terça-feira, 14 de junho de 2022

vou te contar
























O desejo em mim


é como onda sonora:
caminha no ar.
E sou eu o rádio, a
onda:
receptora.

Nem sempre sei
onde fica a torre
transmissora
(talvez por dentro).

Será certo que há
outro aparelho?


Estou quieta e do
nada
ele se instala, sem
chip,
transístores ou
fusíveis,
sem led ou aviso:
um instante de instinto
de querer. Vontades.



Em certos tempos
parece que o nada do
nada
que vem, queimou;
em certos tempos
queimam os poros.



Não discuto com
sensações
ou odores, não
questiono
as emissões do
gozo.

Por que o faria?


Deixo que se produza
em mim o esperado:
a alegria de estar
viva
e inteira.
Inteiramente
eu
vivo.





Mesmo que toda a
pele se desgarre,
o sistema
imunológico desista,
o amor sem razão
multiplica
os dias, corre nas
horas,
inunda os olhos de
céu, sopra
os ventos que me
ligam,
desligam, ligam,
desligam
piscando as pálpebras
da existência


plena somente
e somente se e
quando sobre
a lama, o barro, a
carne
o prazer incide.

:: magnetic fields of the hot jupiter tau boötis | jack madden, 2020 ::

domingo, 12 de junho de 2022

scio














eu só sei falar de amor
de um amor só ou de
dois,
o amor ao mundo,
o amor segundo,
primo
terceiro, escarpas, degraus
amor no
quarto, sétimo
inferno dantesco.

amor de irmã,
irmãos,
printados,
entalhados,
desavisados, cegos,
perseguidos, pacíficos
e plenos, realizados,
sem sangue, cortes,
não imolados.


às vezes, amor
semelhante
ao que se sente
pelas gentes,
amor que verte pelo
humano,
escorre um palmo na
calçada,
molha a rua inteira,
faz escorregar
da sela, saltar do
cavalo.

não porque seja
escolha,
mas porque o amor
verte
e todo amor é
quente
e transborda. dizem
que a
trai, transgride,
constrange,
amor de anjos
sexuais.

atrás da porta, na
varanda,
nos quintais, na
cena dura
das centrais
congestionadas,
no cais antigo das
desgraças,
depois das horas
mortas,
amor de madrugada
de lua e cobertores,
amores descobertos
e recobertos por
descaso,
enfiados no casulo
fechado toda a vida
borboleta-nunca.

o amor passa
pelas ruas
de mãos dadas
com a vida nua
de braços com a
filosofia
magra, mora nos
cortiços,
corre pelas estradas
louco e desgarrado,
o amor engolindo a nuca
tangenciando o passado
descascando o futuro,
remendo costurado
no escuro
do avesso.

amor assentado no
chão
de gelo, estagnado
no pântano,
amor ousado, arado
rasgando
a terra infértil,
amor que insiste
na colheita do que
não foi plantado
em pernas
entrelaçadas
nas redes, amores
que calçam
torres que ameaçam
desabar.



o amor romântico
atrelado
às vestes cheias de
babados
amor safado,
cafajeste:
não há amor que
preste
e todo amor é
válido:
nos bordéis, nos
cadafalsos
nos becos, nos
presídios
nos malditos fados,

amores destinados à
dor
nos túmulos, nas
ribeiras,
amor de estribo,
ferindo ilhargas,
amor que é um ilha
d’água
cercado de terra por
todo lado.



todo amor…



eu só sei falar de
amor:
dos escritos nos
muros
e apagados, dos
amores
rasos de um dia,
dos amores castos
inúteis e calados,
do amor sem gozo
do amor só gozo
e sem afagos, dos
usados,
em grego, em braile, em urdu,
latim, armênio, francês, espanhol,
tosco, rouco, pouco, exagerado,
do amor antropológico cozido
encruado, estrutural, desconstruído,
revezado.

amores não editados,
sacralizados,
relicários
invadidos, colados
com saliva e vinho,
destruídos por uma
fala.



mortais e para
sempre
eu só sei falar de
amor.

:: love, and you will be happy | gauguin, 1898 ::



sábado, 4 de junho de 2022

clarícima

 

















Eu,
o cachorro que pressente
a mudança
e logo se perde
antes que chegue
o caminhão
antes de cair dele,

morrendo de vésperas
mastigando vespas
chupando marimbondos,

vivendo e morrendo
de sede antecipada,
de fome em meio
ao prato cheio,

confusa como um sábio
porque são, sim, eles
os mais confusos.

Pensar, saber, sentir.
Onde está Morgana?
Quem partiu com o mistério?
Quem fechou o celeiro?
Por que o oleiro já não colhe o barro?

O vaso com a planta
responde, calado: “sim”.
E cresce o verde áspero do cacto.
O vento, não,
ainda no mistério ausente,
esse permanece e fala:
resposta igual e suficiente.

Que se dane o mais.
Que se faça o menos.
Que a febre suba.
Que a dor fomente.

Pois ninguém sabe,
como disse a moça
em fala clarícima
se o que sustenta o é
difícil inteiro é o defeito.

:: retrato de Clarice feito por Rui Ribeiro Couto, no caderno da escritora ::

terça-feira, 24 de maio de 2022

cores do tédio











Autêntico pranto
fruto inédito do tédio
insípido suco de vidro
claro e cortante colírio:
inútil remédio.

Idêntica gota
pérola gêmea do ódio
dor do iodo na carne
lágrima de grave saudade:
suave minério.

:: tedious | jiawei fu, 2020 ::

segunda-feira, 23 de maio de 2022

futuro do passado















fizemos
acordo tácito
que as mãos sujas
do acaso
moldarão nos fotogramas-
fantasmas, esmagarão
em cenas desastradas
porque estou mal vestida
e os beijos nunca serão dados

viciados
nossos corações
apostaram no dia
trinta e um
de um setembro
para nesse gramado
folhado feito outubro

seja
a plateia
pássaros, borboletas,
hibiscos, formigas,
orquídeas,
espiando de soslaio
o abraço, rosto
contra rosto

será a
gosto.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

oficina do adeus















da caixa de ferramentas
retirei o martelo, o alicate,
a furadeira, alguns pregos

chaves de fenda, um cutelo
um bisturi velho e o estilete
enferrujado.
amolei o facão.

ao lado, o botijão
vazio de meus medos,
o cavalete jazido
de desejos,
uma arruela solta
como anel.

primeiro
livrando os braços
retirei a camiseta
básica branca
uniforme.

calculei entre os seios o espaço
inexato onde você morava
e usei todos os instrumentos
para arrancar, sorrindo
entre fagulhas
o coração.

era ele ou eu ou
a desilusão.

jaz no chão
de ferro
essa peça rara.

na oficina
ninguém repara
a dor.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

yes, i will



















Queria ter um corpo jovem,
ágil. Aliás, pensando de novo:
jovem? Desnecessário! Bastaria um
saudável, pois teu olhar adorável
não vê caras nem exige perfeição.

Queria um corpo
para sacrificar no altar
dos desejos: a boca.

Sem pestanejar, de olhos
bem fechados colar
meus lábios nos teus.

Louca!

A paz, talvez excessiva,
nos faria mal. Brincadeira!

Amor e paz não sabem de excessos.
Só eu, mesma, incurável,
brincando de te enganar, mas
brincando entre nós,
ninguém mais
porque não sou passarinho,
não iria polinizar
sequer os teus próprios jardins,
muito menos beijar
flores alheias
que mal tenho tempo
para um passeio
secreto
na ponta dos dedos
dos pés: não posso acordar
teu coração solar
que sonha.

:: heart of the matter | wendy, 2008 ::