quarta-feira, 8 de agosto de 2018

godiva



















ela era tão fada, princesa, singela
tão singela e negra, e era linda e farta
era tão escrava, tão pequena e forte
tão cortante e norte, desorientada
era perfeita e ontem, era dor e sons
tanto elefante, tanto espingarda

era assim de azuis, de senões, milagres
tinha olhos velozes e doces, macios
tinha a voz de jazz e os pés de estio
tudo que queria era seu, bem fácil

não faltava o sono, o linho, a estrela
na mesa: mel, pão, ópio, a geleia amarga.
só não tinha amor, só não tinha amor
nessa torre alta, imensa, ao longe
escrevia cartas de felicidade
esperava príncipes, corcéis, verdades
sonhava que as grades por mágica sumiam

lia livros curtos, dourados, pulsantes
lia as próprias mãos e os mapas dos mundos
lia o mar escuso, liames e algas
só não tinha amor, só não tinha amor

em verão vazio, ardente, deserto
alucinações e desejos selvagens
tomaram seu corpo, seu sangue fervente
febre, sede e o gosto morno, ácida saudade
do que não tivera, imaginara, crera:
não era amor nem príncipe o que lhe faltava

e quando o cavalo todo asas e voo
como um zeppelin de pelo, de carne e crinas
borboleta enorme sustentou os ares
por um breve instante enquanto a torre morta
se desfazia em pedras, implodindo em poeiras
cuspindo poesia e areias ela aceitou
vadia, serena, sincera, sem cela
sem estribo ou brida, vestiu calcanhares
vestiu um sorriso como nunca antes
nem na mais lúcida fantasia ousara
partiu em disparada, senhora de si
cavalgando nua nuvens, montando a liberdade.

quem quer o amor, quem quer o amor?

:: lady godiva with butterflies | dalí, 1976 ::

* gp, geraldo pinto, disse: me dá uma letra pr'eu musicar. dei. agora, mexi só um cadinho =)

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