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Para quem não sabe nada
não tem de mim geografia
não ouviu a minha toda história
assim como eu até duvida
pensa que eu só quero a glória
mas sempre lembro é do peninha
e do morcego vermelho
infância às vezes disneysíaca
sem ponto, vírgulas, exclamações
nas chuvas o canal enchia
e a boia era as entranhas
de um velho pneu
sou gibi, sou fada, sou padrinho
sou o balão com a fala acima
na cabeça trago pouca rima
e tenho um pé quebrado
na garganta, um sobrado
feito de esperanças
um galpão de gorda estripulia
galinheiro de maçãs e milho
milharal de migalhas, farinha
de mandioca, tapioca
carne de sol que seca à lua
banho de cuia e pesadelos
sou mata cheia de espinhos
sedosos como algum cabelo
sou crespa como pão de trigo
que no fogão a gás se queima
mas só se o tempo se extermina
facão e lima, limoeiro
sou quase uma caipirinha
a matutar com a espinha ereta
os porquês do coração tranquilo.
Para quem não sabe de nada
assim como eu também não sei
meus parabéns, como admiro
a falta de repente habita
a falta é coisa infinita
a falta é como tudo e mais
no divã as meias sempre aflitas
miolo de pote e dançarinas
uns faunos, uns que já disseram
umas folhas de papel manteiga
aquilo que me alumia
o candeeiro de meuzói
as praças lá de caicó
e de uma lagoa seca
puxinanã e mato dentro
a soledad de um passeio
navio à velas apagadas
veleiro de moral suspeita
subo rápida no barco alheio
pirata sem deixar a ilha
capitã de minhas muitas vidas
vou só no meio dos bilhões
vou junta delxs todxs, bois,
franceses e tupinambás
boiada, noiada, completa
incompletude de uma reta
navego sobre a hipocrisia
e minto quando dá vontade
sem tocar na água subo a maré
gçuz do cel, delz, ave marinha
e durmo ouvindo uma fita.





