sexta-feira, 12 de agosto de 2022

stoned

















desta vez

os livros chegaram

e sequer li os prefácios

pois os títulos bastam

pra me arrebatar



eu poderia acusar-te

de sequestro

senão a ti

tua palavra

roubada onde entrei

feliz como se não fosse

essa uma dita má condição



maldita então

ou há alegria na entrega

sem reservas ou pré-condição?



poderia explicar como deslizo

nas referências aos palhaços

as famas que me levam

craseadas ou sem

pros braços de louie satchmo

"argonauta sem tréguas"

como eu disse de veloso

uma vez em canção

que finalizei assim:

"terra pra que te quero?"

mas não



prefiro

enterrar minha cabeça

no forno em companhia amada



outro deslize e caio soprada

pelos ventos alísios

na cornucópia de ópio.



da literatura dos tristes fins

ficam-se-me os dedos

sem memória de cortes

que papéis afiados deixam



carpo metacarpo falanges

de desarranjos tortos



toda a vida sem rima

porque não há mesmo

solução

querido mundo.



sshhh...

silêncio!

o sol está vindo

ouça



e ainda resta outro

porvir

via estafeta

ele trará



desbastamentos

do tigre assíncrono

devorador de si

do fogo



eterno



que desbasta o campos.



espero.

e que não seja o último.

:: louis armstrong | world-telegram staff photographer, 1953 ::


domingo, 7 de agosto de 2022

pecado original





















todo dia meu amor cresce

edifício em construção

tem seus mortos caídos

dos andaimes e estruturas

de aço.



mas engraçado

à noite

enquanto dormem

engenheiros pedreiros e arquitetos

ele também cresce



um olhar mais perto

revela tijolos feitos

de mistério colados

com argamassa que é mistura

de desejo e sorte.



:: manoscritto_B | leonardo da vinci, 1488-90 ::

 80 anos de caetano veloso

♫ 

Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

terça
















a barra do horizonte

aqui não como essa

consome a madrugada



as montanhas nunca foram

tão escuras e longes

ou talvez sim



nuvens leves

outras quase imóveis

neblina e quero uma estrela



digo teu nome

nome nome

dá-me uma estrela



a esperança de pedra

espera na janela

o universo dilatado



meus olhos ora fechados

ora atravessados

pela espiral dos ventos



desinstalada coruscação

em nesga breve

vênus não tem pálpebras



mas brilha um décimo

em diamante

sem hesitar peço



estrela planeta

dá-me um poema

para nome nome



esse se veio

não corresponde

ao que te quero.



:: venus and the moon strike a pose | petr horálek, 2016 ::

sábado, 30 de julho de 2022

oceânide















tomaste a cabeceira de assalto

se perto dela durmo

nela tu moras



como não sei muito chorar

mas dizem ser preciso

no antessono

abro-te como bíblia

oráculo corto palavras

romã regrido

inverto-me

vértebras estralam

ouço sons de flauta



apesar de tudo

sempre tem vindo

nenhuma lágrima

porque não sei chorar

pouco nada

mas vejo

um rio de gotinhas

nos versos auschwitz

pois muitos teus vêm de lá

ou das cercanias



e anda o relógio

da estação treblinka

o tempo das 3 horas

que não se sabe



madrugada ou tarde



se move por fim

e o espéculo retrato das dores

de doris e todas e todos

brilha doido doído

moderno pós e antigo

como as guerras

diodo emissor de luz

sigla LED em inglês

light-emitting diode.

:: rain, steam and speed | william turner, 1844 ::



quinta-feira, 28 de julho de 2022

redondo























A curvatura do vulcão,

a redondeza da esfera,

a bola de gude, a roda

arada da bicicleta,

a base ampla do farol,

as bordas da bacia, a concha,

a tampa frouxa de um bueiro,

as argolas do mistério,

anéis de fumo sem cinza,

moedas em cada esquina,

compasso que mira o círculo,

as almas e o esquisito

das auras brilhando no escuro

os olhos da onça, os furos

por onde entraram as balas,

a Terra, a Lua que desponta

todo e qualquer planeta,

a cor que rodeia o seio,

a forma do bastidor,

o caroço do abacate,

os zeros, os ós, o ninho,

o laço no ar buscando

o cavalo, o vinil antigo,

a luz quando encontra

o espaço, o tempo

que se contorce

buscando de volta

o começo, a boca aberta

do sino, os aros dos óculos - finos -,

o sol por si só aceso,

o centro do girassol,

a forma do desatino,

o jeito do amor no peito,

o oráculo de cristal,

o prato de ouro, a cama

feita do motel, os lábios

abertos em grito,

a sombra do carrossel,

a cobra enrolada, o giro

que descreve no ar o véu,

o som que solta o pandeiro,

a fórmula do cansaço,

a vida encontrando a morte:

cada qual no seu quadrado.

:: le premier disque | robert delaunay, 1912-13 ::

segunda-feira, 25 de julho de 2022

tremendo





















Levei o dia a tremer de amor

como se algo

(não faço ideia do quê)

estivesse acontecendo

(não imagino onde).



Sim, o amor é invenção

dos individualistas burgueses,

sentimento liberal,

ilusão que não dura seis meses,

construções do romantismo,

de verter até o suicídio,

de morar em gueto

infestado de vícios

e escuridão. Sofrimento

que não vem de fome

de comida, coração de quem tem

onde morar e é está bem servido,

servida. Amor que, Carlos, filho nosso,

é assim mesmo, claro e enigmático.



O dia me levou assim:

estômago na garganta

borboletas de febre na fronte,

agitação de bandeira de renda,

suores inexplicáveis:

talvez não seja amor,

seja vírus: amor de pandemia.

:: birth of virus | robert steven connett, 2020 ::

quinta-feira, 21 de julho de 2022

desordem


















O que me ata

me desamarra

por onde me espalho

me encolho?



Que terra me bate

nos olhos, o que me cega

me acalma, me trafega

por que subo o morro?



Por que desço

me encosto na pedra

escorrego, tropeço

que queda me assusta?



Arremesso-me até

desarrumar a boca

os braços tensos

as mãos postas

para o mergulho?



Mistura de óleo

e água, amoródio

que as criaturas

devotam umas

as outras

também.