alguém deve ser
pouco chegado
a generosidades
senão a quem oferecerias
tanto amor, sangue,
sacrifício e cura?
precisas daquele
cheio de facas
e ferrões
para com tuas mãos
precisas, doces
desarmantes
transformares gume
em beijo, abraço.
careces de um cacto
que tenha espinho
para cada poro
teu, macia carne
que geme perdões
na entrada e na saída
quando sorris
ao retirares
gentil
de cada mão tua
de uma cada minha
mão e pés meus
o prego de 6 polegadas
(asteísmo, zombaria).
alguém, por sorte
ou vício
encontras
em meio ao lixo
da deseducação
e paciente,
medicinal
aplicas ternuras
compressas, bálsamos.
ao mesmo tempo
ensinas lições máximas
e mínimas
delicadas
teus olhos preparando
enquanto falas
um tesouro inusitado
de palavras
que também será,
em breve,
lágrimas, afagos.
atiro dardos.
teu coração, teu sexo,
teus olhos, os alvos.
com lança e flecha
e arco e arma
pesada
ataco.
acerto tua boca.
me retornas o falso
frescor de tua dor
ainda morna
atada a um laço
de tinta
não impresso,
um cadáver
que devo adorar
porque assim
tão morto e já
ressuscitado
me libertará
do pesadelo do
pecado, do degredo
desse dia e dos outros
todos
que virão.
se não fosse minha
vaidade
estendida na grama
espessa, no chão
queimado,
não fosse minha
rala ironia, diz-me,
onde irias expor
com zelo
tua hipocrisia - gorda
magra verde
violeta, lírio -
linda! desenhada
à mão?
cada qual com
seu manto tremulante -
a espada da verdade
ainda úmida
de verdades -
brande, brada
a vitória da inocência
da boa vontade
e o bando celebra
não a derrota
dos inimigos - que não são
disso -, mas a glória
e santidade da guerra
que puderam evitar
por serem de mais
longo alcanço
os seus mísseis.
se não fosse eu
ter sido, ter levado
tanta desonra
por existir apenas,
mas também por percorrer
as tendas derramando insultos
contra teu senhor,
desdenhando sábios e guerreiros,
nos heróis cuspindo perdigotos
fartos de vírus, de malícia
e calúnias, profanando a face
que se aproxime ao suficiente
contato - : eu contamino.
se não fosse eu?
se não fosse
ser como eu
ou um, uma,
à minha imagem
e gestos e cores
estapafúrdias
como dormirias
tão boa noite
justa, sono cumprido
para que possas
acordar reluzente
de gratidão ao dia,
mais um em que
dirás ao mundo
do fundo de tua
humildade e
gratidão: é hoje,
amigos.
se não entendes
não te constranjas.
não te concentraste
a sério, não queres
esse rastro de bichos
esse hálito fedido
esse agressivo aceno
tão impudico
porque és leve,
saudável, espírito
afável que não se curva
à violência
nunca,
não empunhas nunca
nada além do teu
esplendor,
nunca
um grito descabido
nunca
nenhum filtro
sobre teu rosto puro.