domingo, 15 de maio de 2022
trígono
terça-feira, 10 de maio de 2022
brômun
eras
numa vida à frente
meu irmão mais novo
ousado, afoito
que me protegia na passagem do rio
em cheia
que cortava e descascava as canas
em pelo
que cantava pontos de ninar
enlevo
que não via meus defeitos
se via
como também eu fazia
com os teus
relevávamo-los.
e alegrias largas
cuidavas dos meus machucados
usando ervas doces e salgadas
brincávamos no terreiro
entre as galinhas e galos
dos galhos altos das pitombeiras
me jogavas cachos
e eu penteava teus cabelos
curvos
cuidando desse amor levíssimo
onde não cabiam burlas
nem cismas, nem recados
dançávamos nus na chuva
inventávamos letras na terra
escura, desenhos, arriscávamos
saltos e não respeitávamos
nenhum muro
para colher pedras
e em noites de toda estrela
ao redor da fogueira
cochilávamos.
uma vida à frente
embora minha crença
na matéria é uma
tal que depois dos mortos
só cinzas e memória, ossos
e saudade.
:: para fábio donaire ::
:: mata atlântica ::
quarta-feira, 24 de março de 2021
mais nenhum
O último amor
explodiu a manhã
com mãos nuas
extraiu cada estilhaço
de medo
do meu corpo
com asas úmidas
estendeu-se ao sol,
despudorado.
O amor último
abriu as cortinas
tocou com antenas finas
um raio de luar
que insistia
e prometeu que à noite
devolveria,
com estrelas.
O último amor
voou pelas frestas
de dor e a todas dissolveu
na passagem
como se dissipam
brumas da aurora
ao calor do dia.
O amor último
espalhou belezas impensáveis
devolveu cores à pele seca
e fez o coração brilhar
a cada pulso
abriu um sorriso,
e cantei.
O último amor
– esse que não partirá –
alertou todas as veias
chamou meu coração
por seu nome
soprou cada grão
de areia
dos meus olhos.
O amor último
misturou a terra que sou
ao mar, fundiu as águas
o sal, o doce, é onda, rio
mergulho no insondável
mistério claro
que me navega
sem urgência.
O último amor último
– como o primeiro –
vestiu de fogo e vento
as brasas do tempo.
E não terminará.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021
alumínio e vidro
Hora da tarde
na janela
tão longe do chão.
Dois ventos sopram
um em uma direção
da rosa
outro ao contrário,
(forças do ar)
por isso as nuvens
mal deslizam
nesse encontro
sem embate
se trespassam, envolvem
dissolvem,
brancas e volumosas
umas, outras
apenas fiapos.
Há tantas cores
que não processo,
penso em certas pinturas
nas gentes capazes
– nunca entenderei como –
de transportar essa imagem
do cérebro.
Quase no cérebro
(dentro dos ouvidos)
tua música
vai e vem
como elas,
no céu.
E sou feliz
como elas,
de passagem.
domingo, 21 de fevereiro de 2021
lá e ou cá
não há nada na vida melhor que alucinar-
se
na plena consciência –
que a sombra em movimento
é o escuro
soprado pelo vento
e a pouca luz
atravessando
a cortina
não inspira
medo de ver-
te
em carne,
duplo corpo
que desconhece
fronteiras de terra
ou
mar, países
deitados, em sono, ou
junto a outro, ou
bêbado na varanda
rosto para o céu
nuvens, frio, estrelas
imaginando, ou
flutuando sobre
ruínas reais
da cidade de pedra
(lá, ou
aqui e lá ou)
mais velha que a história.
– que é tudo matéria, até o sonho, ou
não sei se acendi
a luz
para escrever, ou
estancar tanta
alucinação que escorria em mim.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
sílex
a jangada
inteira
é adaga
na coincidência
entre a água e a espuma,
o que se abre e se fecha
entre uma existência
que “é” apenas no desatingir
da retina fixa – olho
do interior –
não é, afinal,
durante
ainda menos.
o caminho, mastigado
pelo
corpo
boca
caninos
molares do mar
impermanente – desde o porto
defendido por uma lâmina
de rocha –
se foi um caminho
já não lembra.
uma unha
espúria, uma linha
de saliva ainda por escorrer,
uma gota de pus
poderia ter dado ao caminho
um nome.
o nome não me diria
algo,
nado,
respiro,
moro
mais longe
a cada dia
dos lugares estridentes
onde as correntes de perguntas
inúteis impedem que se console
a jovem que chora¹
porque se foi seu primeiro amor
ou que se compre duas maçãs
(elas retornam, pecado melhor)
uma para o menino, outra para ti².
tenho aprendido
bem
devagar
que
há mais estrelas
na dança dos dedos
que acompanham o estender
dos braços (o peito aberto, desimportância
do coração errado)
como asas das notinhas
pequenas que pulam das cordas³,
há mais de vida
nas mansas borboletas de fogo
tão meninas
que abandonam a fogueira
e se desmancham no ar
“já”
são o céu4.
tenho aprendido
bem
devagar
que
há mais
entre o livro e a cadeira:
o retorno do que chamam
sentimento,
e se ele é estilete
corta a-
penas para
proteger.
:: ponta de flecha ::
:: lendo esporas ::
---------------------------
¹ barco de papel
² doña maría
³ la novia tierra
4 cartas de amor que se queman
segunda-feira, 23 de novembro de 2020
sorte
o rato
menor que a vida
e menor que a morte
tem, muito mais que o homem
a sorte de ter nascido:
por estar vivo
e não poder sabê-lo.
o homem
maior que a vida
e maior que a morte
tem, menos que o gato
a sorte de ter nascido:
por poder matar o rato
e não poder comê-lo.





