Emoção de agosto
último vento para o menino
e seu papagaio
que quase ave
era brinquedo novo.
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
certas tristezas da infância
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
stoned
desta vez
os livros chegaram
e sequer li os prefácios
pois os títulos bastam
pra me arrebatar
eu poderia acusar-te
de sequestro
senão a ti
tua palavra
roubada onde entrei
feliz como se não fosse
essa uma dita má condição
maldita então
ou há alegria na entrega
sem reservas ou pré-condição?
poderia explicar como deslizo
nas referências aos palhaços
as famas que me levam
craseadas ou sem
pros braços de louie satchmo
"argonauta sem tréguas"
como eu disse de veloso
uma vez em canção
que finalizei assim:
"terra pra que te quero?"
mas não
prefiro
enterrar minha cabeça
no forno em companhia amada
outro deslize e caio soprada
pelos ventos alísios
na cornucópia de ópio.
da literatura dos tristes fins
ficam-se-me os dedos
sem memória de cortes
que papéis afiados deixam
carpo metacarpo falanges
de desarranjos tortos
toda a vida sem rima
porque não há mesmo
solução
querido mundo.
sshhh...
silêncio!
o sol está vindo
ouça
e ainda resta outro
porvir
via estafeta
ele trará
desbastamentos
do tigre assíncrono
devorador de si
do fogo
eterno
que desbasta o campos.
espero.
e que não seja o último.
:: louis armstrong | world-telegram staff photographer, 1953 ::
domingo, 7 de agosto de 2022
pecado original
todo dia meu amor cresce
edifício em construção
tem seus mortos caídos
dos andaimes e estruturas
de aço.
mas engraçado
à noite
enquanto dormem
engenheiros pedreiros e arquitetos
ele também cresce
um olhar mais perto
revela tijolos feitos
de mistério colados
com argamassa que é mistura
de desejo e sorte.
:: manoscritto_B | leonardo da vinci, 1488-90 ::
80 anos de caetano veloso
♫
Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
♪
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
terça
a barra do horizonte
aqui não como essa
consome a madrugada
as montanhas nunca foram
tão escuras e longes
ou talvez sim
nuvens leves
outras quase imóveis
neblina e quero uma estrela
digo teu nome
nome nome
dá-me uma estrela
a esperança de pedra
espera na janela
o universo dilatado
meus olhos ora fechados
ora atravessados
pela espiral dos ventos
desinstalada coruscação
em nesga breve
vênus não tem pálpebras
mas brilha um décimo
em diamante
sem hesitar peço
estrela planeta
dá-me um poema
para nome nome
esse se veio
não corresponde
ao que te quero.
:: venus and the moon strike a pose | petr horálek, 2016 ::
sábado, 30 de julho de 2022
oceânide
tomaste a cabeceira de assalto
se perto dela durmo
nela tu moras
como não sei muito chorar
mas dizem ser preciso
no antessono
abro-te como bíblia
oráculo corto palavras
romã regrido
inverto-me
vértebras estralam
ouço sons de flauta
apesar de tudo
sempre tem vindo
nenhuma lágrima
porque não sei chorar
pouco nada
mas vejo
um rio de gotinhas
nos versos auschwitz
pois muitos teus vêm de lá
ou das cercanias
e anda o relógio
da estação treblinka
o tempo das 3 horas
que não se sabe
madrugada ou tarde
se move por fim
e o espéculo retrato das dores
de doris e todas e todos
brilha doido doído
moderno pós e antigo
como as guerras
diodo emissor de luz
sigla LED em inglês
light-emitting diode.
quinta-feira, 28 de julho de 2022
redondo
A curvatura do vulcão,
a redondeza da esfera,
a bola de gude, a roda
arada da bicicleta,
a base ampla do farol,
as bordas da bacia, a concha,
a tampa frouxa de um bueiro,
as argolas do mistério,
anéis de fumo sem cinza,
moedas em cada esquina,
compasso que mira o círculo,
as almas e o esquisito
das auras brilhando no escuro
os olhos da onça, os furos
por onde entraram as balas,
a Terra, a Lua que desponta
todo e qualquer planeta,
a cor que rodeia o seio,
a forma do bastidor,
o caroço do abacate,
os zeros, os ós, o ninho,
o laço no ar buscando
o cavalo, o vinil antigo,
a luz quando encontra
o espaço, o tempo
que se contorce
buscando de volta
o começo, a boca aberta
do sino, os aros dos óculos - finos -,
o sol por si só aceso,
o centro do girassol,
a forma do desatino,
o jeito do amor no peito,
o oráculo de cristal,
o prato de ouro, a cama
feita do motel, os lábios
abertos em grito,
a sombra do carrossel,
a cobra enrolada, o giro
que descreve no ar o véu,
o som que solta o pandeiro,
a fórmula do cansaço,
a vida encontrando a morte:
cada qual no seu quadrado.
segunda-feira, 25 de julho de 2022
tremendo
Levei o dia a tremer de amor
como se algo
(não faço ideia do quê)
estivesse acontecendo
(não imagino onde).
Sim, o amor é invenção
dos individualistas burgueses,
sentimento liberal,
ilusão que não dura seis meses,
construções do romantismo,
de verter até o suicídio,
de morar em gueto
infestado de vícios
e escuridão. Sofrimento
que não vem de fome
de comida, coração de quem tem
onde morar e é está bem servido,
servida. Amor que, Carlos, filho nosso,
é assim mesmo, claro e enigmático.
O dia me levou assim:
estômago na garganta
borboletas de febre na fronte,
agitação de bandeira de renda,
suores inexplicáveis:
talvez não seja amor,
seja vírus: amor de pandemia.






