domingo, 17 de maio de 2009

roda gigante















sou seu parque de diversões
você brinca comigo, joga as palavras
que eu digo de volta com mais força
você balança no meu coração
salta de um sim para um não
e escorrega bem na hora
mas você não está com essa bola
toda: seu revólver de plástico
enferrujou, as rodas do seu skate
estão travadas
suas chances você não vê
mas vão ficando cada vez mais raras.
você vai se esconder
mas não vou lhe procurar,
não precisa mais correr
porque já estou parada,
se prepare pra chorar
porque já estou cansada
e vou fechar o parque
de suas diversões
e jogar a chave
na privada.

sábado, 16 de maio de 2009

me leve















o amor é da ordem
do raro do absurdo
do secreto. o amor
é sempre um panfleto
porque é tão igual.

e porque os passarinhos
delicadamente depositam
em lugares distantes
sementes.
e porque algumas flores nascem
dentro da gente sem querer
em certos dias.
e porque melodias nos tomam
de assalto transportam
nossos sonhos como se o espaço
não fosse. nem o tempo.

só mais um coração
o último. último trem
último apelo. depois disso
nunca mais para sempre.
apenas mais um extremo
e ardente olhar. enfeitiçado
o coração escolhe e escolhe
estar batendo. [claro que
para sempre e nunca mais
é errado. se minto e dramatizo
se brinco e se pratico
o risco das palavras
é só porque você me inspira
a sacudir o mofo das verdades.
não me leve a sério me leve
a sério me leve. me leve.
e nunca mais para sempre
me traga. amor.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

78 rotações















disco novo
ouço
cantora nova
enquanto o colírio alcança o fim do olho
(a velhice começa a me cegar).

me pergunte que eu não saberei responder
porque acredito que num logo em breve
estaremos lado a lado
escutando o hino de duran.

eu cato palheiros, mas encontrei você
não é a primeira nem última agulha
mas estou sempre apostando.

por quê?, me pergunte e eu respondo:
porque sonho.

desde sempre, desde que me lembro
invento amores-cazuza
que não se podem consumar.
curiosidade? mato: melhor assim,

porque assim tenho o melhor
o mais escolhido, o exatamente
desejado. e se permaneço distante

se no máximo desses sentimentos
palavras são o que extraio
tem também o seu sorriso
para provar que acertei
mais uma vez, e quem sabe
entre um talvez e um dia
um buarque, um gullar
uma thais.

além do mais é mais fácil
sem toalha molhada em cima da cama
sem pasta sem tampa e a gosma branca
sem defeitos sem traição sem medo
sem supermercado sem brochada
sem dúvida.
sem dúvida.

além do que é o que eu posso
contra a distância e o desconhecer
contra a morte que pode ocorrer
contra o ciúme em longa metragem
contra as possibilidades de todo ruim.

então posso dizer que amo
com firmeza com sentido
com a mesma libido que existiria
com a boca em seu sorriso
com o cálice com o mar
com seus dentes em minha língua
com a rima e a canção
com o corpo no tapete
com o corpete e o mundo antigo
78 rotaçoes, beibê.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

descansa















ipês florescem na boca da manhã
fresca, verão de brejo
breve ainda enquanto novembro
tímido o dia esquenta
meu sentimento aguarda
no sinal vermelho,
o viaduto suspenso
é imagem de mim.

quando em que dia
me perguntarás pelo meu
amor?

quando o sentido
do que sentes se apresentará
somente e nu entrando
nos meus olhos?

teu olhar demora a escolher
partir e chora porque
ficar é impossível.

não quero que nos venha
um dia de deuses e abraços
não quero que a senha
de nossa existência em comum
seja um pecado, um deslize
um anzol, uma caixa lacrada.

quero que a vida exploda
e dessa granada uma farpa
me atinja e seja ela
o convite que nos falta.

se o contive, a despeito
e malgrado meu desejo
entenda: não tenho ofertas
nem problemas, não tenho
remendos e sou partida,
não lamento ontem
nem hoje e o futuro
inexiste até o futuro.

sou dura como a água
e sobre a pedra
me desfaço em imagens.
cresço quando queres
que me guarde e desapareço
nos sustos que te prego.

sem sossego, sossegada
persigo as montanhas mais altas
e sinto a brisa e piso a areia
das praias e estou nas florestas
e nas avenidas alteradas
sou o próprio trânsito
do teu sangue, e não percebes.

que se dane então toda a escritura
que se parta ao meio meu coração
pintado.

os ipês florescem na manhã
sem mágoas. e a vida continua
sem esquadro. a esperança
é um lago e o monstro
sou eu emergindo loucaness.

descansa, descansa, os ipês
florescem, os sóis, um novo
a cada dia, se sucedem.
descansa, que os ipês
feito meu amor
florescem. e nada podes fazer.

terça-feira, 12 de maio de 2009

mosca















incansável na vidraça
bate e volta
elástica
a mosca.

que haverá de tão doce
depois da janela?

que fruta, que açúcar
esperam por ela?

doçura de vento?
pedaço de voo?

segunda-feira, 11 de maio de 2009

já é















pipocas numa grande panela, estourando
muitas crianças chegando à praia na manhã de sol
a mesa cheia de amigos brindando a alguma vitória
o abraço de quem voltou do exílio
ver a neve pela primeira vez
passar no vestibular
ter um filho bem esperado
a recuperação completa de uma doença
a doçura do primeiro beijo
sentir o vento batendo no rosto
olhar o céu estrelado de um lugar onde ainda não há eletricidade
é assim, é como assim, ouvir tua voz
meu coração inundado de algo que não sei descrever
minha alma cantando uma canção que nenhum humano poderia compor
a divindade explodindo nos meus olhos, para dentro
as células rejuvenescendo, se regenerando
a chuva fazendo crescer o cheiro da terra
o mais belo dos pores de sol
a natureza intacta
a cachoeira gelada
o horizonte na estrada
tudo que de mais simples existe e resiste
a tudo, às palavras rebuscadas, aos versos elaborados
ao cinismo, ao enfado, ao tédio
que é capaz de se recompor, fênix, super-herói
rabo de lagartixa, estrela-do-mar, nietzsche, borges
eterno retorno que um afirma e outro nega
que é piegas e ninguém se importa
boca aberta, porta aberta, abraço
flecha que não fere, bala que não mata
sapato que não gasta
pão multiplicado, ruma de milagre
tudo que é espontâneo e infinito
inacreditável assim como
é o amor que sinto
assim como uma flor desabrochando com orvalho
primeiras horas do mundo, nossa odisseia
todo dia, todo novo dia.
e o que parece a mais.
gotas de brilho
sonhos sorrindo
o grau exato de álcool no sangue
a avalanche de uma gargalhada
os sete véus que vão ao chão e não revelam nada
o oculto que permanece
tudo que desentristece
os cabelos longos cachos de um menino
a música dizendo da mesa farta e dos destinos
distintos e felizes de shangri lá à palestina
os dons infinitos da menina
o samba o reggae o funk punk delicado
os dois espelhos gêmeos e vazios
as luzes grandes e redondas
as ondas de silêncio e de perfume
o olhar comendo o mar e os mistérios
os punhados de afetos atirados
os punhos que jamais serão usados
os medos que serão sempre deletados
em última instância, primeira instância
tudo que é arriscado e perpetrado
sem maiores e dolorosas consequências
as urgências adiadas e os afagos
como em mim tudo, assim
e mais ainda, despalavreadas
despalavreados os sentidos
são só olhos, boca, narizes e ouvidos
as mãos tateando o futuro em braile
um presente cego de amor.
seja o que for que seja assim
como, e continue. por quanto e como
assim se for, indefinidamente,
até que tudo aguente e se sustente
pela imensa força do que há. já é.

domingo, 10 de maio de 2009

pessoa secreta















pudesse e seria
secreta pessoa a ir
com o vento toda vez
que ele arrastasse do teu olho
uma sombra, deixasse um nome
sem nome em tua boca, arrepiasse
o desejo em teu ouvido.

nunca porém me foi dada
mágica nenhuma de voar
ou senão não
estaria onde me ponho: puro
papel, palavra sem seda, mel
coagulado que não roça teu
sexo, ao contrário: nem chego
a escrever um poema
que te diga, de fato
qualquer aviso de que o amor
mesmo escondido e não feito
permanece e percorre o espaço
todo, feito o vento.

pudesse, e seria...