domingo, 31 de maio de 2015

redução



















acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo

debaixo de você há um
debaixo desse um, o chão
o sangue, apenas pancadas
em volta
a sirene insone
as grades, os maus tratos
o instituto médico legal
a vala comum
e nenhum nome

quase sempre a mesma
dor do irmão, da mãe ou não
quase sempre a mesma cor
o invisível coração
que, quem sabe o que passou?

recolha-se ao seu torpor
porque clichê é chato

quem sabe o que se passou?
se horror, se frio e fome
se ria a gosto quando atirava
se tinha medo, se tinha falhas
se falava grosso ou empostava
quem se importa a ponto de
calado, rente ao asfalto
deitar-se de braço dado
com o corpo, grande,
pequeno, de que tamanho?
menor?
.
..
...

acima de você há um
acima desse um tem outro
continuando assim até o topo
afunila-se a hierarquia da bala
que desce depois de farda em farda
até o cano, até o fogo.

domingo, 21 de dezembro de 2014

replicantes



















não, não podemos.
nossos corpos se destruiriam
porque parto 
ao
teu encontro
e partes 
ao 
meu encontro
com a velocidade e a fúria,
com a predestinação de androides.

não, não devemos.
meu afeto, teu afeto
são duas forças cruas
e sangram e ardem
como se tivessem carne.

sábado, 8 de novembro de 2014

roubando barthes














longa espera já começada
em pequenos sonhos de quem
dorme e acorda, dorme
e acorda, sobressaltozinhos.

no sonho se antecipava a espera:
signo do que ama e eternamente olha
para a porta, torce
o pescoço a cada ranger de carro,
se esforça para ouvir sapatos
subindo
e descendo
escadas, e se enrosca
nos fios de telefone procurando
sinais elétricos.

longa espera já começada
no olhar que não descansa,
no cérebro sobrecarregado
funcionando ininterruptamente:
erres fazendo barulho rrrrrrrrrrrrr

é quase uma trovoada, a espera: nuvens
chumbando o céu, se juntando pesadas
para a chuva. queria esperar
desmaiada e nua, no meio
de uma lufada
de vento.
 
"Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero."
O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar
aquele que não espera; tento me ocupar com outra
coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre
perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso,
pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal
do amante nada mais é que: sou aquele que espera.

[...]

Um mandarim estava enamorado de uma cortesã.
"Serei tua, diz ela, quando passares cem noites
me esperando sentando num tamborete, em
meu jardim, sob minha janela." Mas, na
nonagésima nona noite, o mandarim se levantou,
pôs seu tamborete debaixo do braço e partiu.
 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ressurreição














dei por morto meu desejo.
escrevi, sem medo, na lápide:
“nirvana”, e fiz tocar a banda.

anos serenos e vazios
dormiram em minha cama.

solto, desarmado
o coração sem vigilância
aceitou seus olhos
onde não havia ou há
intenção nem glória.

agora, fantasmagórico
o desejo dorme comigo
e acorda.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

jogos mentais














[para ME]

jogos mentais
a fauna e a flora
peças desiguais
desenhamos a demora
e o risco que
aflora
nos atrai.

desanimais
super-humanos
seres
voz fatal
permanente linguagem
agindo à margem
agindo atrás.

em repetição alguém vê o que vejo
a paisagem é parte do desejo
mas a última jogada falha
e os dias
novamente
são banais.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

para jotahah



















no meio da tarde
fotografo o céu

são tantos lindos azuis
que a dor de estar viva, morre
por, no mínimo, uns dez blues.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

a solidão e outros anos















[para lia fook shiam]
 
sou feliz quando posso ver
o rio magdalena correndo
nas águas cristalinas de gabriel
entre imagens longínquas das colômbias
desenroladas com um tapete árabe.

sou também quando ouço
o trovador, menestrel
que abandonando o feudo há cem anos
canta notícias de alaúde e acordeon
tangendo-se cigano através das serras.

e as selvas pantanosas me dão arrepios
um frio barroco e agudo
- agulha nas costelas -
que se enterra em meus músculos
enquanto percorro (quase sem geografia)
tensa e de memória
a aldeia reconhecível de macondo.