quinta-feira, 16 de agosto de 2018

personagem I

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
sou uma mistura
de frutas e hortaliças.
às vezes sou como um grão.
coco, mamão, alface
verdura, moleza e oco.

às vezes sou abacate, densa
forte, cremosa,
grossa.

mas veja, também sou rosa.

com ódio, arranco raízes
sou peste, cinza, daninha.

sou como todo mundo:
água e sangue, elementos:
ferro, potássio, cimento.

no fundo, como todo mundo:
morango, batata, adubo.

:: what happens to our bodies after we die? :: farnaz khatibi jafari ::

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

godiva



















ela era tão fada, princesa, singela
tão singela e negra, e era linda e farta
era tão escrava, tão pequena e forte
tão cortante e norte, desorientada
era perfeita e ontem, era dor e sons
tanto elefante, tanto espingarda

era assim de azuis, de senões, milagres
tinha olhos velozes e doces, macios
tinha a voz de jazz e os pés de estio
tudo que queria era seu, bem fácil

não faltava o sono, o linho, a estrela
na mesa: mel, pão, ópio, a geleia amarga.
só não tinha amor, só não tinha amor
nessa torre alta, imensa, ao longe
escrevia cartas de felicidade
esperava príncipes, corcéis, verdades
sonhava que as grades por mágica sumiam

lia livros curtos, dourados, pulsantes
lia as próprias mãos e os mapas dos mundos
lia o mar escuso, liames e algas
só não tinha amor, só não tinha amor

em verão vazio, ardente, deserto
alucinações e desejos selvagens
tomaram seu corpo, seu sangue fervente
febre, sede e o gosto morno, ácida saudade
do que não tivera, imaginara, crera:
não era amor nem príncipe o que lhe faltava

e quando o cavalo todo asas e voo
como um zeppelin de pelo, de carne e crinas
borboleta enorme sustentou os ares
por um breve instante enquanto a torre morta
se desfazia em pedras, implodindo em poeiras
cuspindo poesia e areias ela aceitou
vadia, serena, sincera, sem cela
sem estribo ou brida, vestiu calcanhares
vestiu um sorriso como nunca antes
nem na mais lúcida fantasia ousara
partiu em disparada, senhora de si
cavalgando nua nuvens, montando a liberdade.

quem quer o amor, quem quer o amor?

:: lady godiva with butterflies | dalí, 1976 ::

* gp, geraldo pinto, disse: me dá uma letra pr'eu musicar. dei. agora, mexi só um cadinho =)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

josé julio jorge



a noite é imprecisa
navio na corcova
do camelo
o homem se abriga
na tempestade
de si mesmo.

dois
o deus e ele
entre os raios
procurando
os dias no espelho.

a sorte é escondida
enguia em meios às algas
pesadelo
o homem se acredita
náufrago do naufrágio
de si mesmo.

pelas ruínas
-cego -
circulares
lendo labirintos
com os dedos.

a morte é esquecida
memória contrária do começo
o homem se multiplica
no mito, no ídolo, no avesso

e é o tempo
espuma
sobre os mares
um segundo
único e espesso

sábado, 23 de abril de 2016

ouço o tapete















acompanho seu silêncio
com meu silêncio
e não basta

toco o limite plástico
da distância
e minha mão se perde
no portal das mágicas

é um jogo de perguntas 
realizado
na sala atapetada
com cascas de ovos

reality show onde nós
somos quatro 
e nos vemos
enquanto jogamos
de fato

pequena armadilha
sutil campeonato
e vencer talvez seja
um final impossível

o que importa é o lançado
o que se desdobra

a promessa de novos
e possíveis prazeres
seu riso meu riso
os raros deslizes
palavras que indicam
avanços e recuos

a curiosidade que incide
sobre os pontos escuros:
suspense que arde
nas pontas dos dedos
nas mãos do futuro.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

mais um ano

















estás tão longe de ser o que dizes
que não te alcanças.
nada te alcança.
e vives nessa poça de resíduos de vazio.
o que sobrou, irreconhecível
não quer espelhos, não olha para o céu
não se atreve a gritar.
as suaves mentiras, diárias
os sorrisos maleáveis
tudo nessa viagem solitária
é fumo e desperdício,
arquitetura de nuvens
que um sopro atravessa
para encontrar, novamente, o éter.
e no lugar transplantado, onde havia pensamentos
e no espaço transplantado, onde habitou o coração
(que não conheceu a sinceridade)
moram, colados no chão, sob os pés,
(e não mais no corpo erguido)
transplantados: espetáculo de artifícios
que explodem.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

memória















aMor és uma variedade suave e fechada, e tudo de Ti em Mim e Mim é uma involução suave e definida em Ti., não, em Mim. Não. Em. Tu e Mim, dis Juntos, somos estranha des_união de dois espaços. Sim, tens razão, te projeto e encontro algo de invariante. Mas nem sempre somos um par. Nem sempre ao mesmo tempo positivos. É complexo. a + bi + cj + dk, em que a e c são reais. b também. d também. d é mais real. F já faz parte da equação. Cada letra em seu lugar. E ele e M? M já está. É peça principal. I e J são uma matriz infinita. O próprio universo. Mas não podemos nos multiplicar comutativamente. Não há porque ir e vir. Tu és Mim elevada a n. Nem saberia dizer, não poderia. O contexto sempre dá margem à confusão. Há fatos intrigantes no capítulo zero e nossa história é exatamente assim como diz o dicionário: uma molécula aquiral, ou de face de uma molécula insaturada, que não leva ao surgimento de um enantiômero, seja por substituição, seja por adição. É, eu não entendo. Nossa música é Floyd, mas não é Pink. Minha fibra se estica e em alguns momentos não passo de coisa fibrada. Sem conjunção. Apenas fibras que ainda podem andar, correr, nadar, comer, rir, dormir, viajar. Amar. O dicionário só vai até borda. Não há bordismo. Difeo é um prefixo da cidade de Atlanta que você resgatou. Bordar já não significa trançar fios, não diz respeito a pano ou bastidor, ponto de +, renda, labirinto. Bordar | bordejar | é tocar de olhos fechados o abismo. E enquanto isso as transformações unívocas riem de mim, as transformações dos grupos sobre outros riem de mim, e enquanto isso as operações são preservadas: operações De descartes, operações de desastre, operações de cura.

:: andrews ostrovsky + george redhawk ::
»  ostrovsky
«  redhawk

ps_1. redwahwk is legally blind
ps_2. imagens forte

domingo, 31 de maio de 2015

redução



















acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo

debaixo de você há um
debaixo desse um, o chão
o sangue, apenas pancadas
em volta
a sirene insone
as grades, os maus tratos
o instituto médico legal
a vala comum
e nenhum nome

quase sempre a mesma
dor do irmão, da mãe ou não
quase sempre a mesma cor
o invisível coração
que, quem sabe o que passou?

recolha-se ao seu torpor
porque clichê é chato

quem sabe o que se passou?
se horror, se frio e fome
se ria a gosto quando atirava
se tinha medo, se tinha falhas
se falava grosso ou empostava
quem se importa a ponto de
calado, rente ao asfalto
deitar-se de braço dado
com o corpo, grande,
pequeno, de que tamanho?
menor?
.
..
...

acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo.