eras
numa vida à frente
meu irmão mais novo
ousado, afoito
que me protegia na passagem do rio
em cheia
que cortava e descascava as canas
em pelo
que cantava pontos de ninar
enlevo
que não via meus defeitos
se via
como também eu fazia
com os teus
relevávamo-los.
e alegrias largas
cuidavas dos meus machucados
usando ervas doces e salgadas
brincávamos no terreiro
entre as galinhas e galos
dos galhos altos das pitombeiras
me jogavas cachos
e eu penteava teus cabelos
curvos
cuidando desse amor levíssimo
onde não cabiam burlas
nem cismas, nem recados
dançávamos nus na chuva
inventávamos letras na terra
escura, desenhos, arriscávamos
saltos e não respeitávamos
nenhum muro
para colher pedras
e em noites de toda estrela
ao redor da fogueira
cochilávamos.
uma vida à frente
embora minha crença
na matéria é uma
tal que depois dos mortos
só cinzas e memória, ossos
e saudade.
:: para fábio donaire ::
:: mata atlântica ::






