Nem notei o quanto minhas unhas estavam grandes e sujas.
Notei como parecia fora de mim.
Nem notei que fui. Nem notei que vim.
O que restou? Grãozinhos de areia no ouvido direito. A onda me levou.
O que restou? Já disse: grãozinhos de areia no ouvido esquerdo.
E um mar de coisas que ainda tenho pra dizer.
O que restou? Um ombro da t-shirt cheirando a você.
E eu me cheirando na viagem de volta.
O cheiro do café que penetrou o sofá.
As latas e latas e latas de cerveja.
As piolas e piolas e piolas de cigarro.
O que restou? Grãozinhos de sua risada nos meus dois ouvidos.
O carro sujo. As pernas cansadas.
E a impossibilidade de tirar as imagens de dentro de mim.
É. Não restou muito. Tudo ainda está l-a-qui.
Restou meu castelo inexpugnável e sandálias perdidas.
Chaves perdidas, isqueiros perdidos.
Uma toalha usada e desodorante.
Dois universos em choque, e explosão e mais uma estrela recém-nascida.
Em alguns milhões de anos talvez essa luz me atravesse.
O que restou? Um prato inteirinho de camarão empanado
e a lembrança longínqua de um abraço. Agora só falta eu voltar pra onde
eu era
eu era
eu.
Agora só falta minha alma aterrissar na varanda.
O que restou? O de sempre. Nenhum começo.
O que restou? A pergunta insistente e a ressaca.
Uma roupa vermelha. Uma roupa amarela.
Seus olhos bêbados de... de quê mesmo?
Agora só falta eu morrer de novo.
Porque preciso renascer.
Restou o céu daqui e o sol sozinho.
O plano e o ponto............................................
[como sempre, me fez aprender algo fabuloso].
O que restou? Não restou nada.
“Cala a boca!”
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
por isso tanto onda: adivinhei
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
this is the sounds...
propaganda política: um carro de som.
imbecis a bordo: um carro com som de estrondo tocando música que não gosto.
dezessete pardais chilreando.
minha respiração.
o parque de diversões: mesmo cd há meses e crianças gritando.
o freio no asfalto.
sete televisões ligadas em canais diferentes.
buzina.
a terra tremeu: assombro, barulho de avião caindo em cima de nós.
galhos da roseira balançando e a voz do vento.
fones de ouvido, bethânia.
telefone tocou.
impressora imprimiu.
um chup no cigarro: barulhos.
goles de cerveja. glut. glut. glut.
arroto. xixi. descarga.
gatos falando.
o óculos subindo nas orelhas: barulhinho.
silêncio. puro silêncio no msn. nenhum tunc.
as palavras roncam em seu sono diabólico, roncos assustadores.
e no sonho tem alguém cantando.
“alguém cantando longe daqui
alguém cantando ao longe, longiiii...
alguém cantando muito
alguém cantando bem
alguém cantando é bom de se ouvir”.
silêncio? nenhum.
[olha, ansiedade, nenhuma. oficialmente, não lhe persigo. você não me segue.
olha, tudo entre nós...]
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
cajuína
:: aspas ::
A pureza é uma visão das coisas colocadas em lugares diferentes dos que elas ocupariam, se não fossem levadas a se mudar para outro, impulsionadas, arrastadas ou incitadas; e é uma visão da ordem – isto é, de uma situação em que cada coisa se acha em seu justo lugar e em nenhum outro. Não há nenhum meio de pensar sobre a pureza sem ter uma imagem de “ordem”, sem atribuir às coisas seus lugares “justos” e “convenientes” – que ocorre serem aqueles lugares que elas não preencheriam “naturalmente”, por sua livre vontade. O oposto da “pureza” – o sujo, o imundo, os “agentes poluidores” – são coisas “fora do lugar”. Não são as características intrínsecas das coisas que as transformam em “sujas”, mas tão-somente sua localização e, mais precisamente, sua localização na ordem de coisas idealizada pelos que procuram a pureza. As coisas que são “sujas” num contexto podem tornar-se puras exatamente por serem colocadas num outro lugar – e vice-versa. Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados na mesa de refeições. Restituídos ao monte dos sapatos, eles recuperam a prístina pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no prato do jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o travesseiro.
Há, porem, coisas para as quais o “lugar certo” não foi reservado em qualquer fragmento da ordem preparada pelo homem. Elas ficam “fora do lugar” em toda a parte, isto é, em todos os lugares para os quais o modelo da pureza tem sido destinado. O mundo dos que procuram a pureza é simplesmente pequeno demais para acomodá-las. Ele não será suficiente para mudá-las para outro lugar: será preciso livrar-se delas uma vez por todas – queimá-las, envenená-las, despedaçá-las, passá-las a fio de espada. Mais frequentemente, estas são coisas moveis, coisas que não se cravarão no lugar que lhes é designado, que trocam de lugar por sua livre vontade. A dificuldade com essas coisas é que ela cruzarão as fronteiras, convidadas ou não a isso. Elas controlam a sua própria localização, zombam, assim, dos esforços dos que procuram a pureza “para colocarem as coisas em seu lugar” e, afinal, revelam a incurável fraqueza e instabilidade de todas as acomodações. Baratas, moscas, aranhas ou camundongos, que em nenhum momento podem resolver partilhar um lar com os seus moradores legais (e humanos) sem pedir permissão aos donos, são por esse motivo, sempre e potencialmente, hóspedes não convidados, que não podem, desse modo, ser incorporados a qualquer imaginável esquema de pureza.
:: aspas ::
zygmunt bauman, o mal estar da pós-modernidade.
meu neurônio claro que não
Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo.
À brusquidão se segue sem intervalo grande gargalhada: o bichinho falante (merdalhim – ouvido direito; merdalhão – ouvido esquerdo, agora, versão 2010 mais que estereofônico. tem até propaganda de carro com os bichinhos falantes e alados, diabolim à esquerda, anjelim à direita. crofamas e nópios. tentativa de explicação: livro anterior: “pra te comer melhor”, de eduardo gudiño kieffer, ana palíndroma e severin personagens – o título significa ainda mais do que você está pensando. será que são lembranças-de-verdades ou estou inventando?)
Pinóquio só tinha merdalhim falante. A consciência é um grilo, mesmo. A gente fica grilada. As primeiras histórias que escutamos ou lemos parece que não largam mais. Complexo de Cinderela, Peter Pan e Pinóquio. Cada qual com sua respectiva análise psicanalítica. E branca de neve, e os três ursos-porquinhos? Há de havê-los dentro de lacanfreudjungetc. Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. Sujíssimo. Porque talvez eu queira quem você não quer.
Talvez eu queira quem não quer você. cazuza não diz nada vara a madrugada procurando por mim. A sujidade vem das incertezas. A pureza é igual à certeza. Sou misturada. Hitler que me perdoe. Mais um livro eu lembro, bem recente, bauman e a história dos sapatos na mesa e da omelete no travesseiro. cada qual no seu quadrado. funkspunk. sertanejobrego. Bach, tchê!, será que estou triste??!! ... !!! CLARO QUE NÃO. Isso não mais existe em mim. A tristeza não tem mais serventia. Noites de insônia são opcionais. Comprimidos de opção. Dias de angústia e existencialismo barato também são facultativos. A gente escolhe. 0 ou 1. uma cadeia de zeros e uns infinita é nossa vida. não é primeira vez que penso nisso. Não será a última.
Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. Existem pessoas mais inteligentes que outras? CLARO QUE NÃO. a inteligência é tão somente a capacidade de pensar e nisso todos somos iguais. Tão iguais como na morte. Se escolhemos pensar sobre isso ou aquilo. Se escolhemos não pensar sobre isso e aquilo. E OU. O e convergente. O ou divergente. Apenas as vidas e as realidades ilimitadas que se apresentam a cada nanosegundo e a gente sem pensar toma o rumo daqui, Dali, dacolá. Pessoa já não me entende. Deixei de entender pessoa. Joguei com a água o balde e augusto dos anjos. Agora só Diadorim. Daforim. Que diferença faz? Tudo é tão prosaico. Prozac.
Aos exatamente 89, morrer. Sono profundo é a morte. Um olhar de desistência meu todo inclinado e uma certeza brusca: estou jogando sujo. CLARO QUE NÃO?
:: dome neuron | jburkardt ::
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
no prelo
estou prensada entre a luz e a escada
no corredor disparo as pernas
observo o número em cada porta:
e se eu bater na porta errada?
e se a sorte me atender?
estou prensada entre o erro e a memória
na praia enchuvarada calco o calcanhar
com força e a pegada desaparece na espuma:
e se a onda não me levar?
e se a morte me entender?
estou prensada entre a paranoia e o enfado
no alto do prédio observo o trânsito parado
e me sinto congestionada: e se houver resposta?
e se a canção tocar na hora certa?
estou prensada entre a repetição e a saudade
na estrada acelero os nervos de borracha
calculo quanto falta para eu não chegar:
e se eu for por um desvio nas nuvens?
e se eu andar para trás acho você?
estou prensada entre um zilhão de bytes e o destino
no teclado conto os dedos nas letras
encalacro meu veneno no anel de fumo:
e se eu não menti nunca?
e se for maior ainda do que digo?
mas veio um martelo e mudou tudo.
quebrou o tempo em mil pedaços de vidro.
e agora estou livre, nada entre mim e a parede.
já não estou achatada, esmagada ou espremida.
desimprensada sigo dormindo, pássaro no galho.
nada me ergue, nada me submerge
e se o encanto for verdade?
estou amada.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
com açúcar, sim
se for ana, sim se for raquel
sim, sendo gertrudes, patrícia ou vivian
se for ana, sim, ana estrela
e que a hora dela custe a chegar,
que nada atropele se for joana.
se for clarice, se for maria, se for andrea.
que seja um sentimento macabéico
em simplicidade e pureza.
que seja maquiavélico, uma vez a cada dez anos
porque você gosta de emoções veladas.
que seja estratégico, porque sua inteligência
adora labirintos.
sim, se lhe ins-pirar. sendo para o voo
de suas palavras na noite digital
sendo para a vazão da poesia.
se for cássia, sim. sim, se for adelaide.
que seja ameno e doce ao lado das futilidades
e profundo como os mares que insiste em desenhar.
que seja sonho, e mais ainda que seja realidade e sonho.
sim, se for a paixão.
sim, se for segundo e primeiro as alegrias
sim, se tiver alguma dor pra marcar as fronteiras
e identificar a vida.
sim com sangue, mas correndo nas veias
bem quente e veloz como lhe apraz.
sim. se tudo chegar bem devagar
e forte.
sim para a mulher que você ama
sim para o amor que lhe proteja
sim para o suor dos corpos
sim para os diálogos gozosos
sim.
se for para e por seu sorriso, sim.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
farpas
um bom bocado de grotesco me caiu da boca.
pantragruélica, me vesti de zebra, de tigre, de onça
e passeei pela savana devastada, me escondi embaixo
da mesa posta e mastiguei mais dois bons bocados de avesso
do sublime. em meio à crise de rinite papagaios assustados
gritavam palavrões para o pirata. o navio partiu sem mim
fiquei no cais escancarado da baía turva.
peixes cantarolavam como em poema de lewis carol
e passeei pelo deserto colorido ao lado das lucys:
uma no céu, outra, cadáver. minha roupa feita de diamantes
somente era pesada, estranhamente não brilhava
e me cortava. esfaqueada por ausências inexplicadas
eu passeei por toda a espera que se possa imaginar
até cansar, até desbotar, até que a falta de senso me fizesse urinar
no mar e transbordar os rios de asfalto que nenhuma estrada
me leva a você. o entendimento se fez raro e momentâneo
apagando, piscando, como uma árvore de lucidez e presentes
caros. mas tudo que era para ser dito o foi. e foi de vez.
embora insuficientemente declaradas as palavras vazaram
de minha boca enquanto um bom bocado de grotesco
sujava a túnica branca de rabelais. os retratos e e-mails
não combinavam. tecnologias macabras nos afastavam
mais e mais. não havia pares. o número um dançava
mastigando êxtase e a noite não nascia calma. os dias
passeavam pela morte afora: eu só queria lhe assustar
com sombras infiltradas na parede. datas erradas no calendário
mitigavam a sede de passado. por que nunca lhe vi?
por que mora longe? por que os papéis rolam soltos na calçada,
anúncios de promoções, itens inúteis?
no supermercado particular de minha alma as gôndolas vazias
e sujas ainda exibem o cartaz com meu preço. e longe de fazer
bonito lanço saliva enquanto mastigo o último pedacinho
de grotesco: para sempre, amor.






