terça-feira, 24 de maio de 2022

cores do tédio











Autêntico pranto
fruto inédito do tédio
insípido suco de vidro
claro e cortante colírio:
inútil remédio.

Idêntica gota
pérola gêmea do ódio
dor do iodo na carne
lágrima de grave saudade:
suave minério.

:: tedious | jiawei fu, 2020 ::

segunda-feira, 23 de maio de 2022

futuro do passado















fizemos
acordo tácito
que as mãos sujas
do acaso
moldarão nos fotogramas-
fantasmas, esmagarão
em cenas desastradas
porque estou mal vestida
e os beijos nunca serão dados

viciados
nossos corações
apostaram no dia
trinta e um
de um setembro
para nesse gramado
folhado feito outubro

seja
a plateia
pássaros, borboletas,
hibiscos, formigas,
orquídeas,
espiando de soslaio
o abraço, rosto
contra rosto

será a
gosto.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

oficina do adeus















da caixa de ferramentas
retirei o martelo, o alicate,
a furadeira, alguns pregos

chaves de fenda, um cutelo
um bisturi velho e o estilete
enferrujado.
amolei o facão.

ao lado, o botijão
vazio de meus medos,
o cavalete jazido
de desejos,
uma arruela solta
como anel.

primeiro
livrando os braços
retirei a camiseta
básica branca
uniforme.

calculei entre os seios o espaço
inexato onde você morava
e usei todos os instrumentos
para arrancar, sorrindo
entre fagulhas
o coração.

era ele ou eu ou
a desilusão.

jaz no chão
de ferro
essa peça rara.

na oficina
ninguém repara
a dor.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

yes, i will



















Queria ter um corpo jovem,
ágil. Aliás, pensando de novo:
jovem? Desnecessário! Bastaria um
saudável, pois teu olhar adorável
não vê caras nem exige perfeição.

Queria um corpo
para sacrificar no altar
dos desejos: a boca.

Sem pestanejar, de olhos
bem fechados colar
meus lábios nos teus.

Louca!

A paz, talvez excessiva,
nos faria mal. Brincadeira!

Amor e paz não sabem de excessos.
Só eu, mesma, incurável,
brincando de te enganar, mas
brincando entre nós,
ninguém mais
porque não sou passarinho,
não iria polinizar
sequer os teus próprios jardins,
muito menos beijar
flores alheias
que mal tenho tempo
para um passeio
secreto
na ponta dos dedos
dos pés: não posso acordar
teu coração solar
que sonha.

:: heart of the matter | wendy, 2008 ::

domingo, 15 de maio de 2022

trígono















debaixo do barro
dois pedaços gêmeos
de pedra que juntados
em minha palma
são um coração:
a mão, o pulso.
 
sobre a pele
incontáveis células soltas
revoltas, crescendo
em meu corpo
são um sinal:
o osso, o músculo.
 
entre o medo
e o desejo, exaustos,
tudo o que você
não quer de mim
persisto em oferecer
porque não sei fazer
de outro jeito.
 
no céu o triângulo, 
– absurda madrugada –

enquadra os efeitos
dos olhos abertos
a poder de nada.
 
a perder de vista
rolam as batidas
do meu peito
estrelançado:
cometas, planetas,
ventrículos
e um vazio
ab
negado.

terça-feira, 10 de maio de 2022

brômun













eras
numa vida à frente
meu irmão mais novo
ousado, afoito
que me protegia na passagem do rio
em cheia
que cortava e descascava as canas
em pelo
que cantava pontos de ninar
enlevo
que não via meus defeitos
se via
como também eu fazia
com os teus
relevávamo-los.

em tristezas estreitas
e alegrias largas
cuidavas dos meus machucados
usando ervas doces e salgadas
brincávamos no terreiro
entre as galinhas e galos
dos galhos altos das pitombeiras
me jogavas cachos
e eu penteava teus cabelos
curvos
cuidando desse amor levíssimo
onde não cabiam burlas
nem cismas, nem recados
dançávamos nus na chuva
inventávamos letras na terra
escura, desenhos, arriscávamos
saltos e não respeitávamos
nenhum muro
para colher pedras
e em noites de toda estrela
ao redor da fogueira
cochilávamos.
 
meu irmão mais novo
uma vida à frente
embora minha crença
na matéria é uma
tal que depois dos mortos
só cinzas e memória, ossos
e saudade.
 
meu irmão mais velho
meu irmão de hoje
sem nenhum mistério
sem magia ou máscara
revelaram as cartas
disse o som do búzio
runa confessada
a forquilha aponta
para o exagero: não
me importa, importa
que a palavra veio
e não vou negá-la.

:: para fábio donaire ::
:: mata atlântica ::

quarta-feira, 24 de março de 2021

mais nenhum


















O último amor
explodiu a manhã
com mãos nuas
extraiu cada estilhaço
de medo
do meu corpo
com asas úmidas
estendeu-se ao sol,
despudorado.

O amor último 
abriu as cortinas
tocou com antenas finas
um raio de luar
que insistia
e prometeu que à noite
devolveria,
com estrelas.

O último amor
voou pelas frestas
de dor e a todas dissolveu
na passagem
como se dissipam
brumas da aurora
ao calor do dia.

O amor último
espalhou belezas impensáveis
devolveu cores à pele seca
e fez o coração brilhar
a cada pulso
abriu um sorriso,
e cantei.

O último amor
– esse que não partirá –
alertou todas as veias
chamou meu coração
por seu nome
soprou cada grão
de areia
dos meus olhos.

O amor último
misturou a terra que sou
ao mar, fundiu as águas
o sal, o doce, é onda, rio
mergulho no insondável
mistério claro
que me navega
sem urgência.

O último amor último
– como o primeiro –
vestiu de fogo e vento
as brasas do tempo.
E não terminará.

:: joan miró | el comenzament del dia, 1968 ::