printados,
entalhados,
desavisados, cegos,
perseguidos, pacíficos
e plenos, realizados,
sem sangue, cortes,
não imolados.
às vezes, amor
semelhante
ao que se sente
pelas gentes,
amor que verte pelo
humano,
escorre um palmo na
calçada,
molha a rua inteira,
faz escorregar
da sela, saltar do
cavalo.
não porque seja
escolha,
mas porque o amor
verte
e todo amor é
quente
e transborda. dizem
que a
trai, transgride,
constrange,
amor de anjos
sexuais.
atrás da porta, na
varanda,
nos quintais, na
cena dura
das centrais
congestionadas,
no cais antigo das
desgraças,
depois das horas
mortas,
amor de madrugada
de lua e cobertores,
amores descobertos
e recobertos por
descaso,
enfiados no casulo
fechado toda a vida
borboleta-nunca.
o amor passa
pelas ruas
de mãos dadas
com a vida nua
de braços com a
filosofia
magra, mora nos
cortiços,
corre pelas estradas
louco e desgarrado,
o amor engolindo a nuca
tangenciando o passado
descascando o futuro,
remendo costurado
no escuro
do avesso.
amor assentado no
chão
de gelo, estagnado
no pântano,
amor ousado, arado
rasgando
a terra infértil,
amor que insiste
na colheita do que
não foi plantado
em pernas
entrelaçadas
nas redes, amores
que calçam
torres que ameaçam
desabar.
o amor romântico
atrelado
às vestes cheias de
babados
amor safado,
cafajeste:
não há amor que
preste
e todo amor é
válido:
nos bordéis, nos
cadafalsos
nos becos, nos
presídios
nos malditos fados,
amores destinados à
dor
nos túmulos, nas
ribeiras,
amor de estribo,
ferindo ilhargas,
amor que é um ilha
d’água
cercado de terra por
todo lado.
todo amor…
eu só sei falar de
amor:
dos escritos nos
muros
e apagados, dos
amores
rasos de um dia,
dos amores castos
inúteis e calados,
do amor sem gozo
do amor só gozo
e sem afagos, dos
usados,
em grego, em braile, em urdu,
latim, armênio, francês, espanhol,
tosco, rouco, pouco, exagerado,
do amor antropológico cozido
encruado, estrutural, desconstruído,
revezado.
amores não editados,
sacralizados,
relicários
invadidos, colados
com saliva e vinho,
destruídos por uma
fala.
mortais e para
sempre
eu só sei falar de
amor.
:: love, and you will be happy | gauguin, 1898 ::

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