segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sinceros votos



















durante o ano inteiro
alimentou o silo
com ódio, milho e mel
e regou com botelhas 
de raiva
até fermentar.

durante o ano inteiro
viveu dessa ração
cinzenta
e quis que morresse aquele
e empesteasse aquela
e sequelasse aqueloutro.

durante o ano todo
cavou fossas e poços
que camuflou com risos
e abraços magros
esperando a queda.

durante o ano
rogou pragas,  levantou falsos
desejou fortíssimo que fosse
tudo impróspero
e que minguasse a água, o pão,
a palavra e o ócio.

agora, duro e inteiro
traz presente secreto
e convite para a ceia,

alardeia a paz
e escreve no cartão
o quanto amor é sério.

poupe-me do seu do natal
invero.

e para o que não vestiu
esse capuz de trevas
um feliz natal e um ano novo
às veras.

domingo, 23 de dezembro de 2012

riso



















parece que te enviaram
ultrassom do inferno
retrato do instagram
e eu
a fome do mistério
instalado no pleistoceno
revi-te, revide, bem-te-vi.

se os pássaros cantaram
e minha inocência válida
plácida e transtornada
ouviram, ouviram
que faço?

te desço do sono
pesado, sofrendo
como quem carrega
o bandido disfarçado
nas costas.

e em meio a dor
estagnada
aceito teu beijo
miséria
teu nome na mesa
farta.

que me entendam
somente os poetas
aqueles que não procuram

sentido nem rima ou cura
que me entendam
ninguém

e mesmo assim
satisfiz-me.
{sem crase nem nada}
 

gargalhada

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como um índio rindo
ou uma hiena morta
feito um riso vindo
de garganta flácida
tal qual tiro falho
a sair da culatra
ouvi meu próprio riso
espalhar-se tinto
pela sala branca.

domingo, 16 de dezembro de 2012

μονόκερος



















o passado
montado em um cavalo
alado
unicórnio.

morro-me
em círculo,
minha morte mordendo
o infinito.

tão longe e perto
insisto-me,
mastigo as pontas dos dedos
enquanto dirijo
um verso
cancelado.

a partitura a ir-me
para o inacabado
e o sem sentido
amor
que my love.
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

omissões

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
a dizes tua dona. odeio-a.
mas a ti, mais,
pelo que de gozo transmites
ao descreveres o zunido do fio.

pior! omites  – por saberes que os imagino
e assim, nitidamente, ouço  –
os gemidos. 

dizes-me
com os dentes no cio
que tua dona é ela:
que és o cão, o olhar da subserviência,
alegria de dor, amor de permitir...
(tudo aquilo que não entendo).

te desprezo, mas mais a mim,
pelo que de inveja e impotência omito
ao responder tua confissão
com um sorriso.
 

domingo, 14 de outubro de 2012

fenice



















Terça, quarta, quinta, quanta
alma trazemos na inconstância!
E renascemos no sopro que a-
viva a brasa
quando mais nos percebíamos
hirtos. Mesmo passivos,
atravessando apáticos os dias
lindos, o destino - ou o nome
que atribuímos ao vindo-
ouro - nos escolta para o novo
navio e partimos
como se sequer tivéssemos ido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

festa da luz e sombra












[para BT.]
 
da tailândia a liverpool
num ápice
cruza os ares o búfalo
asas gigantescas
e voando com ele
vão as sombras das árvores
do vale.

quem o viu se libertar
da frágil amarra
pôde vê-lo pela pista
verdazulada: toneladas
de sonho a galope.

descoberto pelo homem
o bicho é dócil
como se ignorasse
a morte
na simetria afiadíssima
dos cornos.

criança levada que fugiu
dos cuidados de um tio
cujos olhos foram capazes
de achá-lo, domesticado.
o mimetismo do seu torso
paralisado se fundia
às plantas e ao tudo
invisível menos à retina
acostumada desse outro:
seu-tio-filho-ele-mesmo-ontem.

nessas paragens
o traçado ocidental
perde os sentidos
se desgoverna, des-
falece, é o leito de um rio
seco. o ordenamento
não é o mesmo aqui
uncle boonmee, nem
mesmo lembramos
que somos hoje.

não consideramos o espírito
das flores e escondemos
as dores
no mais distante possível.

ainda sei me transportar
invocando geografia
e amando nomes: laos, mekong,
duras, por mim, por você, velha
poesia de gullar.

boonmee. pequenas mariposas
e fantasmas, camaradas.

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