terça-feira, 23 de junho de 2009
atende!
as palavras escassearam
falta de chuva tua
falta de saliva minha,
e vejo apenas essa ponte
que adivinho perto
para o desespero
de não poder dizer
o quanto é que tenho e o “isso”
que guardo aqui.
meu quarto é uma nuvem
minha casa é uma viagem
meu porto é tempestade
minha vida é vela
de pedra que queima
mas não se extingue.
minha laringe esquenta de vontade
de te dizer, de perguntar
de saber: uma chance em mil?
mas não é “abril, o mais cruel dos meses”
nem mais é maio, quando apareceste.
agora é frio e eu não tomo vinho,
nada que entorpeça menos que me entorpeces.
e vivo célere, cadela amarrada
tomando conta
do portal do paraíso.
mas nunca vens.
algo me diz que não virás,
que não dirás,
não sentirás:
porque já vens
dizes, sentes.
e eu? minto!
estico o fio
uma parte do mundo na boca
outra no ouvido
mas não ligo,
não quero desfazer
tudo isso que não faz sentido.
melhor deixar assim
impreciso, imprevisto,
impossível, impalpável
impartilhável, impassível
impedido, impecável
impenetrável, imperceptível,
imperdoável.
tão ímpar o que tenho no peito
que não posso te contar.
no fundo é medo.
no fundo é a certeza
de que não há apelo
que eu possa fazer.
no fundo
tenho só um desejo:
te fazer gritar meu nome
[pela segunda vez].
sexta-feira, 19 de junho de 2009
chamado
mais um pouco de mágica?
sim. a descreverei para ti:
sem quê nem porquê
aperto minhas mãos
uma na outra
como se as tivesse lavando,
ou não, mais exatamente como se
uma delas a outro alguém pertencesse.
então penso: quem está a me apertar
a mão, a me acariciar com um simples
e fatal aperto?
que está a trocar esse carinho
tão perfeito, tão pequeno e grande
de uma vez só?
parto para a busca entre aquelas
pessoas que estão longe
e me chamam assim.
logo encontro a ti.
mais um pouco de mágica?
sim. me chamaste, eu vim.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
descoberta
manhã cansada!
agora já sei
até o nome da tua amada,
sei no que ela trabalha,
vi fotos e entendo teu mau gosto.
mesmo assim fiquei irada.
ri de mim
e me vi como a jia que pula no poço
de água gelada, barulho pequeno,
me senti um haikai atrapalhado
um poema riscado
uma folha no lixeiro magro
do escritório, bola de papel
esfera amarfanhada.
a vontade é fechar
os olhos, a boca
não dizer mais nada.
mas falo.
ri de mim e te mandei
à merda. mas não adiantou
muito. ainda não fechei
o circuito do meu corpo
não me fiz imune ao teu nome,
nem o torpor do ciúme
me acalmou.
por fim, ri de ti e decidi
que não te amarei
de novo. és agora
apenas uma mira, um alvo
onde atirarei palavras
ásperas. e não esperes
que no meio do caminho
eu tropece e caia, volte
atrás e me traia.
ri. te matei parte por parte,
te esquartejei com um alicate
de unhas. não vou te canibalizar.
vou jogar no mar esses pedacinhos,
mas não serás isca porque não quero
os peixes que te trarão na barriga.
sim. é uma escritura irada.
mas tu não me conheces
e me conheço: isso passa.
não vou tomar um porre de vinho
não vou me jogar na calçada
não vou espetar meu dedo no espinho da rosa
não vou permitir que a raiva exploda
não vou me comer pelas bordas
não vou deixar que me roas
e não vou deixar que a tarde continue
cansada, como essa manhã.
vou fazer orações poderosas
pais-nossos, ave-marias
vou fazer de conta que nunca existirias
se eu não te tivesse criado.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
crença
se eu soubesse de onde vem a sintonia
para te pedir que siga
para te dizer que é certo
para te acalmar, te provar
que é perto.
se eu pudesse dominar a ventania
para te enxugar os olhos
para te comprar abrolhos
para te trazer com o mar, te mostrar
que é mesmo.
se eu tocasse a perfeita sinfonia
para te fazer ouvir
para te garantir que posso
para te demonstrar que é nosso
e ninguém pode desfazer.
ninguém pode destruir
aquilo que só há em mim
embora eu use o plural:
é todo meu esse sentimento
enorme e unilateral.
mas meu coração acredita
minha respiração contínua
traz esse perfume que eu sei
é teu.
mas meus olhos veem
minhas pálpebras dormem
contigo dentro.
e enfim, se é só meu ou nosso
se eu não sei parar
se não há motivo para tal
pois que nenhum mal
me ronda
enfim, se é para olhar pro céu
e querer um milagre
que lágrima poderá molhar
um bem que eu quero e invento?
que lágrima derreterá
um sol que me alumia, intenso
e renasce toda manhã
nesse amor de perdição?
sexta-feira, 12 de junho de 2009
trêmula
trêmula
os olhos doidos de incerteza
as mãos em fogo e água
não quero calma
me injeto nicotina e desejo
para esse vício novo
que me aumenta a fome.
estou grávida
dentro de mim sinto crescer
o que esperei a vida inteira
uma alameda, um bosque,
uma praia ensolarada,
montanha e barraca
acampar para sempre
lançar a âncora
ou como no romance
de garcía márquez
(meu preferido)
navegar o resto da vida
em tua cólera.
sou um peixe agora
porque não me afogo mais
respiro líquidos translúcidos
enquanto a lucidez escapole
e não ligo. não posso ligar.
sua voz
certamente
me desmancharia
certamente
não me atenderias.
e ainda é tão cedo
e já é tão tarde!...
trêmula
a saliva passa difícil
pela garganta apertada
de medo.
o corpo em pé de guerra
não aceita a explicação
que eu não tenho.
sou a dúvida caminhando
a esmo, substantiva,
perplexa, perdida.
em que lugar me darão
socorro? que horas terás
piedade? hoje é um dia
de gases e nuvens negras:
outra bomba atômica
sobe no pequeno espaço
que ainda sobra dentro de mim
onde não estás. estou preenchida e
sem abraço. dia
dos que namoram, dos que têm
enlace, dos que têm pernas
para entrelaçar. eu não tenho
nada. trêmula, faço uma oração
sem graça: com certeza
não posso te alcançar.
mas mesmo assim
a tristeza faz pausas
longas pausas
de dias inteiros salvos
pela esperança.
que essa, viva no ditado,
nunca morre.
eu tonta penso:
é hoje que tu escolherás
me dizer tudo.
como uma criança
crente em contos de fadas
amiga do faz de conta
a partir de então
terei no dedo quarto
da mão esquerda uma aliança,
desdenharei da realidade
esquecerei que não tem eu
no teu verso, e ao invés disso
declaro amor incondicional
para o resto da minha vida
e completo essa verborragia
com o que não poderia deixar
de dizer apesar de não haver
eco: eu te amo.
terça-feira, 9 de junho de 2009
calada
eu rastejava e era areia o que havia sob a lua
um unicórnio me esperava solene.
havia maçãs caídas sob a única árvore da paisagem.
eu arfava, cotovelos roídos, joelhos em brasa
as mãos transformavam os grãos em prata
em minha cabeça um submarino afundava
são jorge largou sua lança que caiu a meio palmo
do meu ombro nu.
eu rastejava e era a ti que buscava no escuro
um pássaro vermelho pousou no meu cabelo
havia folhas mordidas sobre as formigas caminhando
eu respirava, o nariz comia teu perfume, coração em casa
as pernas cavavam sulcos na areia em brilho
em meu sexo um vestido suava
borboletas largavam lagartas e no céu piscava
o meu nome cru.
eu rastejava e era força o que havia em minha boca
um gato macio me olhava fixo
eu mastigava, dentes partindo a dor, seios úmidos
as cores atravessavam os olhos transtornados
os pincéis saltavam como polichinelos e grilos
em meus dedos anéis rangiam e soltavam óleo
flores caminhavam e brincavam de roda
no meu corpo mudo.
eu fustigava e era cada palavra um doce e grosso
sussurro, pequeno azedume de pingo de limão
no osso, e um polvo azul enorme abraçava
a única árvore do mundo. eu escrevia e escorria
pela areia ensopando tudo. eu queria parar
e os lençóis bordados carregavam núpcias,
imantavam beijos, cuspiam fotografias minúsculas
em meus sonhos carrosséis de fumaça eram teu pescoço
eu olhava hipnotizada a beleza sem dono
copiava o sono da próxima dormida
filmava as marcas que teus pés deixavam no mar
bebia mais um gole de teu sorriso e desvanecia.
eu fui acusada e condenada e feliz
sabia que a única droga que alimentava meu ali
meu aqui, meu estar, meu passado desaparecido
era um amor de mendiga que nascia quase morto
mas que nunca morreria.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
renúncia
e o tempo é nada
as minhas pernas caminhando pela nenhuma estrada
que inventei
os meus ouvidos assustados com o grito da manhã
dourada
a minha boca calada esperando o nunca-beijo
os meus braços pendendo, frouxos, sem nenhum
abraço
os meus dentes mordendo o diamante dos seus
medos...
e eu sinto o cheiro do impossível me cercando
respiro a fumaça desses sentimentos verdes
engulo a chuva com os lábios na vidraça
invento a graça do seu corpo com desejo
moldo sorrisos seus em todo espelho
e imagino frases doces que me diz
penso, sem tristes pensamentos, que feliz
se um dia algo em você de mim necessitasse
se eu, por obra do destino imperfeito,
fosse motivo de alegria e de descanso.
esse teatro no meu peito nunca cansa:
não sei porque essas paisagens me acompanham
você no perto, nas florestas, nas montanhas,
você na cama, no banheiro, no deserto
você no carro, no mercado, na piscina
você nas rimas tão estreitas que cometo.
enlouqueci, chego a acreditar em hora estranha
toco nas pálpebras, nos joelhos
certifico-me que ainda estou aqui
que não há nada entre nós, que nunca houve...
isso é bastante? é, não... e não resolve.
e o que faço? que farei? – olho para o céu
nuvens se movem, uma brisa participa.
como não há o que fazer, eu renuncio
desfaço as mágicas, escondo o amor dentro das
pedras
as minhas pernas caminhando pela nenhuma estrada
que inventei
os meus ouvidos assustados com o grito da manhã
dourada
a minha boca calada esperando o nunca-beijo
os meus braços pendendo, frouxos, sem nenhum
abraço
os meus dentes mordendo o diamante dos seus
medos...
e eu sinto o cheiro do impossível me cercando
respiro a fumaça desses sentimentos verdes
engulo a chuva com os lábios na vidraça
invento a graça do seu corpo com desejo
moldo sorrisos seus em todo espelho
e imagino frases doces que me diz
penso, sem tristes pensamentos, que feliz
se um dia algo em você de mim necessitasse
se eu, por obra do destino imperfeito,
fosse motivo de alegria e de descanso.
esse teatro no meu peito nunca cansa:
não sei porque essas paisagens me acompanham
você no perto, nas florestas, nas montanhas,
você na cama, no banheiro, no deserto
você no carro, no mercado, na piscina
você nas rimas tão estreitas que cometo.
enlouqueci, chego a acreditar em hora estranha
toco nas pálpebras, nos joelhos
certifico-me que ainda estou aqui
que não há nada entre nós, que nunca houve...
isso é bastante? é, não... e não resolve.
e o que faço? que farei? – olho para o céu
nuvens se movem, uma brisa participa.
como não há o que fazer, eu renuncio
desfaço as mágicas, escondo o amor dentro das
pedras
apago as músicas que cantei no mar, na areia
desço as cortinas
e adormeço.
desço as cortinas
e adormeço.
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